Fumo de neblina




Jaime Ramos desvenda crimes como ninguém. Detective ousando viver, apaixonar-se, descrente, filósofo do senso comum, apoiante de uma tranquilidade e paz com o mundo, e farto de ver a vida morta dos outros, sobretudo, cansado da maldade, de ver passar-lhe à frente dos olhos coisas que gostaria até de nem perceber, se não gostasse tanto de ser polícia e investigar e descobrir o oculto. Homem de cruzamentos, informação e outros cruzamentos da vida, que historia enredos tentando confirmar a sua veracidade.
Longe de Manaus é um romance escrito como um policial, ou um policial escrito como um romance, em que há pelo menos três homicídios importantes: o primeiro morto é Álvaro Severiano Furtado, aparece num apartamento de um dos arredores da cidade Invicta. Uma prostituta brasileira também aparece morta próximo da casa de um advogado famoso, deitada numa cama, meio despida; e o filho de Salim Furtado desaparece depois de vaguear uns dias por Manaus, na Amazónia, Brasil. Por vezes, desencontros desenterram outros (des) encontros, as memórias, o que ficou escondido e devia ter ficado assim para sempre, mas vem ao de cima, como o azeite. A descobrir a verdade. Com um certo peso, as memórias emergem, emudecidas, a fazer uma algazarra de envergonhar os incautos.
Neste livro, o detective Jaime Ramos está sempre a desenterrar qualquer coisa, uma palavra, uma informação parcial cuja totalidade é essencial ao avanço do caso. Até à última página.
Enredo que atravessa a história da descolonização de Angola, e da cultura portuguesa e de uma solidão das pessoas quando atingidas pelas perdas, do amor, da felicidade. O que será a felicidade?, pergunta pertinente, pois a felicidade tem uma identidade diferente para cada uma das personagens. O advogado de reconhecido valor, famoso, bate à porta do gabinete de Jaime Ramos, pois quer devolver a herança do homem morto ao filho que, sabe-se mais tarde, é filho de outras pessoas, quando a proximidade agrupa as memórias e o tempo esquecido é lembrado de propósito.
Ramos desconfia, desconfia, e a medida da sua desconfiança dá o mote para a resolução do mistério. Danos colaterais confundem, dão pistas, significados difusos numa investigação que é uma teia, dominada por elos em todas as direcções.
Helena vê a sua amiga-amante ser morta, até ali empregada de um banco onde um tal de Furtado terá levantado dinheiro depois da sua própria morte. Danos colaterais, pensará Jaime Ramos, a vida está cheia de danos colaterais, e há jantares onde nem sempre se consegue ir. Acontece morrer quando menos se espera.
Francisco José Viegas volta assim à estrutura do romance, aclamado com o Prémio APE 2005. Uma escrita boa, que apaixona e leva o leitor até ao fim, emulando o problema da incapacidade portuguesa de viver com os fantasmas do passado, emergente do contexto e da métrica contextual adaptada às cidades de Manaus, Luanda ao Porto. O autor quis também escrever uma viagem com duas caligrafias distintas, a portuguesa e a brasileira, tendo escrito a dois tempos, quase a uma, duas, três vozes de um, de dois, de três narradores. [Ruben P. Ferreira]
Título: Longe de Manaus
Autor: Francisco José Viegas
Editora: Asa
Preço: €14,90
Classificação: •••••••

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