
«A história do mundo
é casa de andares, com
um só vivente, o vento.
Passeia suas chinelas
nas escadas turbulentas.
E a escuridão não sabe
de onde vem ou vai.
Nem minha carga de água.
O que passa é o que fica.
E as imagens saem das gavetas
de incaicos armários. Buscam
completar-se ou se desfazem.
As invenções são falcões
junto ao sótão; as guerras .
trovoadas; o amor, felinos
relâmpagos na cama.
Depois a história recomeça
na varanda dos sentidos ,
ou na sala. Pedras rústicas
guardam palavras indecifráveis
e bisontes. E a história humana
é a passagem do vento
sobre as ervas. E a passagem
das ervas pela pedra.
Com o teto encoberto.
O que toca o pergaminho ,
toca a intimidade das letras
ardendo. No vento
a história é combustão.
E é vento, atrás da porta,
o paraíso.»
[retirado de «Pequena Enciclopédia da Noite - Poemas Escolhidos», da autoria de Carlos Nejar, Quasi Edições, 2009, pag 21-23]

