A beleza do sono

















Há fenómenos colectivos que me surpreendem. Que seja mais fácil andar na estrada a partir do dia 18 de cada mês. A proliferação de telemóveis, em diferentes tamanhos, géneros e feitios, a ponto de impossibilitar que uma pessoa consiga escolher um modelo sem pensar que outro poderia ser melhor. Os jornais ficarem mais curtos e desinteressantes no Verão, publicando inquéritos muito pouco razoáveis. Os adolescentes andarem com auriculares nos ouvidos enquanto falam uns com os outros. A existência de muitas rotundas, muitas vezes num número por metro quadrado que acaba por fazer pensar no que poderá levar alguém a aprovar aquele método de circulação rodoviário. A plantação de palmeiras em urbanizações novas, em vez das oliveiras, carvalhos, árvores de fruto como as pereiras, e outras semelhantes, tipicamente portuguesas. A impossibilidade de encontrar produtos vegetais frescos em supermercados às segundas-feiras. O fascínio que algumas pessoas têm por ter sempre o televisor ligado, ouvindo, em vez de verem, televisão. E podia continuar. Digamos que qualquer um destes hábitos tem uma sólida explicação que o tornará perfeitamente aceitável. Até acredito nisso. É como o sono, que um autor que desconhecia até há bem pouco tempo, decidiu analisar. Tal como outros fenómenos que acontecem diariamente, na vida de cada pessoa. Peter J. Bentley («O Cientista Disfarçado – Investigando os pequenos acidentes do Dia-a-Dia», Europa-América), reflecte, por exemplo, sobre a capacidade de dormir, que é muito importante para a manutenção de uma vida saudável. Quem não consegue dormir, tem a vida feita num oito. Sabia que, para dormir aquilo que se considera uma noite boa, tem de passar por cinco fases diferentes do sono? Que, se tudo correr bem, pode acontecer até ter alguns momentos de lucidez enquanto dorme? Que, quem consegue ser ágil a esse ponto, faz o mesmo que mais de 50% da população mundial? Que o melhor sono é aquele que permite a quem dorme passar por essas fases uma série de vezes? Um bom relógio biológico interno, acaba por fazer o mais desperto adormecer profundamente, desde que se preocupe com certos detalhes. Apagar aparelhos electrónicos uma hora antes de ir dormir. Baixar a intensidade das luzes de caminho. Acredito sinceramente que em Portugal se dorme mal. É a única explicação plausível para alguns dos fenómenos citados no início. Portanto, conselho amigo, dormir mais cedo. Faz-nos melhor do que uma dúzia de bicas. E, se tudo correr bem, vamos passar a acordar todos os dias à mesma hora. Sem despertador. O dinheiro que se vai poupar na compra dos ditos.