O tom da nostalgia

    São inúmeras pessoas que perderam o pio em 2009. Onde, senão no NY Times? Assim dito, pode parecer que 'perder o pio', finar, falecer, ir desta para melhor, é uma coisa gira. Não é. É o fim. Kaput. Acaba-se a boa vida, a vida razoável, a vida desgraçada, a vida, enfim, termina. Pouco fica para fazer. O corpo já não ajuda. Apesar de tudo, são textos com o tom apropriado. Histórias resumidas de pessoas importantes porque, bem ou mal, viveram. Não é esse o motivo principal para se querer contar como foi uma vida?

    WAYD 9, com João Pedro Falcão de Campos



    João Pedro Falcão de Campos (Lisboa, 1961) não é apenas um arquitecto qualificado, é também uma referência. Licenciou-se em Arquitectura em 1984 pela FA/UTL, colaborou desde 1993 nos atelier's de Álvaro Siza e Gonçalo Byrne, sendo também professor convidado da disciplina de Projecto do curso de arquitectura do Instituto Superior Técnico. Dos seus projectos e obras destacam-se a Casa Saraiva Lima na Quinta da Foz, em Alcácer do Sal, seleccionada para a fase final do Prémio Secil de Arquitectura 2002 e Prémio Mies Van der Rohe 2003; a Casa Tomé Lopes, o projecto de remodelação no Arco Cego em Lisboa e a Casa Saraiva Lima em Famais do Meio, Santa Catarina, em Alcácer do Sal. Se os visitantes deste espaço vasculhassem o sitemeter, perceberiam que, a par de João Luís Carrilho da Graça (JLCG), JPFC é um dos nomes que remete mais vezes para cá. Ora, João Pedro Falcão de Campos é o convidado principal da próxima sessão WAYD, a nona, que decorrerá hoje, a partir das 21h, no auditório da Ordem dos Arquitectos (Banhos de São Paulo, Lisboa). Nesta ronda, participam ainda João Alegria e Tânia Fonseca, do atelier Void Architecture, com o projecto de Loteamento "Quinta Maria Pires" na Amora, Seixal; e, Paulo Carvalho e Susana Correia, do atelier Prod Arquitectura, com o projecto "Casa no Sítio do Eirado", em Esposende. A presença de arquitectos estagiários confere-lhes um crédito.

    Coisas que acontecem 2


    Ontem à noite, o carro do meu irmão ficou todo partido depois de levar com um veículo da PSP em cheio, quando saía de uma zona de estacionamento junto a uma paragem (de autocarro) próximo da zona da Madre de Deus, em Lisboa. Sete carros de polícia (que por lá passaram) mais tarde, com respectivas equipas e membros, ele escreveu no auto pretender estar a realizar uma «inversão de marcha» quando se deu o acidente. Embora não estivesse, de facto, a fazê-lo. O poder intimidatório da polícia é claramente uma 'arma'. Quando convém, e no que lhes diz respeito, convém sempre, para evitar a responsabilidade e fazer acrescer ao cidadão o ónus, a culpa. Na realidade, o carro do meu irmão estava ligeiramente de lado, portanto, alegadamente, tanto podia estar a sair daquele lugar para seguir em frente, como podia estar a realizar uma manobra de inversão de marcha, quando a viatura da polícia que circulava em excesso de velocidade lhe embateu na parte de trás do automóvel, junto à roda traseira, ao eixo (que foi para o galheiro), e de tal maneira que o airbag lateral do carro dele disparou. Isto apenas sucede acima dos 70 km/h. Escusado será dizer que o carro da PSP ficou bastante destruído, vulgo, sem frente, o que, deduzo, obrigará a uma boa justificação para prevenir o polícia de pagar os danos. Ora bem, não tendo havido testemunhas (vamos lá ver se não aparecem agora testemunhos novos proferidos por senhores agentes da autoridade), gostaria de realizar algumas perguntas bonitas: quem vai multar o polícia por circular claramente em excesso de velocidade? Quem vai retirar a carta ao polícia por ter colocado em risco a vida de um cidadão? Quem vai provar que o polícia e os seus amigalhaços intimidaram o cidadão a escrever no auto uma coisa que, não tendo acontecido, não podia ser tomada como facto? Pois, bem me parecia que a situação se vai inverter de tal maneira que o cidadão vai pagar a conta sem, no entanto, o dever. Aliás, depois de saber disto lembrei-me imediatamente do célebre acidente na Avenida da Liberdade, ocorrido na passada semana, com as viaturas oficiais do secretário-geral do Sistema de Segurança Interna e juiz-conselheiro Mário Mendes, que pertencia ào Ministério da Administração Interna, e uma outra da Assembleia da República (parece que de Jaime Gama). Qual vai ser a versão que constará do auto realizado pelo Comando Metropolitano de Lisboa da PSP? A que melhor convier a ambos os serviços, porque, neste caso, não estamos a tratar de cidadãos comuns, mas de pessoas de gabarito? Deveria ser uma afirmação, não é verdade?

    Coisas que acontecem 1


    Marquei para hoje a instalação do serviço MEO. Primeiro, porque aprecio o trabalho do Ricardo, do Tiago, do Miguel e do José Diogo Quintela. Repare-se que nunca é possível escrever só José, é nome que não se predispõe a ser verbalizado isolado, e dos três, é o único que se apresta a estes despropósitos linguísticos. Segundo, porque já tinha tido uma experiência, digamos, por palavras bonitas, má, mesmo rasteirinha, ali mesmo ao nível da pior 'judiaria' (perdoem-me os judeus) que se pode fazer a alguém, com a ZON, antiga TVCabo, que embora me cobrasse menos dinheiro, forçava-me a telefonemas dispendiosos, porque nunca inferiores a 17 minutos de duração. Mas, tendo marcado a instalação para hoje, dia 30 de Novembro, véspera de feriado e dia de «ponte», então não é que a mesma foi desmarcada! A razão? 'Problemas técnicos impedem-nos de realizar a instalação'. Apreciei a subtileza, e foi por esse motivo que não cancelei. Aliás, sinto que os 'problemas técnicos' serão resolvidos até ao final da semana. Também me cheira, mas não sei se isso é bom ou não.

    Arquitectura a preços reduzidos


    (clique para ver melhor)

    Decrorrerá amanhã, no auditório da Ordem dos Arquitectos, ao Cais do Sodré (Banhos de São Paulo), a segunda sessão da série «É possível fazer boa arquitectura com orçamentos reduzidos?». Desta feita, os projectos e intervenientes serão os seguintes:

    Balance Health Club & SPA, Caldas de Rainha (Rui Dias)
    Apartamento na Junqueira, Lisboa (Filipe Borges de Macedo)
    Casa FIVI 2, Vila Nova de Cerveira (Francisco Spratley)
    Uniscala Interiores, Porto (Cláudio Vilarinho)
    Casa em Gavião (Maximina Almeida + Telmo Cruz)

    A entrada é livre.

    Metáfora sobre a Arte de Cozinhar, o Belo, o Prazer e tudo o envolvido na Grastronomia 'e seus molhos'


    «O que se Leva desta Vida», uma co-produção do Teatro São Luiz com o Mundo Perfeito, é mais do que uma peça de teatro. É um statement sobre o estado das coisas na alimentação. Desde a equipa de produção, à dramaturgia e consultores, é tudo luxuoso. Digno de cinco estrelas Michelin, se tratássemos da qualidade do restaurante, mas digno também por ser um espectáculo que pode e deve ser exportado. O risco de cozinhar em cena, a ambiguidade que os dois cozinheiros (personagens) principais reproduzem, numa luta intensa por uma postura decisiva sobre a arte de confeccionar, merece respeito. A peça reproduz com uma fidelidade incrível o ambiente de uma cozinha de um restaurante gourmet, a vida, esse pedaço de todos e que a todos diz respeito, descrito com um rigor intenso e, a maior parte das vezes, num registo cómico, divertido ou, simplesmente, convidativo a uma reflexão mais profunda. Sim, cozinhar tem a ver com a vida, e isso é determinante, porque a forma de viver tem uma intensidade filosófica extrema (ou não, depende da disposição, como se verá na peça). Isto a par do ambiente, das marcações, de tudo o que esteve envolvido na base (o chamado ‘trabalho de sapa’) deste exercício de inteligência. O texto foi tratado por Gonçalo Waddington, João Canijo e Tiago Rodrigues, o primeiro e o último, actores principais da peça, o do meio, responsável pela dramaturgia, o que se entende perfeitamente. João Canijo é um realizador conhecido não só pelo seu trabalho de investigação sociológica (antropológica e afins), mas também pela carga dramatúrgica com que encena todos os seus filmes. Para além disso, é um connaisseur das lides gustativas ao nível da haute cuisine. Alguns dos consultados para este trabalho foram, Carmen Ruscalleda, do Restaurante Sant Pau, Juan Mari Arzak, do Restaurante Arzak, Martín Berasategui do Restaurante Martín Berasategui e Santi Santamaria, do Restaurante Can Fabes. José Avillez também deu uma ajuda, entre muitos outros, como Frederico Ribeiro e Diana Carvalho, chef’s presentes em cena, esta última a dar origem a um dos momentos mais inauditos, quando os dois chef’s principais lhe perguntam se foi ela a autora (repare-se no requinte) do Risotto, ao que anui, para de seguida lhe ser dito em tom jocoso, ‘Está muito bom, sim senhor, qualquer dia temos que te despedir’. É isto, mais coisa menos coisa, que atravessa a hora e meia de espectáculo. Entrevistas, estágios compulsivos, contratação de ‘escravos’ (os figurantes) para transpor para o público uma experiência inesquecível. Ficam as perguntas: deve-se cozinhar pelo Prazer de preparação de um prato, pela sua raiz tradicional (embora adaptada), é a diferença que confere credibilidade e distinção a um produto regional, ou apenas interessa o aspecto estético, o Belo, do prato confeccionado com a última tecnologia tecno-emotiva, cuja confecção se perfaz pela capacidade de usar plenamente o azoto líquido? O verdadeiramente real é a 'chispalhada', a feijoada e o prego como não há em mais lado nenhum (de Lisboa), ou as 'variações sobre a alheira: areias, crocantes, gelatinas e gelado'? A melhor refeição e/ou experiência gustativa é dada pelo pato do aviário, ou pela caça genuína? As respostas estarão ao dispor dos mais ariscos (e curiosos) até ao próximo domingo, dia 22, no restaurante «Cópia», na Sala Principal do Teatro São Luiz, em Lisboa. De quarta a sábado, às 21h e Domingo, às 17,30h. E, por certo, em dúzia e meia de reposições que se seguirão.
    Ficha Técnica

    TEXTO
    GONÇALO WADDINGTON
    JOÃO CANIJO
    TIAGO RODRIGUES

    ENCENAÇÃO E INTERPRETAÇÃO
    GONÇALO WADDINGTON
    TIAGO RODRIGUES

    DRAMATURGIA
    JOÃO CANIJO

    COLABORAÇÃO ARTÍSTICA
    THOMAS WALGRAVE

    CONSULTORIA
    DIANA CARVALHO
    FREDERICO RIBEIRO

    FIGURANTES
    ARIKSON MARTINS
    BRUNO CANAS
    CLÁUDIA COSTA
    EMERSON LOPES
    MARIANA DE SAMPAIO GONÇALVES
    TIAGO CARDOSO
    VÂNIA BORGES
    VÍDEO
    BRUNO CANAS

    PRODUÇÃO
    MAGDA BIZARRO

    ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃO
    MARIANA DE SAMPAIO GONÇALVES

    ENTREVISTAS E
    COLABORAÇÃO NA PESQUISA
    CARME RUSCALLEDA
    (Restaurante Sant Pau)
    JUAN MARI ARZAK
    (Restaurante Arzak)
    MARTÍN BERASATEGUI
    (Restaurante Martín Berasategui)
    SANTI SANTAMARIA
    (Restaurante Can Fabes)

    FOTOGRAFIA DO CARTAZ
    RITA CARMO

    CO-PRODUÇÃO
    SLTM ~ MUNDO PERFEITO

    RESIDÊNCIA DE CRIAÇÃO
    ESPAÇO ALKANTARA

    Classificação: (0-5) Cinco estrelas (mais as Michelin)

    Mãe emprestada

    Está aqui ao meu lado e ouve as palavras que dizemos para as escrever no seu caderno pautado. Ouve o frio a chegar com a sua subtil luminosidade, nos lugares onde costumávamos encontrar-nos para conversar o que precisávamos para podermos estar um com o outro.
    Um dia conheci-a e percebi que era uma pessoa com quem se deseja falar todos os dias para saber como vão as coisas. Se estamos tristes, em êxtase, com uma felicidade contida, ou simplesmente perdidos.
    Boa tarde, sento-me numa cadeira de metal verde da Mexicana e ouço as suas escolhas, livros e discos para compreender como é, a desembaraçar-se do medo, vejo-a escrever e pedir-me que escreva para ela, e percebo que nos une uma cumplicidade baseada na importância das palavras. No significado que podem adquirir.
    Quando andei ao seu lado na rua, as pessoas olhavam para mim com inveja, queriam ter alguém tão afável com quem conversar tanto tempo. Por isso, percebo bem os que gostam dela, porque diz sempre ao que vem e nunca diz mal de nada nem de ninguém. A sua bondade é construída à base de sorrisos e gargalhadas, e isso faz os outros comungar com o pedaço de vida que também lhes pertence, e que ela lhes sabe oferecer.
    Aquele bocado de saudade que nos une a todos, de querer saber como se está, de pensar que se está bem, de palavras anteriores que ficaram guardadas num lugar onde estão seguras e onde ninguém lhes pode mexer, está agora encerrado num silêncio cheio de recordações.
    Comecei a recordá-la para a poder ouvir todos os dias, quando percebi que nunca se iria zangar. Sabia-a incapaz de ficar zangada. A última coisa a acontecer no mundo seria ver-lhe furor nos seus olhos limpos.
    Estou a lembrar-me do seu desejo de escrever um livro, de o merecer, por saber como dedicar-se ao mesmo tempo a muita gente, a esquecer-se sempre de si e a fazer das tripas coração para agradar a todos, e de isso a enriquecer a ponto de fazer transbordar a generosidade que gostava de ver os outros aceitar.
    Escreva menos, precisa de escrever menos e ler mais, e depois voltar a escrever mais e mais até escrever tanto que se esquece do tempo em que nunca alinhavou uma palavra depois da outra. Interessa lutar, mesmo que custe muito, porque assim as coisas parecem mais certas.
    Hoje anda de certeza a fazer o que sabe e lhe interessa e que outras pessoas vão lendo ao mesmo tempo que crescem, anda a acumular papéis para um dia redigir mais poemas, prosas curtas e um livro que lhe agrade.
    Pode ser que seja apenas a minha imaginação a querer pregar-me partidas, e então começo a pensar que ela deve estar a cuidar de quem não pode viver sem ela e a tomar notas nos intervalos. Notas tão precisas como os recados que me escrevia. Agradeço-lhe a gratidão de me ter sido emprestada durante um bocadinho, porque assim posso ler o poema que um dia publicou e dizer que está tudo bem.
    FIM.


    «Shakespeare's Predecessors in the Drama. The English drama as it developed from the Miracle plays has an interesting history. It began with schoolmasters, like Udall, who translated and adapted Latin plays for their boys to act, and who were naturally governed by classic ideals. It was continued by the choir masters of St. Paul and the Royal and the Queen's Chapel, whose companies of choir-boy actors were famous in London and rivaled the players of the regular teacthers. These choir masters were out first stage managers. They began with masques and interludes and the dramatic presentation of classic myths modeled after the Italians; but some of them, like Richard Edwards (choir master of the Queen's Chapel in 1561), soon added farces from English country life and dramatized some of Chaucer's stories. Finally, the regular playwrights, Kyd, Nash, Lyly, Peele, Greene, and Marlowe, brought the English drama to the point where Shakespeare began to experiment upon it.»
    [in English Literature - Its History And Its Significance For The Life Of The English-Speaking World, por William J. Long, The Athenaum Press (Ginn And Company), 1909]

    Tananananã, tananananatanã, tananananã, tananananatanã, tãaaaaa, tãaaaaaaa...


    Parece que António Sérgio era um «independente», que amava a rádio, a quem toda a gente deve alguma coisa, por ter sido, como de facto foi, uma pessoa generosa, com ouvintes, colegas, amigos. Concordo com tudo o que é dito. Também fico agradecido ao António Sérgio, mas teria sido agradável que todos aqueles que agora se desmancham em expedientes para lhe prestar a homenagem devida, o pudessem ter realizado antes, quer dizer, quando o homem ainda estava vivo. Pelo menos, ele poderia agradecer condignamente. Só que agora assiste-se a esta convulsão de choros compulsivos, lágrimas discretas no canto do olho, de caras tristonhas e saudosas, sem que o visado possa corresponder, sem poder dizer nada, nem sequer pagar um copo à malta. Um ou outro artigo na imprensa, a alegria impassível de alguém (o MEC) que, no tempo devido, soube escrever sobre o artista da rádio, alguns programas de rádio dedicados ao autor. Tudo que o faria corar de vergonha, e que lhe daria uma alegria imensa. Tenho para mim esta incapcidade, que não é apenas tuga, de ninguém conseguir tratar os vivos com a qualidade, atenção e o carinho com que se tratam os mortos. Sinceramente, acho esta habitual tendência para valorizar quem morre e não está cá para poder ver, de uma morbidez tão agudizante como o cheiro a mofo. Nem a melhor naftalina, que se entranha na fronha (e roupa) de uma pessoa e nunca mais desanda, que é capaz de levar o maior dos brutamontes ao tapete, é capaz de acabar com o cheiro a mofo sem fazer estragos. É como quando uma pessoa deixa de respirar e, caramba, falece. Há um cheiro que se entranha na pele e nunca mais sai, por muita cal que se lhe ponha em cima. Cheira-me que seja a decomposição ou lá o que é.

    WAYD 8 - com Pedro Pacheco


    É já amanhã, dia 5 de Novembro, às 21h, que decorrerá a oitava edição do WAYD, no auditório da Sede Nacional da Ordem dos Arquitectos (Banhos de São Paulo, Lisboa). Desta feita, o arquitecto convidado é Pedro Pacheco. Luís Gomes, Ricardo Vicente e Tiago Coelho, do ON studio, propõem-se também apresentar a proposta de Reformulação da Praça de Touros de Santarém; e, os LGLS arquitectos lda, o projecto de Remodelação do Edifício-Sede da Madan-Parque de Ciência (no Campus da Universidade Nova de Almada). O WAYD é uma tertúlia onde os arquitectos são convidados a partilhar experiências no domínio da sua prática profissional, tem um carácter informal, pelo que a entrada é livre ao público em geral. Para além disso, o ambiente é reforçado pelo alto patrocínio de uma marca de vinhos, que disponibilizará diversas garrafas para degustação. Apareçam.

    O detalhe

    «Só compreendemos um edifício se a nossa experiência for persuasiva para nós: só se ocupar um lugar em que podemos sentir a relação dela com os funcionamentos da vida moral. Mas o que é esse lugar? Devemos responder à pergunta, se queremos dar uma caracterização completa do significado dos edifícios. Pelo que disse neste capítulo [«Expressão e Abstracção»], parecia que a operação central em todo o gosto estético, seja na forma primitiva ou intelectual, é o sentido do pormenor. É mediante a intervenção deste sentido que as formas e os materiais se tornam objectivos, prenhes de exigências e significados que tanto restringem como libertam o arquitecto, o restringem para o estilo e o libertam da fantasia. É através do sentido do pormenor que os significados arquitecturais se tornam «enraizados» na experiência, e é no adequado uso do pormenor que mesmo o construtor mais irreflectido se sente confiante do que faz.»
    [«Estética da Arquitectura», Roger Scruton, Edições 70]

    Shooping

    O senhor Silva


    Há dois tipos de sítios onde me desloco com regularidade por gostar de comer pão. A Aldeia de José Franco, onde se compram broas de milho e centeio como nunca comi em mais lado nenhum. E uma padaria numa localidade chamada Alcainça, onde compro uns pães grandes a um padeiro a quem, por pudor, nunca perguntei o nome. Felizmente, fui esclarecido pelo papelucho amarelo da ASAE, que lhe fechou a chafarica até que o senhor Silva* tenha o cuidado de a adequar a uma qualquer modernidade que, julgo, será mais saudável por causa do inferior nível bacteriano. Tem graça. Uma padaria que deveria ser modelo para outras padarias, quer dizer, com um forno de lenha enorme e um balcão, nada mais, só o forno à antiga e o balcão, foi fechada pelos zelosos instrutores a mando daquele igualmente zeloso ser nomeado George, que antes de ser Director-Geral de Saúde aparecia na televisão qual sem-abrigo à procura de tacho. E a fama do homem é tão credível, que agora não consegue convencer ninguém que pertença ao auto-denominado 'grupo de risco', a tomar a vacina contra a gripe A. É tão, tão agradável, ver a nossa padaria de eleição fechada que, ao bater com o nariz na porta, dei-me ao trabalho de ler o papel que justifica, em tom pedagógico, a intenção por detrás do encerramento. «Fulano de tal está a envidar esforços para adequar este espaço a, e tal, e tal, e tal.» Ora, francamente, o padeiro não está a fazer nada disso. Isto já me parece perseguição da mais torpe, ao nível da intimidação sectária nazi. Porque, se formos a ver a questão com olhos, digamos, de quem tem três diopetrias para cima, o que perpassa (palavra chique) é uma nebulosidade digna de fazer o mais arguto dos bêbados desejar encontrar o fundo da garrafa. O palavreado lembra-me o nível de intimidação que um certo arquitecto usava com as suas meninas. A ASAE anda de punho em riste à procura de tudo aquilo que possa incomodar a saúde do cidadão. É por isso que a roulotte do Zé Tolas, estacionada nas imediações de um dos mais belos e seguros bairros de Lisboa, caracterizado pela fauna diversificada e por quarteirões com nomes de consoantes, Chelas, ainda frita as bifanas no óleo que a bisavó Joaquina dele usava. Então a ASAE esconde-se dos violadores, traficantes e codrelheiros? Foi por razões tão distintas quanto esta que, a partir de um determinado dia, Portugal, catano, passou a poder constar na lista de países civilizados que começou a disponibilizar aos seus ilustres cidadãos galheteiros invioláveis de azeite de marca nas mesas dos restaurantes. Acabou-se o azeite dos tios, dos primos, dos avós, aquele néctar cuja origem todos desconhecem mas a quem toda a gente reconhece qualidade. Deixou de ser possível a um tio chegar a nossa casa e dizer, Tenho cinquenta litros daquele azeite lá de cima (nunca percebi porque razão o azeite nunca é lá de baixo), a bom preço. As medidas da ASAE estão a ser responsáveis pela destruição do núcleo familiar, o senhor George anda de punho em riste a querer dar picas em toda a gente e a instruir o povo na boa arte de preservar a saudinha. Pensava eu que o punho levantado estava relacionado com a defesa do proletariado. Mas assim como a moda dos galheteiros durou cerca de 12 meses, também me enganei quanto à bondade do dito senhor. Os doutores que andam a recusar a vacina contra a gripe A por provir (chique) de origem questionável é que a sabem toda. Vou dar o recado ao padeiro de Alcainça. Pode ser que ele levante o punho e arremesse ao apóstolo George um pêro com envergadura pasteleira.
    * A verdadeira identidade do padeiro foi ocultada para preservar a ASAE e os seus representantes de eventuais represálias. O senhor Silva* afiança que está prontinho (uma espécie de prontidão mais exequível e respeitável) para meter as mãos na massa e tratar da saúde a quem lhe tirou o pão da boca.

    Relembrar o verão


    Vinho: Quinta de Sant’Ana
    Colheita Seleccionada: 2008 Rosé
    Produtor: Quinta de Sant’Ana do Gradil
    Região & País: Vinho Regional Estremadura & Portugal
    Preço: €6 a €8,5
    Produzido a partir das castas: Touriga Nacional, Aragonês e Castelão
    Aparência: Cor vermelho vivo e intenso, cristalino, com uma limpidez tonal translúcida
    No nariz: Aromas a frutos vermelhos, a morango, cereja, com expressivas notas florais e de citrinos
    Na boca: Doce e fresco, bastante frutado (melão, ameixa, maçã) e mineral, com algumas notas de especiarias
    Final: Fresco, com ligeira impressão madeirizada e um aroma a fruta (toranja, pêssego, morango) que persiste

    Impressões gerais: É um vinho elegante e equilibrado, com um perfume intenso a frutos do bosque (frutos vermelhos) e enorme potencial. Denota grande harmonia entre o perfume, a estrutura e a cor. As notas frutadas têm uma base mineral, relevada pelo toque subtil da canela, da pimenta e do açafrão. Não sendo taninoso, é um vinho aveludado, pouco encorpado, com um nível de álcool de 12,5%, e uma leve acidez. Essa textura faz sobressair o contraste entre o elevado número de matizes amargas e doces, mantendo uma espessura fina, consistente, fácil. É um vinho generoso, que deve ser bebido a uma temperatura baixa (entre o 5º e os 9º). O carácter sazonal dos rosés é, neste caso, atenuado. Pode e deve ser bebido em outras épocas do ano, mesmo as mais frias. Sendo assim, por ser untuoso e muito jovem, pode servir de acompanhamento a uma entrada que inclua cogumelos do bosque, vinagrete de mel, canela (ou outras especiarias), a um creme de castanhas com maçã e pesto de coentros, a uma entrada com fois-gras, a pratos de peixe fresco e a sobremesas que incluam chocolate negro, frutos vermelhos, baunilha, pudins e doces de colher com natas.