Fisionomia de contrastes



A morte é esguia e surpreendente. Para lá do seu encerramento, há um pensamento recorrente que a todos deve importunar: afinal, sobra o quê depois do corpo moído ser atraído pela penumbra que o arruína?
Em A Morte a Veneza, Thomas Mann não configura o sabor da morte, porque não lhe faz juz. Deixa-a para a última página depois de contar uma história. A história de um homem que vê em Veneza a beleza oculta e a traduz no fascínio, por vezes pueril mas profundamente "pedófilo", por um jovem rapaz. Um tema difícil que neste livro ganha os contornos atrás da “justificação” da luxúria. Ou não, talvez se refugie na inocência da observação.
Aschenbach nunca chega a revelar o amor à carne, ao físico, limita-se a recuperar os limites da beleza humana exibidos pelo seu adolescente de estimação, Tadzio, um polaco de fisionomia deslumbrante, a quem analisa e tenta compreender. Pela aparente semelhança com o amor à imaculada aparência feminina? Pela analogia? A possibilidade de definição desta ideia é improvável.
Esta narratina é essencialmente uma viagem pela cidade de Veneza, pelo emudecer das paredes mornas, pela pontes, desde o Lido até à Praça de São Marcos, numa profusão de andamentos sem contrangimentos e perdas de memória. Para o homem que viaja e dali retira o seu retemperamento, as forças ganhas, por sentir o peso recuperador da cidade além da doença aparentemente latente nos canais estreitos. As palavras dominam o pensamento como uma esfinge corteja os seus interlocutores em observação. É tudo directo e preciso.
Veneza mostra Palladio, ruas entrecortadas pela difusão do calor e do frio. No inverno uma lagoa repleta, no verão uma cidade seca mas abrangente. Ao longo dos cafés e das esplanadas, por onde os gondoleiros bordejam as paredes e os passageiros com salpicos de água. Empunhando enormes bastões de madeira com os quais empurram aqueles barcos tão belos e únicos.
Com pequenas recorrências ao universo filosófico de Platão, às guerras deíficas, Mann mostra claramente que a boa ficção, a que faz viajar, não tem necessariamente de ser exaustiva. Basta-lhe possuir a simplicidade e o rigor da descrição elementar, que opina com a honestidade de uma suave brisa a passar pelas cortinas de um hotel de onde se consegue ver uma mancha de água límpida, no interior do silêncio. Uma visão que ninguém recusaria. [RP]

Título: A morte em Veneza
Autor: Thomas Mann
Editora: Relógio D’Água

2 comentários:

C.S.A. disse...

Eu até podia pedir desculpa, mas não peço, exijo: um livro traduzido tem um tradutor e o tradutor tem nome. Onde consta ele aqui?

azia disse...

dizer "mas profundamente pedófilo" é profunda patetice.