Viagem ao Paraíso




O Hotel Amanjiwo ergue-se com vista para Borobudur, o maior templo budista do mundo, na Ilha de Java, Indonésia. Um lugar onde o tempo perece ter deixado de ser contado, é um bom poiso para quem ‘anda a fugir do mundo’ e gosta de ambientes luxuosos. Amanjiwo quer dizer ‘almas pacíficas’. Quem aqui vem fica envolvido por esse estado de espírito enunciado pela paisagem, de um verde cálido, pela tranquilidade e serenidade absolutas. O que nos tempos que correm é uma excelência, poder usufruir de um espaço sem multidões de turistas por perto, um espaço convidando à meditação e à introspecção, ao reparo das forças perdidas no quotidiano. Sim, é um luxo, mas essa não é a sua maior virtude. O que distingue este de outros hotéis é não só a sua localização, mas o facto, desde logo indicado pelos preços elevados, da exclusividade do edifício – um monólito de pedra circular, um antigo templo budista –, e das condições superiores do serviço oferecido ao hóspede, fazendo uso de uma tradição cultural secular. Se observado de longe, o edifício principal é rodeado de vegetação que o insere placidamente sobre as manchas de cor verde das folhas de palma.
Além das paisagens verdejantes, dos campos de arroz, do “espírito de Java”, que vai beber à cultura budista alguma da sua génese filosófica, aqui reflectida, tem-se a possibilidade de escolher entre uma das 14 suites com piscina privada, das 21 suites com jardim ou, para quem pode pagar mais, da suite Dalém Jiwo. Uma pequena “casa” com dois pavilhões (quartos), um terraço em forma de rotunda aberto sobre a depressão do vale, com vista para as montanhas de Menoreh e Kedu Plain, e um enquadramento visual para o templo de Borobudur e Tidar, o centro geográfico da ilha – rodeado por quatro vulcões inactivos –, uma piscina japonesa privada revestida a pedra com 15 metros de comprimento e criado disponível 24 horas por dia. Todas as outras suites têm um pavilhão a que os locais chamam "kubuk" – um abrigo bastante convidativo, coberto com palha suportada por uma estrutura de madeira, com um cama de dia, para o repouso de uma sesta prolongada e noites mais longas providas de luz lunar.
Sobre o pavimento de pedra da entrada jorram pétalas de jasmim. Quatro meninas indonésias recebem os hóspedes sorrindo, vestidas de sarongs japoneses e tiaras de melati, atirando sobre eles as pétalas de flores. Uma nota: apesar do susto, e da recente tragédia, este lugar não foi afectado pelo sismo que afectou uma parte do país.
Na renovação do edifício impera, sobretudo, o revivalismo adaptado às necessidades de um uso contemporâneo. A recuperação denota bom gosto, contenção, apesar de alguns tiques decorativos. As camas de terraço em madeira escura, os tecidos de cores fortes, o mobiliário (em madeira de coco e outras), os revestimentos em pedra de cores neutras, as banheiras de terraço, os castanhos escuros e claros dos interiores, a limpidez espelhada da água na piscina de 40 metros, acessível a todos os hóspedes, revestida a pedra de Yogja, enunciam uma aventura exótica entre templos submersos e ruínas carregadas de mistério.
Fora dos aposentos, o que há para explorar é de uma extensão e diversidade vastíssimos. Ocasionalmente, os grandes ‘sinos’ de pedra, despojados de vida, que se vêem ao longe, lembram tempos de um culto de outrora – por exemplo, do século VIII, o monumento de Candi Mendut, com uma estátua esculpida em pedra, de um Buda com três metros de altura.
O Hotel Amanjiwo fica na Indonésia, a uma hora do aeroporto de Yogyakarta e a duas horas do aeroporto Solo. Faz parte de uma cadeia de hotéis que cultiva o gosto pelo luxo e exclusividade. É perder o amor ao dinheiro e dar lá um salto. [Ruben P. Ferreira]

[texto revisto e ampliado, publicado na revista Dependente n.º 10, da edição n.º 690 do jornal O Independente, de 3 de Agosto de 2001] {actualizado}

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