Fecho {actualizado}

O jornal onde comecei a escrever vai fechar. Acabaram-se os títulos sensacionalistas e irreverentes, mas divertidos. Acabou-se a especulação que por vezes tinha um fundo de verdade. Acabou o único jornal português onde foi possível inovar, criar, inventar, inverter, renovar, escrever inconscientemente com a faca nos dentes, dizer mal e dizer bem sem qualquer pudor, poeticamente ou com a ponta dos dedos tão quente que fervia. Há alguns anos terminou esta necessidade de ir ao quiosque adquirir o jornal, aberto com orgulho em todas as mesas e esplanadas. Deixou de haver dinheiro para trabalhar seriamente quando o jornal foi vendido e adquirido por particulares. Mas apenas se pode fazer jornalismo sério e de qualidade com muito dinheiro. O Independente acabou, e terminando fecha-se um ciclo penoso de quebra nas vendas. Fecha-se também um ciclo jornalístico (político), de que destaco a publicação das melhores revistas que algumas vez li -- a par da também extinta Grande Reportagem. O caderno 3, por exemplo, com sugestões culturais que sempre arruinaram os orçamentos reduzidos dos seus leitores (ou não), com Reportagem, coisa varrida da maior parte das publicações jornalísticas nacionais. Reportagem com interesse e prosa bem vertida, corrijo. Revistas que muita gente ainda guarda e relê, muitos deles jornalistas à procura de histórias e de inspiração. Coincidências da dita contemporaneidade. Aquela era (foi), provavelmente, a única redacção onde o humor a diversão a acutilância e inteligência a qualidade pululavam contaminando todos os redactores, colaboradores, fotógrafos, revisores, secretárias, onde trabalhar nunca foi um peso, uma carga, uma obrigação, mas um prazer. Onde se aprendia, lendo e escrevendo. Qualquer das pessoas que por lá passaram pode reproduzir, confirmar, reafirmar estas palavras. Vão ser muitos os que oferecerão os seus sinceros pêsames perante a morte do semanário O Independente. Também é pena por isso, porque há sempre muita gente a marcar presença nos velórios e funerais, a odiar o morto, a sorrir placidamente por dentro como se a tristeza os tivesse invadido por fora. [Ruben P. Ferreira]

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