Cultura teatral

Jorge Silva Melo, autor, encenador, leitor, actor, sempre ‘perseguiu’ livros - de teatro e outros, por ver nestes uma extensão do seu trabalho e existência. “Vivi sempre a ler, de Walter Scott e Salgari por aí fora. Eram as minhas prendas de anos na infância mais as prendas de Maio ( a Feira do Livro que ainda era na Avenida da Liberdade, ao pé do Tivoli), foram sempre o resultado das viagens, li, reli, não li alguns que comprei sei lá porquê, perdi ou emprestei outros.” Assim permite-se estruturar valências que utiliza no dia-a-dia. “Não me imagino sem ler - romances, poesias, alguns ensaios. Ultimamente, por cansaço talvez tenho lido biografias, cartas, diários, pouca ficção. Adolescente, lia teatro. As peças de Sartre, Miller, Camus, Ibsen, Tchekhov, Strindberg... surgiam nas colecções de prestígio das melhores editoras. E eram lidas por quem lia. A pouco e pouco o teatro passou a ser lido só pelos que se interessam por teatro, pelos "profissionais da profissão" e começaram a existir colecções especializadas. Eu tenho pena. Fui educado a misturar tudo, teatro, poesia, novelística estrangeira ou portuguesa - e gostei disso.” Cinema, teatro, qual destes escolher? “O teatro é mais rápido: pensa-se, faz-se, mostra-se, fecha-se o assunto. O cinema anda muito complicado de produção. No teatro diz-se o que se tem a dizer no espaço de uma vida, seis meses chegam. E numa altura em que o mundo muda com esta velocidade, é mais simples pensar em fazer teatro, anda mais perto da mão e do tempo de feitura. E eu ando com pressa.” O teatro deveria manter um papel importante no quotidiano dos cidadãos. “Eu creio que toda a gente diz que gosta de teatro. A pouco e pouco, com a desagregação das cidades, com a atomização da vida profissional e da área residencial, o teatro fugiu. E se agora vemos muitos jovens a assistir aos espectáculos de teatro, a pergunta que faço é sempre esta: "porque é que, cinco anos depois, já não vemos os mesmos rapazes e raparigas, mais velhos, mas encontramos novos jovens?" Não gostaram? Ou foi o carro, o andar, o filho, as férias no méxico que ganharam a primazia? O certo é que o Teatro Nacional D. Maria II é aquela bizarma oca e ninguém se importa. Isso não aconteceria em nenhum outro país que eu conheça, não acontecia mesmo. O teatro é uma actividade marginal mesmo quando muito oficial ou muito comercial. E no entanto ele é a vida.” Daí esta interrogação: como é o panorama editorial português no campo da literatura teatral, as peças em cena, a adesão de públicos ao diversos géneros teatrais, o modo de encarar o teatro por parte dos agentes que o promovem e por parte da tutela ‘política’? “Actualmente e à excepção honradíssima da Cotovia, quase ninguém edita teatro. Edita a Campo das Letras, a Relógio d´Agua, poucos mais. E mesmo autores que em qualquer país estão nas livrarias são por cá raridades editoriais: onde comprar um Ibsen? Ou um Gorki? Ou um Goldoni? Ou Marivaux? Ou.... ( a lista é longa). Por outro lado, os teatros nacionais têm tido uma política ainda muito titubeante no que diz respeito à venda e à edição de textos teatrais. Alguns grupos independentes tentam impor colecções, projectos, ideias. Mas que dizer quando sabemos que não se encontram à venda as traduções da Luíza Neto Jorge (Genet, Pasolini, Lorca...), Armando Silva Carvalho (Genet), Osório Mateus ( Feydeau) e por aí fora... A "tutela política " (que expressão!, mencionada na pergunta) não tem tido a mais pequena ideia do que é o teatro, a edição, a cultura: limita-se a empatar quem anda a fazer essas coisas.” Para compensar estas falências, que ler/ver para manter alguma ‘cultura’ teatral? “Brecht na edição que agora a Cotovia está a fazer, Shakespeare é claro, mas Pirandello também ( onde?), Genet (onde?), Heiner Mùller (está para sair um volume novo), Sarah Kane (Campo das Letras), Harold Pinter ( Relógio d´àgua), Ibsen (está para sair), Jon Fosse (Campo das Letras e Artistas Unidos), é claro.” [RPF]
[Este é o texto integral de uma entrevista, do qual foram publicados excertos na Revista Os meus livros, edição de Março de 2006].

1 comentários:

Anónimo disse...

Keep up the good work »