Encontro com o Vinho e Sabores















O recente encontro com vinho e sabores, organizado pela Revista de Vinhos, no espaço do Centro de Exposições da Junqueira, foi incrível. Provas para todos os gostos, com vinhos de produtores de todo o país, novidades em pleno, e conversa agradável, que é do que se fazem estes eventos. Também se come, e por volta das oito da noite de cada dia, era ver os degustes aficionados com uma sandes de presunto de tamanho incomportável, mas que raio, quando a fome aperta e o licor, de Vinho do Porto, ou os brancos frescos, puxam, nada como tentar o que é praticamente inconcebível. Não há envergadura de boca, tenta-se o impossível, avança-se sem temores. A crise ficou à porta. Fica-se para encontrar amigos e conhecer outras pessoas.
No que ao vinho diz respeito, novidades do grupo Aveleda: um espumante doce, docinho, meio seco, que se ainda não está no mercado, deve estar mesmo a chegar. Garrafa com rótulos azuis, castas Loureiro e Arinto, numa combinação impecável, com aromas muito frutados de maçãs verdes, alguma fruta madura, boa dose de gás, harmonia no palato, e que será vendido a €7,90. Como alternativa, a marca que detém uma belíssima quinta em Penafiel, se ainda não visitou, faça favor, também há estalagens e alojamentos muito acolhedores na região para que o faça com tempo, dizia, a Aveleda vai colocar no mercado um branco monocasta de Alvarinho, de aspecto límpido, brilhante, com alguma maciez de boca, e um odor intenso a flores do campo, que persiste, persiste, num final longo e apropriado. Vai para o mercado a €4,99, e continuo a apreciar brancos corpulentos mas leves, cheios de identidade, dentro de invernos rigorosos, como este parece enunciar-se.

Da Symington, que apresentou os Portos Graham’s, aqueles que nestas ocasiões ficam para o final da noite, quer dizer, quando toda a gente se encontra para fundear os acepipes, as sandes, os diversos pedaços de enchidos e os queijos, um branco e um tinto recentes, em prova: o Altano Doc Douro branco de 2010, castas Malvasia Fina, Viosinho, Rabigato e Moscatel Galego, com têmpera em cubas de inox durante cinco meses, de que resulta um líquido aromático, muito vegetal porque com uma vivacidade e intensidade que apenas um blend destes confere, com uma frescura e um grande equilíbrio entre o doce e o amargo. O tinto, de 2009, igualmente amplo, com algumas reminiscências de frutos vermelhos, contrapondo com notas vegetais mais intensas a campo silvestre, e um final ligado à madeira de carvalho, em que estagia quatro meses. Muito estilo, boa boca, untuoso, e maciez q.b..
Sem querer ser exaustivo, enumero algumas passagens, mas os produtores presentes eram mais que muitos, e as hipóteses de prova a rondar as centenas. Pois bem, descendo ao Alentejo, Vale de Barqueiros, herdade localizada na freguesia de Seda, de que se provaram dois tintos: o Vale de Barqueiros Limited Edition, com Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet e Touriga Nacional, proveniente de vinhas velhas, com uma cor bem forte, granada o suficiente para destacar, grandes aromas libertos, com algumas notas de especiarias, final longo, muito persistente e elegante, com uma intensidade que se nota também no Colheita Seleccionada, desta feita com Trincadeira, Syrah, Alicante Bouschet e Cabernet Sauvignon, num blend menos alternativo, comum por planícies planas, com bons taninos, alguma frescura, e pimenta. Dos brancos, o Colheita Seleccionada, com Antão Vaz e Arinto, é dotado. Muita mescla entre os sabores minerais, a acidez e os odores doces de alguma fruta em amadurecimento. A cor, do citrino, entre o esverdeado e o branco, com uma tendência para apresentar umas colorações amareladas.

Da Herdade do Esporão, Alentejo, portanto, a planície é adequada (e hoje, graças a Deus, é sexta-feira, o que convida ao repouso de quem para lá for), um monocasta de Petit Verdot, de 2008, que aguentaria mais cinco ou seis anos em garrafa, sem problemas. Talvez mais, até. Prova em companhia, discussão simpática sobre as evidentes notas apimentadas do conjunto, proveniente de vinhas com 10 anos, com uma grande complexidade aromática, no nariz e na boca, muita subtileza atrás do que parecia ser, um vinho por camadas, digamos assim, pelas múltiplas sensações que produz. Muito forte e intenso no início, com uma quase adstringência que lhe abafa os aromas, e depois, inicia-se a repartição a que é necessário estar atento: vegetal, taninos a rondar níveis elevados, muita terra, muita madeira, muita fruta e aroma que intensifica a cada gole, num registo cromático que mistura o rosa com o roxo. Ao fim de dez minutos, começa-se a entender o potencial, a delicadeza do conjunto, o gosto a Inverno, de notas quentes muito poderosas. Vai a €25 para o mercado, precisa de tempo, ou pede abertura de garrafa com quatro horas de antecedência antes de consumido.
Ainda no Alentejo profundo, da Casa Agrícola Herdade do Monte da Ribeira. Dois quatro caminhos, um branco, um tinto. O branco, de 2010, Atinto e Antão Vaz, muito frutado, com grande coloração, algumas notas de citrinos, equilibradas com um teor alcoólico mais elevado do que é costume num branco, no nível elevado da região, quando produz com castas portuguesas. Vai custar €8. O tinto 2009, de Syrah, Alicante Bouschet e Touriga Nacional, bom cadastro de base no teor arrazoado que o Alentejo produz, no nariz intenso a madeira, na boca mais plano, com uma boa complexidade, um pico de notas florais conjugadas com a fruta mais do que madura, e um final persistente e apimentado, que desaparece com alguma suavidade. Vai para o mercado a €16. Mas, o que destaco, apesar de ser o mais em conta, vai para o mercado a €2, é o Varal Branco de 2010, realizado com castas Roupeiro, Tamarez e Perrum. Uma combinação incrível para um vinho com um preço tão acessível, tão fresco quanto cítrico, sem exageros, com uma enorme delicadeza no palato, sem grandes pretensões. Identidade maior, muito analítica, se se puder dizer isto, sem excesso, e sem facilitismos. Começa frutado, acaba amargo. No nariz, boa combinação de laranja e limão, na boca, o travo adocicado do musgo, da pedra lascada, numa conotação claramente sólida notas minerais, e final, obviamente, curto.

Deixo outros registos para o próximo texto dedicado ao tema, sobre Quinta da Fata, Niepport, nas suas ínfimas possibilidades, um tinto e um branco do Douro, que arregimentarão hordas de adeptos, os Sexy, FitaPreta, do António Maçanita, e algumas outras escolhas que merecem referência alargada.