Duas casas em Tavira

















© Fotografia: Leonardo Finotti


Um dos projectos que aprecio no panorama português, são as duas casas que Ricardo Bak Gordon (arquitecto) construiu para o artista Pedro Cabrita Reis. Localizadas na Queimada, em Tavira, Algarve, enunciam um conjunto de estratégias e uma abordagem que amplia a ideia de vivenciar o espaço, do modo de enquadramento paisagístico que conduz a uma espécie de instalação em paralelo, e de redução da capacidade de concepção a uma essência que é muito mais do que isso, porque a ‘redução’, tal como na culinária, apenas faz explodir os sabores, para o caso, convoca para aquela paisagem uma simbologia relacionada com a obra do cliente, apreciador e destabilizador dessa mesma ordem, que ali parece afinal subsistir. Evocando memórias que organizam o espaço. Dois momentos distintos, em apreciação da matéria de contemplação. Duas casas semelhantes, ao mesmo tempo diferentes, colocadas a uma distância segura, donde sobressai aquele azul luminoso das piscinas, que empreende um gesto que se contrapõe como intervenção ao modus vivendis de todos os que rumam ao Sul quando querem quebrar a rotina. Há uma apropriação daquela paisagem com esta nova imagem, uma ‘subtileza da natureza’, sobre a natureza, como Bacon lhe chama, onde as controvérsias, as considerações, se estendem num entendimento magnífico, ou seja, numa implementação do edificado que segue uma lógica de invenção que promove o entendimento do lugar. Nas duas casas, ‘uma marcação geodésica’ (assim lhe chama o autor), que confronta a arrumação localizada e o excesso de construção da zona (do distrito), fazendo das ruínas substituídas, dois monolitos que sobressaem da aparente austeridade e secura da terra à vista. Em termos puramente formais, a ideia de conceber dois paralelepípedos que, em certos locais, se esvaziam, formulando uma lógica que os relaciona com a paisagem, é consistente com a apropriação realizada da sua implantação. A ausência de cor, aliás, a escolha do branco, é tão adequada quanto as linhas de força que unem aqueles dois demolidores da lógica construtiva do betão, que encheu a maior parte daquela faixa costeira.