Viola e ensino

A propósito de alunos e professores, ontem foi-me contada uma história muito reveladora. Um aluno (miúdo) meu conhecido, de uma família com parcos recursos financeiros, pai em parte incerta e mãe ausente, chama a avó de encarregada de educação e os professores acham estranho. Quando alguém fala dos pais na sala de aula, o rapaz baixa os olhos. Depois de um ano de aulas, os professores - representados pela directora de turma - quiseram saber o motivo desse constrangimento. Foi-lhes dito, e a jovem professora ficou comovida, correram-lhe lágrimas pelo rosto quando soube a razão de o Ricardo (nome fictício) ficar um pouco incomodado quando a conversa resvalava para a paternidade. Para o ano, o Ricardo (vamos chamar-lhe assim) terá de escolher que instrumento musical tocar. Falou disso aos avós, e a avó referiu o facto à directora de turma durante a conversa que mantiveram, e ela, embevecida, decidiu tomar medidas. Porquê? Ao contrário de alguns dos seus colegas, o Ricardo tem notas muito razoáveis. Sente apenas algumas dificuldades a Matemática, como a maior parte - eu próprio só assumi a Matemática como uma disciplina essencial na faculdade. Lê os livros que tem à mão e pede ajuda aos amigos quando sente dificuldades, que puxam por ele e o intrigam e provocam. A vida não é fácil, por assim dizer, mas ele é um aluno esforçado e vai dando provimento como pode a todas as solicitações. O reconhecimento da sua performance e do seu bom comportamento ao longo do ano veio da parte dos professores, que instigados pela directora de turma, uma mulher jovem, decidiram oferecer uma viola de presente ao Ricardo no final do ano. Assim poderá tocar o instrumento musical de que gosta mais, mesmo que no futuro sinta que o piano, o baixo, o violino ou a bateria são melhores companheiros. O desafio intelectual está consumado. Toda a gente teve a "fase da guitarra", e o Ricardo não é diferente de 'toda a gente'. Tem menos dinheiro à sua volta, ao contrário da maior parte dos seus colegas. A moral da história? Ainda existem professores com vocação, e alunos que, beneficiando do facto, se tornam melhores pessoas. Estes pequenos nadas concretizam o ensino, na sua vertente pedagógica e social. O que nesta história difere da maioria de histórias disponíveis é a dificuldade. O Ricardo nunca sentiu nada como garantido, aceitando com humildade o louvor que lhe foi feito por mérito próprio. Embora viva num bairro social por vezes perigoso, não enveredou pela via do facilitismo, pois não inveja o bem-estar dos outros. Faz a sua parte, nada mais. Infelizmente, este exemplo é uma excepção à regra. São bastantes os marginais que divagam por ruas e becos outorgando os fracos recursos como justificação para o seu mau comportamento. Há dois dias, por exemplo, enganando-me num caminho para me dirigir a Lisboa, dei por mim numa rua estreita do bairro das Galinheiras (ou semelhante, pois não domino a nomenclatura), parado atrás de um automóvel que teimava em ficar parado. Senti uma certa agitação dentro do automóvel à minha frente, portanto esperei para ver o que sucedia. O que aconteceu? Um dos quatro jovens, muito agitado e divertido, abriu um pouco o vidro de trás do lado do condutor e começou aos tiros com uma espingarda - não, não era uma 'pressão de ar'. Depois dos tiros o automóvel abandonou o local com os quatro jovens no interior. Fiz marcha a ré e fui-me embora enraivecido. Por culpa minha - por me ter enganado no caminho - e por culpa do tipo que desatou aos tiros por puro divertimento. Pois é, enquanto uns se acometem em pequenos delitos, outros esforçam-se por serem melhores pessoas. [RPF]