Para além do horizonte




O único senão desta viagem é a tradução feita com pouco rigor, sem respeito pela linguagem original, pela narrativa, com confusões constantes acerca do lugar do sujeito numa frase. O leitor debate-se, também, com as consequências dessa falta de rigor: a adjectivação excessiva, frases que perdem o sentido, ideias que se vão dispersando no contexto, este acabando por definhar numa amálgama de pensamentos legíveis mas de leitura bastante difícil, sendo, por isso, um desgosto passar os olhos por esta escrita.
Mas se conseguirmos vencer e ultrapassar este pormenor – infelizmente, assim considerado por alguns –, é possível encontrar na escrita e nos livros de Bryson (por exemplo, em Made in América, da mesma editora, Quetzal) um gosto pela descrição do inesperado. As suas diversas idas à Austrália para escrever este livro revelam-no, bem como um empenho de entendimento da realidade social, psicológica e visual (arquitectura, geografia) de um país por si peculiar.
Este livro foi desse modo enriquecido generosamente com histórias divertidas, e outras de um sadismo atordoante. Por exemplo, a história de um casal que ficou esquecido pelo agente de viagens numa ilha, durante um passeio em grupo. Vendo-se abandonados, tentaram nadar no mar alto a caminho de uma massa rochosa de coral, desaparecendo no percurso, provavelmente comidos por tubarões. Assustados? Pois bem, podem ler-se algumas histórias aterradoras, embora, aparentemente, a Austrália seja um país pacífico. Apesar de ter sido inicialmente uma colónia penal inglesa que, num determinado momento, emancipou-se. Diz o autor: “Em geral, o período de desterro era de sete anos, mas como não era proporcionado o regresso e poucos podiam esperar reunir a importância da passagem, ser enviado para a Austrália correspondia efectivamente a uma sentença vitalícia.” A viagem durava oito meses, oito. Desde o nascimento daquela colónia, à exclusividade da sua paisagem e diversidade da vida animal, que a Austrália adquiriu um estatuto diferente se comparado com outros países. Reina a paz a uma distância segura do resto do mundo.
Na Terra dos Cangurus relata a experiência de Bryson por um dos lugares mais inóspitos do planeta Terra, um lugar muito “antigo”, onde uma grande parte das criaturas mais ferozes, mesmo minúsculas, tem residência fixa. As descrições da pior aranha à cobra mais mazona e letal, passando pelo mosquito temível que bica os incautos e os obriga a passagens inesperadas por serviços de urgências de hospitais, contaminam positivamente o humor de uma pessoa. Há também predadores, tubarões.
Seguindo o exemplo de Bruce Chatwin, Bryson descreve as suas experiências num registo literário que não é o de Goethe, como em Viagem a Itália, nem o de Alain de Botton, filósofo que escreveu um ensaio sobre a arte de viajar. Escolhe sistematizar um conjunto de opiniões que vão-se alterando à medida dos acontecimentos, reformulando o seu próprio saber enquanto viaja. Acrescentando pormenores históricos que contextualizam a história dos lugares, e do país. A aprendizagem realizada é desse modo visível para o leitor, e o autor não demonstra qualquer pudor em reflectir sobre a sua própria ignorância, os problemas com que se confronta, e os perigos ultrapassados.
Descobre-se, então, neste continente isolado, com uma vasta extensão de deserto, o improvável, as pessoas, de espírito dócil e tranquilo. Contrastando bastante com a natureza agressiva da paisagem fora de grandes centros urbanos como Sidney, Camberra, ou Adelaide. Uma das características do povo australiano é construir objectos gigantes como “objecto” de referência e diferenciação na restante paisagem, fazendo alarde a restaurantes e estações de serviço para quem passe a uma distância de quilómetros. Se bem que as cidades possuem uma identidade, o deserto australiano é largo e cobiçado por muitos pois possui riquezas ausentes de outros. É igualmente perigoso -- porque o deserto parece todo igual --, mas o acesso por estradas intermináveis aumenta o grau de perigosidade.
Por vezes, sucedem desfechos surpreendentes e tristes. Um caso envolvendo outro casal, teve um desfecho tenebroso. Depois de decidirem aventurar-se pelas areias do deserto sozinhos, o jipe ficou atascado a cerca de 60 quilómetros do primeiro indício de civilização. Por alguma razão decidida entre ambos, foi a mulher, não o homem, quem percorreu a distância a pé, debaixo do sol escaldante do deserto, na tentativa desesperada de pedir ajuda. A reserva de água que levava acabou rapidamente. Enquanto o homem sobreviveu, à sombra do jipe, apesar da desidratação, a mulher morreu no caminho.
Bem, nem tudo é mau nem triste. Há uma diversidade enorme de marcas de cerveja e são as leis regras anglo-saxónicas a reger aquele lugar.
A Austrália não é um continente mortífero. As suas cidades estão muito bem organizadas, bem construídas, há muita arquitectura para ver, reflectindo um saber que foi evoluindo com os séculos, desde a construção da primeira casa de colmo por um dos prisioneiros desterrados que assim se equiparou aos aborígenes que ali viviam. É forçoso ter esta ideia presente: tudo o que ali sucede é irrepetível em qualquer outro lugar do mundo. Quem conseguir apartar-se do perigo e quiser partir à aventura conhecerá um “país aborígene”, culturalmente irrepreensível, com uma gastronomia rica e uma civilização disposta ao sorriso e à palermice, perfeitamente justificados pela distância e singularidade relativamente ao resto da civilização ocidental. [Ruben P. Ferreira]

Título: Na Terra dos Cangurus
Autor: Bill Bryson
Editora: Quetzal Editores
Preço: € 19,70
Tradutor: Manuel Marques
Classificação: •••••• (de zero a dez)

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