Ser naif
























Ser naif é decidir ir ao mercado aqui da zona, uma praça a céu aberto, uma feira, e começar a comprar. Um saco de batatas ali, uma caixa de morangos acolá, mais um saco de cebolas, de nabos, hortaliças, bananas, queijos, bolos, pão, tomates. E, quando damos por nós, temos mais de dez sacos na mão e aquilo começa a pesar. Até que, surpresa das surpresas, passa um especialista em mercados, praças e feiras a céu aberto, com um belíssimo veículo de duas rodas pelas mãos, e uma pessoa lembra-se das idas ao supermercado. Ah, pá, falhou o carrinho das compras. Esperto. Como um urbano que se preze, sacos na mão, o carro a pelo menos um quilómetro de distância, e os dedos das mãos a ficarem cada vez mais roxos. Definitivamente, há uma ciência especialista na arte de ir à feira, que permite aos doutorados ter a capacidade de se enquadrarem perfeitamente em tais lugares, extraindo dali o melhor que conseguem. Quanto a escolher, estamos conversados, a fotografia fala por si. Quanto à logística, há evidentes melhoras necessárias para que o percurso num lugar daqueles seja mais suave. Contudo, a incursão foi positiva. Os pregões das vendas são obras literárias em bruto, os trejeitos idem. O esforço de cada vendedor para chegar ao final do dia com um saldo mais positivo que o próximo é hercúleo, e visivelmente impressionante. As freguesas e os fregueses têm de andar por aquelas ruas improvisadas, e apinhadas de gente, no modo de segurança, senão começam a abrir os cordões à bolsa desalmadamente, e nada a fazer. Sai-se mais pobre, embora com a parafernália adquirida. Destaque para duas situações. Dirijo-me ao homem do pão e pergunto-lhe onde se vende a comida (legumes e afins), e ele responde que comida só no restaurante. No mínimo estranho. Concluo que devo ter ar de quem come no restaurante. Já perto da hora de retorno, quando andava desesperado a escolher quais as melhores cerejas, entre as cerca de cinquenta bancadas onde permaneciam expostas, ouço uma frase que me relembrou tempos de liceu, daquelas frases que miúdos dizem quando se querem insultar sem pudor e que, tal como na altura, me deixou boquiaberto. Uma vendedora zanga-se com uma potencial cliente e, no meio do diálogo, que teve um início auspicioso, até diria, evocativo, relacionado com o facto de ambas usarem óculos, aconselha a dita senhora que estava a tocar nas cerejas, a perceber se as deveria levar ou não, aconselha-a alto e bom som, a ir lavar os genitais. Conclusão, há pelo menos uma diferença entre ir ao supermercado e à feira. A sinceridade e a qualidade dos produtos. Para além do implícito espectáculo de variedades.