Pousio Tinto 2010









Digamos que do Alentejo se esperam coisas boas. O lema da casa Herdade do Monte da Ribeira é esse mesmo: “os bons alentejanos dão mais do que pedem”. Costuma ser assim. Pudera, a planície é solarenga, e mesmo nos invernos rigorosos, a pluviosidade é compensada por dias que, apesar do frio, conservam algum calor de terra cheia de barro, onde fica guardado. Nem que seja o calor intenso de uma lareira acesa. O odor de tijolos cozidos, que se sente em qualquer lugar em que sejam usados. Elevadas temperaturas que um verão digno também reproduz. É disto que os vinhos ali também são produzidos, do toque nos extremos, de solos ricos, e da proximidade de linhas de água que persistem, com as novas barragens a cuidarem do resto.
Este Pousio Tinto 2010, um gama-média com preço a rondar os cinco euros, como o nome indica, é uma breve, ou longa, mediante a vontade e o tempo, demonstração disso mesmo. Com um nariz cheio de enchidos ao abrir, rolha impecável – ao contrário de outras que se desfazem num ápice –, um teor a chocolate negro apreciável, alguns traços de minério (que ali também é frequente), revelado numa acidez equilibrada, com boas notas de madeira, embora não tão marcadas como se estagiasse em barrica, e que também lhe dão uma boa cor, de um vermelho translúcido.

O início de boca é muito apimentado, forte na maneira como arrepia a espinha (e a língua), e depois atenua, atenua, até um final curto, depois de apercebidos das notas fortes a baunilha e couro, de um líquido untuoso, bastante resinoso, que escorre pelas paredes do copo deixando bom rasto. Se o meu pai fosse vivo, afirmaria, pelo ‘rasto’ deixado, ser um néctar poderoso. Do ponto de vista da primeira impressão, áspero, da Syrah, terminando dócil, com taninos bem marcados, e quem apreciar sabores mais tranquilos, tem de rumar a outras paragens. A Trincadeira e a Aragonez, são castas que lhe conferem a restante amplitude aromática, e potencial vínico para repousar em garrafa.

Por outro lado, os aromas a compota e frutos do bosque acabados de colher, combinam num paladar aveludado, onde se pressente a terra, a textura aquosa, as notas vegetais fortes e permanentes, de um apuramento que também ultrapassa aquele patamar para convergir em alguma ameixa seca, que fica na boca. É um vinho a que não se fica indiferente, com uma acidez equilibrada, e um nível de álcool que, apesar de atingir os 14%, é bem suportado.
Acompanha bem pratos de peixe carnudos, como o bacalhau, a garoupa, entradas que peçam interpretação, demora e tempo de repouso entre loiças. Se combinado com figos, com amêndoas, com mel, com frutos secos de um modo geral, e com confecções bem condimentadas, e quentes, fará os comparsas felizes. Tem muito potencial vínico, e aguenta bem pelo menos cinco anos em garrafa, momento em que deverá estar ainda melhor para ser apreciado. É o que ele pede, para ser bebido. É o vinho da semana.