Mãe emprestada

    Está aqui ao meu lado e ouve as palavras que dizemos para as escrever no seu caderno pautado. Ouve o frio a chegar com a sua subtil luminosidade, nos lugares onde costumávamos encontrar-nos para conversar o que precisávamos para podermos estar um com o outro.
    Um dia conheci-a e percebi que era uma pessoa com quem se deseja falar todos os dias para saber como vão as coisas. Se estamos tristes, em êxtase, com uma felicidade contida, ou simplesmente perdidos.
    Boa tarde, sento-me numa cadeira de metal verde da Mexicana e ouço as suas escolhas, livros e discos para compreender como é, a desembaraçar-se do medo, vejo-a escrever e pedir-me que escreva para ela, e percebo que nos une uma cumplicidade baseada na importância das palavras. No significado que podem adquirir.
    Quando andei ao seu lado na rua, as pessoas olhavam para mim com inveja, queriam ter alguém tão afável com quem conversar tanto tempo. Por isso, percebo bem os que gostam dela, porque diz sempre ao que vem e nunca diz mal de nada nem de ninguém. A sua bondade é construída à base de sorrisos e gargalhadas, e isso faz os outros comungar com o pedaço de vida que também lhes pertence, e que ela lhes sabe oferecer.
    Aquele bocado de saudade que nos une a todos, de querer saber como se está, de pensar que se está bem, de palavras anteriores que ficaram guardadas num lugar onde estão seguras e onde ninguém lhes pode mexer, está agora encerrado num silêncio cheio de recordações.
    Comecei a recordá-la para a poder ouvir todos os dias, quando percebi que nunca se iria zangar. Sabia-a incapaz de ficar zangada. A última coisa a acontecer no mundo seria ver-lhe furor nos seus olhos limpos.
    Estou a lembrar-me do seu desejo de escrever um livro, de o merecer, por saber como dedicar-se ao mesmo tempo a muita gente, a esquecer-se sempre de si e a fazer das tripas coração para agradar a todos, e de isso a enriquecer a ponto de fazer transbordar a generosidade que gostava de ver os outros aceitar.
    Escreva menos, precisa de escrever menos e ler mais, e depois voltar a escrever mais e mais até escrever tanto que se esquece do tempo em que nunca alinhavou uma palavra depois da outra. Interessa lutar, mesmo que custe muito, porque assim as coisas parecem mais certas.
    Hoje anda de certeza a fazer o que sabe e lhe interessa e que outras pessoas vão lendo ao mesmo tempo que crescem, anda a acumular papéis para um dia redigir mais poemas, prosas curtas e um livro que lhe agrade.
    Pode ser que seja apenas a minha imaginação a querer pregar-me partidas, e então começo a pensar que ela deve estar a cuidar de quem não pode viver sem ela e a tomar notas nos intervalos. Notas tão precisas como os recados que me escrevia. Agradeço-lhe a gratidão de me ter sido emprestada durante um bocadinho, porque assim posso ler o poema que um dia publicou e dizer que está tudo bem.
    FIM.


    «Shakespeare's Predecessors in the Drama. The English drama as it developed from the Miracle plays has an interesting history. It began with schoolmasters, like Udall, who translated and adapted Latin plays for their boys to act, and who were naturally governed by classic ideals. It was continued by the choir masters of St. Paul and the Royal and the Queen's Chapel, whose companies of choir-boy actors were famous in London and rivaled the players of the regular teacthers. These choir masters were out first stage managers. They began with masques and interludes and the dramatic presentation of classic myths modeled after the Italians; but some of them, like Richard Edwards (choir master of the Queen's Chapel in 1561), soon added farces from English country life and dramatized some of Chaucer's stories. Finally, the regular playwrights, Kyd, Nash, Lyly, Peele, Greene, and Marlowe, brought the English drama to the point where Shakespeare began to experiment upon it.»
    [in English Literature - Its History And Its Significance For The Life Of The English-Speaking World, por William J. Long, The Athenaum Press (Ginn And Company), 1909]

    Tananananã, tananananatanã, tananananã, tananananatanã, tãaaaaa, tãaaaaaaa...


    Parece que António Sérgio era um «independente», que amava a rádio, a quem toda a gente deve alguma coisa, por ter sido, como de facto foi, uma pessoa generosa, com ouvintes, colegas, amigos. Concordo com tudo o que é dito. Também fico agradecido ao António Sérgio, mas teria sido agradável que todos aqueles que agora se desmancham em expedientes para lhe prestar a homenagem devida, o pudessem ter realizado antes, quer dizer, quando o homem ainda estava vivo. Pelo menos, ele poderia agradecer condignamente. Só que agora assiste-se a esta convulsão de choros compulsivos, lágrimas discretas no canto do olho, de caras tristonhas e saudosas, sem que o visado possa corresponder, sem poder dizer nada, nem sequer pagar um copo à malta. Um ou outro artigo na imprensa, a alegria impassível de alguém (o MEC) que, no tempo devido, soube escrever sobre o artista da rádio, alguns programas de rádio dedicados ao autor. Tudo que o faria corar de vergonha, e que lhe daria uma alegria imensa. Tenho para mim esta incapcidade, que não é apenas tuga, de ninguém conseguir tratar os vivos com a qualidade, atenção e o carinho com que se tratam os mortos. Sinceramente, acho esta habitual tendência para valorizar quem morre e não está cá para poder ver, de uma morbidez tão agudizante como o cheiro a mofo. Nem a melhor naftalina, que se entranha na fronha (e roupa) de uma pessoa e nunca mais desanda, que é capaz de levar o maior dos brutamontes ao tapete, é capaz de acabar com o cheiro a mofo sem fazer estragos. É como quando uma pessoa deixa de respirar e, caramba, falece. Há um cheiro que se entranha na pele e nunca mais sai, por muita cal que se lhe ponha em cima. Cheira-me que seja a decomposição ou lá o que é.

    WAYD 8 - com Pedro Pacheco


    É já amanhã, dia 5 de Novembro, às 21h, que decorrerá a oitava edição do WAYD, no auditório da Sede Nacional da Ordem dos Arquitectos (Banhos de São Paulo, Lisboa). Desta feita, o arquitecto convidado é Pedro Pacheco. Luís Gomes, Ricardo Vicente e Tiago Coelho, do ON studio, propõem-se também apresentar a proposta de Reformulação da Praça de Touros de Santarém; e, os LGLS arquitectos lda, o projecto de Remodelação do Edifício-Sede da Madan-Parque de Ciência (no Campus da Universidade Nova de Almada). O WAYD é uma tertúlia onde os arquitectos são convidados a partilhar experiências no domínio da sua prática profissional, tem um carácter informal, pelo que a entrada é livre ao público em geral. Para além disso, o ambiente é reforçado pelo alto patrocínio de uma marca de vinhos, que disponibilizará diversas garrafas para degustação. Apareçam.

    O detalhe

    «Só compreendemos um edifício se a nossa experiência for persuasiva para nós: só se ocupar um lugar em que podemos sentir a relação dela com os funcionamentos da vida moral. Mas o que é esse lugar? Devemos responder à pergunta, se queremos dar uma caracterização completa do significado dos edifícios. Pelo que disse neste capítulo [«Expressão e Abstracção»], parecia que a operação central em todo o gosto estético, seja na forma primitiva ou intelectual, é o sentido do pormenor. É mediante a intervenção deste sentido que as formas e os materiais se tornam objectivos, prenhes de exigências e significados que tanto restringem como libertam o arquitecto, o restringem para o estilo e o libertam da fantasia. É através do sentido do pormenor que os significados arquitecturais se tornam «enraizados» na experiência, e é no adequado uso do pormenor que mesmo o construtor mais irreflectido se sente confiante do que faz.»
    [«Estética da Arquitectura», Roger Scruton, Edições 70]

    Shooping

    O senhor Silva


    Há dois tipos de sítios onde me desloco com regularidade por gostar de comer pão. A Aldeia de José Franco, onde se compram broas de milho e centeio como nunca comi em mais lado nenhum. E uma padaria numa localidade chamada Alcainça, onde compro uns pães grandes a um padeiro a quem, por pudor, nunca perguntei o nome. Felizmente, fui esclarecido pelo papelucho amarelo da ASAE, que lhe fechou a chafarica até que o senhor Silva* tenha o cuidado de a adequar a uma qualquer modernidade que, julgo, será mais saudável por causa do inferior nível bacteriano. Tem graça. Uma padaria que deveria ser modelo para outras padarias, quer dizer, com um forno de lenha enorme e um balcão, nada mais, só o forno à antiga e o balcão, foi fechada pelos zelosos instrutores a mando daquele igualmente zeloso ser nomeado George, que antes de ser Director-Geral de Saúde aparecia na televisão qual sem-abrigo à procura de tacho. E a fama do homem é tão credível, que agora não consegue convencer ninguém que pertença ao auto-denominado 'grupo de risco', a tomar a vacina contra a gripe A. É tão, tão agradável, ver a nossa padaria de eleição fechada que, ao bater com o nariz na porta, dei-me ao trabalho de ler o papel que justifica, em tom pedagógico, a intenção por detrás do encerramento. «Fulano de tal está a envidar esforços para adequar este espaço a, e tal, e tal, e tal.» Ora, francamente, o padeiro não está a fazer nada disso. Isto já me parece perseguição da mais torpe, ao nível da intimidação sectária nazi. Porque, se formos a ver a questão com olhos, digamos, de quem tem três diopetrias para cima, o que perpassa (palavra chique) é uma nebulosidade digna de fazer o mais arguto dos bêbados desejar encontrar o fundo da garrafa. O palavreado lembra-me o nível de intimidação que um certo arquitecto usava com as suas meninas. A ASAE anda de punho em riste à procura de tudo aquilo que possa incomodar a saúde do cidadão. É por isso que a roulotte do Zé Tolas, estacionada nas imediações de um dos mais belos e seguros bairros de Lisboa, caracterizado pela fauna diversificada e por quarteirões com nomes de consoantes, Chelas, ainda frita as bifanas no óleo que a bisavó Joaquina dele usava. Então a ASAE esconde-se dos violadores, traficantes e codrelheiros? Foi por razões tão distintas quanto esta que, a partir de um determinado dia, Portugal, catano, passou a poder constar na lista de países civilizados que começou a disponibilizar aos seus ilustres cidadãos galheteiros invioláveis de azeite de marca nas mesas dos restaurantes. Acabou-se o azeite dos tios, dos primos, dos avós, aquele néctar cuja origem todos desconhecem mas a quem toda a gente reconhece qualidade. Deixou de ser possível a um tio chegar a nossa casa e dizer, Tenho cinquenta litros daquele azeite lá de cima (nunca percebi porque razão o azeite nunca é lá de baixo), a bom preço. As medidas da ASAE estão a ser responsáveis pela destruição do núcleo familiar, o senhor George anda de punho em riste a querer dar picas em toda a gente e a instruir o povo na boa arte de preservar a saudinha. Pensava eu que o punho levantado estava relacionado com a defesa do proletariado. Mas assim como a moda dos galheteiros durou cerca de 12 meses, também me enganei quanto à bondade do dito senhor. Os doutores que andam a recusar a vacina contra a gripe A por provir (chique) de origem questionável é que a sabem toda. Vou dar o recado ao padeiro de Alcainça. Pode ser que ele levante o punho e arremesse ao apóstolo George um pêro com envergadura pasteleira.
    * A verdadeira identidade do padeiro foi ocultada para preservar a ASAE e os seus representantes de eventuais represálias. O senhor Silva* afiança que está prontinho (uma espécie de prontidão mais exequível e respeitável) para meter as mãos na massa e tratar da saúde a quem lhe tirou o pão da boca.

    Relembrar o verão


    Vinho: Quinta de Sant’Ana
    Colheita Seleccionada: 2008 Rosé
    Produtor: Quinta de Sant’Ana do Gradil
    Região & País: Vinho Regional Estremadura & Portugal
    Preço: €6 a €8,5
    Produzido a partir das castas: Touriga Nacional, Aragonês e Castelão
    Aparência: Cor vermelho vivo e intenso, cristalino, com uma limpidez tonal translúcida
    No nariz: Aromas a frutos vermelhos, a morango, cereja, com expressivas notas florais e de citrinos
    Na boca: Doce e fresco, bastante frutado (melão, ameixa, maçã) e mineral, com algumas notas de especiarias
    Final: Fresco, com ligeira impressão madeirizada e um aroma a fruta (toranja, pêssego, morango) que persiste

    Impressões gerais: É um vinho elegante e equilibrado, com um perfume intenso a frutos do bosque (frutos vermelhos) e enorme potencial. Denota grande harmonia entre o perfume, a estrutura e a cor. As notas frutadas têm uma base mineral, relevada pelo toque subtil da canela, da pimenta e do açafrão. Não sendo taninoso, é um vinho aveludado, pouco encorpado, com um nível de álcool de 12,5%, e uma leve acidez. Essa textura faz sobressair o contraste entre o elevado número de matizes amargas e doces, mantendo uma espessura fina, consistente, fácil. É um vinho generoso, que deve ser bebido a uma temperatura baixa (entre o 5º e os 9º). O carácter sazonal dos rosés é, neste caso, atenuado. Pode e deve ser bebido em outras épocas do ano, mesmo as mais frias. Sendo assim, por ser untuoso e muito jovem, pode servir de acompanhamento a uma entrada que inclua cogumelos do bosque, vinagrete de mel, canela (ou outras especiarias), a um creme de castanhas com maçã e pesto de coentros, a uma entrada com fois-gras, a pratos de peixe fresco e a sobremesas que incluam chocolate negro, frutos vermelhos, baunilha, pudins e doces de colher com natas.

    De um lado qualquer

    Do debate (conversa) de ontem na FNAC Chiado, a que assisti em parte, retive a discussão sobre os homens e as mulheres na obra de Agustina Bessa-Luís. E, nem de propósito, deixarei aqui um excerto da interpretação da autora, do livro «Contemplação Carinhosa de Agustina» (Guimarães Editores), uma recolha da sua 'produção jornalística', uma súmula que permite um contacto certeiro com a sua postura e a tendência ensaística dos seus livros. Antes, destaco da conversa decorrida no debate, a capacidade que Agustina tinha de valorizar o que escrevia. Para quem escreve, é natural o reconhecimento. Afinal, ela apenas faz (ou fez) o que deveria fazer, e o que todos os autores deveriam exigir de si mesmos: a valorização daquilo que escrevem. Senão, Agustina teria pudor em pedir os «425 contos» de réis devidos por um conto a publicar numa revista -- fê-lo a Patrícia Reis. Quem for culto percebe que a escrita de um conto é tão difícil quanto a elaboração de uma ideia para um projecto de arquitectura e até o seu desenvolvimento, que envolve repetição mecânica de gestos, inserção no projecto de uma parafernália de 'signos', códigos e afins, para tornar o objecto legível ao comum dos mortais. Tal como no uso da palavra, dos seus significados, regras gramaticais e tudo isso. E foi muito engraçada a confissão, penso que de Francisco José Viegas, sobre uma conversa tida com a autora portuense, em que ela justificava o facto de Portugal ser um país de poetas, por ser também um país de preguiçosos. Melhor, que os livros dos poetas ficam bem nas prateleiras. É giro, hã, não concordam? De facto, poucos se atrevem à escrita do romance. É mais fácil alinhavar umas palavras e chamar-lhes poesia. Ai, as almas poéticas a revolverem-se! Já para não referir a redundante recusa de algumas editoras em fomentarem a escrita do romance, por se permitirem publicar o ilegível (em idioma luso e não só), e por trabalharem melhor com autores, digamos, 'agenciados'. Americanices? Sei lá. Com outra metodologia talvez existissem mais leitores, certo? Inês Pedrosa também confessou que os poetas são mais bem tratados pela crítica do que os romancistas. Deveria estar a dizê-lo para Helena Vasconcelos, crítica literária do jornal Público, presente na mesa. Tenho para mim uma explicação para o que disse: com a excepção de António Lobo Antunes, a maioria dos livros escritos por autores portugueses não se presta a interpretações metafóricas (como Helena Vasconcelos tão bem sabe), mas a arremessos ao nível da adjectivação mais jocosa. Querem exemplos? Pronto, contenho-me. Daí que seja muito mais fácil arriscar uma crítica (relativamente hostil) a um romance, a um texto em prosa, do que a um texto poético, embora o contrário seja igualmente plausível se ultrapassadas as questões éticas e aquele sentimento plural e contagiante: «coitado, é poeta». Para além disso, julgo, são poucos os que criticam livros de ambos os géneros com a capacidade de separarem a condescendência (vulgo, pena) despertada, da vontade com que ficam de fazer cair as espada de Dâmocles sobre o autor em análise. É isso ou aquele sentimento patriota de sermos poucos, portanto, unidos venceremos e seremos melhores pessoas, nação, do que separados e às turras. Ora, isto sugere que os críticos do género poético são mais bondosos e tolerantes com os autores do que os críticos de todos os outros géneros literários, sobretudo, o romance. Que raça, esta gente que lê e escreve sobre poesia, deveriam aprender com os críticos literários sérios, pá, que não têm papas na língua e deitam cá para fora o que lhes vai nos coraçõezinhos a transbordar de ternura e bondade. Toda a gente sabe que um crítico literário (espeficamente, de prosa) é um escritor em potencial, portanto, a inimizade criada com autores que já conseguiram publicar serve, e é preciso dizê-lo, para abrir portas. Ou ainda ninguém percebeu a lógica do raciocínio? Pôssa, é preciso explicar tudo. Agora que já alimentei outras inimizades no 'meio literário' (cá estou eu a citar-me a mim próprio, o que só prova que acabei de ler o último livro de Lobo Antunes, e por isso pergunto directamente ao autor: para quando um Volume, em vez de um livro tão 'fininho'?, obrigado, fico à espera do próximo, porque tenho saudades de 600 e tal páginas de texto omnipresente), agora, o excerto, como prometido:
    «Muita coisa se tem dito sobre essas mulheres [«nos meus livros»], e se tem discutido e inventado. As mulheres que eu sempre preferi são de certa maneira vulgares, mas não conhecidas. Em geral, o que dominou sempre na literatura foi o tipo de masculinidade ideal, um tipo que todos aplaudimos e de que nos honramos. É do tipo do homem prático, amante da verdade e, como tal, insensível ao que se chama «o sobrenatural quotidiano». Ora, as mulheres dos meus romances têm esse pacto com o sobrenatural quotidiano. Não precisam de ser sacerdotizas, nem feiticeiras, para entrar no recinto da experiência humana, em que os conflitos com elas próprias superam a porfia com o objecto. Por isso, não raro essas mulheres parecem cruéis, porque a alegria não é a sua forma de condescendência. Elas são puras, mas não vazias; a impureza não faz parte da sua ignorância e, decerto por isso mesmo, não as afecta.
    Em geral não há livros escritos por mulheres. Por homens, tão-pouco. São fêmeas as que se confessam em páginase páginas de queixume ou de triunfo sexual. E os homens escrevem de maneira submissa à sua masculinidade. Só alguns, muito poucos, têm a anomalia de ultrapassar as raias desse dever - o de serem machos exemplares. Quando isso acontece, são mais profundos do que o mar e mais vastos do que o mundo. Mas não se parecem ao gigante Golias nem ao valente Sansão, ambos perfeitos modelos de marcialidade.
    A escrita marcial, eis o que predomina na literatura. Há sempre um castelo a defender, um fosso a transpor, um perigo a rodear. Tudo são tácticas de guerra, e não sei se até no «estado de graça» de que fala Inácio de Loyola, não haverá um estado de guerra que foi substituído por outra obsessão. Sem obsessão não há obra que valha. Ela alimenta o mistério do homem e experimenta a sua realidade.
    Eu desejaria ter sido o poeta Lenz. Não exactamente para cair na sua depressão e tentar resolvê-la através dos artifícios da literatura, mas para conhecer o sofrimento na sua dimensão mais nobre: o sofrimento do desespero, aquele que não admite consolação alguma.
    Há personagens na minha obra que se aproximam desse estado de desespero. Porém, conseguem criar uma barreira entre o facto e a consciência que o explora. Explorar um facto até ao seu limite, requer muita coragem, sobretudo se a pessoa sabe que vai decerto encontrar algo que a humilha. O homem nasce com o destino que o seu arquétipo lhe sanciona, e a raiz do seu sofrimento é a distância entre o arquétipo e a realidade.
    Quando se anuncia que atravessamos uma era de corrupção, temos que considerar um factor importante: hoje tornou-se menos deprimente, menos acusador, dizer sim ao mundo. A isto chamamos corrupção; mas não será isto uma fase de libertação? Fase imperfeita, e atropleada, e insegura, mas, mesmo assim, útil ao esclarecimento do homem.»
    Corri o risco de ter sido desagradável. Estou a penetenciar-me pelo facto com a leitura da primeira antologia de humor da revista The New Yorker, «Fierce Pajamas». Grato pela atenção.

    O início

    A partir de agora, atelier aberto aqui. Arquitectura, urbanismo, design. Sintam-se à vontade para solicitar trabalhos, colocar questões e pedir conselhos.

    8ª Bienal Internacional de Arquitectura de São Paulo



    (clique na imagem para ler melhor)
    A 8ª Bienal Internacional de Arquitectura de São Paulo está prestes a 'arrancar'. A representação oficial portuguesa é de luxo, desta feita sob a égide titular, «Cinco Áfricas Cinco Escolas» . O arquitecto Manuel Graça Dias, comissário da exposição portuguesa, explica aqui em pormenor as intenções subjacentes à escolha dos representantes da delegação lusa, que recaíram sobre os arquitectos: Inês Lobo, Pedro Maurício Borges, Pedro Reis, Jorge Figueira e a dupla Pedro Navara+Nuno Vidigal. Todos eles apresentam trabalhos realizados em África, a propósito das razões que a seguir se destacam: «a acção (da qual resulta a mostra que será exibida no Brasil) envolve cinco equipas às quais foram encomendadas cinco propostas concretas de projectos para edifícios escolares de grande qualidade arquitectónica e de baixo custo, fortemente "sustentáveis", em termos de manutenção futura e de resposta, quer social quer ambiental; projectos que serão posteriormente oferecidos pelo Estado português às nações africanas presentes na C.P.L.P. (Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique).» A partir de 31 de Outubro e até 6 de Dezembro, quem puder, dê o 'salto' ao Parque Ibirapuera, em São Paulo, Brasil.

    Geração Z



    Foi inaugurada «Geração Z#1», com os MOOV + ARQUITECTOS ANÓNIMOS. Uma exposição que pretende apresentar uma 'nova geração' de arquitectos e novas práticas. Aos ateliers (e arquitectos), é pedido que mostrem o seu trabalho, apropriando-se do espaço tridimensional da galeria de exposições da sede da Ordem dos Arquitectos, tal como antes o tinham feito bidimensionalmente com as páginas do caderno GERAÇÃO Z da revista arqa. O trabalho apresentado e a forma da sua exposição serão, deste modo, da responsabilidade criativa e produtiva dos ateliers envolvidos, sob a supervisão curatorial da Secção Regional Sul da Ordem dos Arquitectos. Este programa compreende não só um ciclo de exposições, mas igualmente o lançamento de uma revista-catálogo «GERAÇÃOZ #1», a realização de uma série de conferências-debate com os ateliers e críticos convidados, a abertura do blog «http://geracaoz.worldpress.com» e, finalmente, a antevisão do próximo ciclo com a conferência «NEXT: GERAÇÃO Z #2» (Embaixada + Extrastudio + plano b + ReD). Mais informações aqui e aqui.

    NYRB

    O novo blogue da The New York Review of Books. Aqui.

    Reler a Cidade como uma Utopia


    Lisboa 'lida' pelo arquitecto João Luís Carrilho da Graça: «Lisboa é, como todos sabemos, belíssima e bastante incómoda. A topografia barroca das sete colinas transforma os mais simples e descuidados volumes em presenças fortes, por vezes inesperadas e sempre iluminadas pela luz reflectida na extensa superfície de água do rio e mar da palha. O estuário é o tesouro à volta do qual se vai desenvolver a Grande Lisboa.» Ler na íntegra aqui.