‘Lisbon Story’























O que é que Lisboa tem? O Frutasalmeidas da Avenida de Roma, sítio onde rumava aos quatro, cinco anos para beber sumos de fruta frescos e refeições leves. Já havia pastéis de massa tenra. A esplanada é única, a sala idem, as escadas, o revestimento colorido nas paredes, tudo adequado. Passaram mais de duas décadas. Ainda é assim. Lisboa tem disto, capacidade de regeneração, de crescimento, e de envolvimento dos seus habitantes com as suas memórias, e quando o que está em causa é comer, de se manter quieta. É metafórico, talvez excessivo, só que a evolução marcada é evidente, e o que vale a pena vai-se mantendo, com pequenas alterações que a modernidade exige.

O que faltava, e que Lisboa ainda não tinha era este guia. Miguel Pires, num ápice, pôs “Lisboa à Mesa”. Para quem desconhece, Miguel Pires é um dos autores do blog Mesa Marcada (+ Duarte Calvão e Rui Falcão), lugar onde se delibera sobre a arte de comer, beber e comprar em lugares de excepção, banais, os sítios nossos, de todos os dias. Quem ali participa já fez da comida e da bebida o seu mundo há bastante tempo, quando o gourmet ainda era uma palavra bicuda, e os chefs ainda eram cozinheiros, com o barrete branco, que alguns ainda usam para marcar a diferença entre a tradição e  o nouveau. É também crítico gastronómico, food writer, escreve sobre comida. É alguém dedicado à causa. Naturalmente, o título de um exaustivo e muito completo guia sobre onde se pode comer, comprar, e rumar em Lisboa, quando a fome aperta, tinha de ter este impacto, dando vontade a quem o lê de ‘marcar’ sessões contínuas nos restaurantes, de espatifar somas obscenas de dinheiro em lojas onde os produtos estão expostos de uma maneira tão apreciável.
Miguel Pires antes era publicitário, as suas andanças eram outras, depois começou a convergir nestas temáticas, e como passou vinte anos a viver em Lisboa, pôde comprovar do que gostava mais e menos, do que era, e é, elegível. Cafés, tascas, esplanadas, restaurantes, aromas, ingredientes, de uma cidade que acaba assim por estar descrita num livro de tamanho muito adequado para levar na mala, pasta, o que for que o transportar. Eleitos mesmo são 50 lugares da sua preferência, e 25 espaços predilectos para ir às compras, desde mercados biológicos a mercearias de bairro, em 280 entradas distintas, que especificam outras opções igualmente agradáveis e importantes.

Um dos factores “x”, e isto é usurpar completamente uma das características do livro, o “factor x” de cada local, aquilo que distingue e caracteriza –, dizia, um desses factores são os índices diferenciados, ‘tags’, que irão fazer o leitor estabelecer as suas próprias prioridades. Se pelo tipo de cozinha, se pelo preço, apresentado numa variação mínima de ‘até €15’, e máxima, de ‘mais de €50’, com outros níveis pelo entremeio. Se pelo tipo de loja. Se pelo bairro, com Lisboa geograficamente dividida em 15 zonas diferentes. O centro-centro. A ‘geografia’ tem uma amplitude ofertada pelo grafismo apelativo, design e paginação de  Luís Alvoeiro/Atelier Maga e ilustrações de Tiago Albuquerque, que remetem quem lê para a paisagem real, para o lugar, a cidade e os seus símbolos icónicos. E assim, sem se perceber, também se está a conversar sobre arquitectura, e a fazer uma viagem dentro de uma cidade que exige empenho, e que devolve tudo com a paisagem una de um rio que parece um mar.
Obviamente, há sítios que faltam. A ressalva está feita. Daí a inclusão de um email, e de uma página web, no livro, e no blogue, para gerir esse património que convém ir actualizando, com as sugestões essenciais dos leitores, dos habitués dos espaços, de quem usa e abusa e reconhece que, sem esta padaria, aquele café, o bistro da tia, a loja gourmet do primo, a mercearia de alguém desconhecido que resolveu aterrar ali, o restaurante de alguém que inova e arrisca tudo em 30 centímetros de diâmetro de loiça impecavelmente branca, a sua vida seria uma miséria. O Miguel ficará atento.

Entretanto, assinale-se também o tom divertido, embora sério, e a abordagem cool, numa linguagem acessível e activa, isto é, a mover à acção, a ir palmilhar as sete colinas e arredores. Cito algumas partes, para se perceber o modus. “Factor X: com o protagonismo dos Pastéis de Belém, admira que outras especialidades da casa, como a marmelada ou o bolo-inglês, não sejam azedos. Eu seria.” Eu desconhecia que se vendia marmelada e bolo inglês nos Pastéis de Belém, “o segredo mais bem comido”. Outra. O Casanova, no Cais da Pedra, na Bica do Sapato. “A mãe de todas as pizas.” O epíteto não é exagerado, e este já comprovei. As pizas são excelentes, as mesas corridas, a decoração da dupla de arquitectos Manuel Graça Dias + Egas Vieira impressiona, e a um sábado por volta da hora de almoço, está repleto, com tudo a afinar o palato. E a lutar pelo apuramento da receita do chá gelado, que também é uma das imagens de marcas do Lucca, numa das transversais da Avenida de Roma, onde costumam desaguar hordas de adolescentes. “Quem tem boca vai”, ali, e escuso-me à descrição das sobremesas, que são todo um programa.
Pastelaria Restelo. Lembro-me de lá comer um dia, por volta da hora do pequeno-almoço, a caminho da faculdade. O Mercado de Alvalade Norte. Ah, Alvalade. É provavelmente a melhor zona da cidade. Conheço o edifício do exterior. Vou lá entrar certamente depois de ler a descrição. A Casa da Comida, onde fiz um workshop de comida com o chef Bertílio Gomes, poucos meses antes dele abandonar a consultoria daquele restaurante. Refiro a ementa tratada: creme de castanhas e funcho, veado com puré de batata-doce, soufflé de chocolate com gelado (um dos da loja próprio Bertílio). A loja Haagen-Dazs, no Chiado. Momentos inesquecíveis, a tomar chá, a comer gelados, a ouvir o barulho dos eléctricos passar enquanto a sala esvazia. O Antigo 1º de Maio, no Bairro Alto, a comer Ossobuco, depois da vitória num concurso de arquitectura. A Casa do Alentejo, a celebrar o final do secundário.

Podia continuar, por exemplo, pela lista de sítios que ainda desconheço: o 100 Maneiras e o Bistro 100  Maneiras, do chef Stanisic, o Tavares, onde o chef Avillez determinou o renovado sucesso de uma casa mais do que decana, o Alma, do chef Henrique Sá Pessoa, o Pap’Açorda, a Manteigaria Silva, no Rossio, onde nunca fui às compras. Agora, ninguém poderá dizer que não sabe onde há-de ir jantar, ou comprar aqueles rabanetes de sabor inquestionável. O livro combina o repertório que cada um comparará com cada qual, fazendo com que toda a gente que nasceu, viveu ou ainda vive em Lisboa, que por ali passa, recorde em modo de inventário onde já foi, onde deseja ir, o que tem mesmo de saborear e conhecer para sentir o centro desta cidade. Para alguns, o centro de um Portugal igualmente vasto.