Um Tiro(l) aos patos (que ficam bem no arroz)



















Há bons e maus cafés-restaurantes, onde se ruma para comer mais depressa. Todos sabemos isso. Há lugares onde vamos ao engano, outros onde somos surpreendidos pela positiva. O meu faro para lugares bons é apurado, embora desconheça a razão. E há sítios onde vou de tempos a tempos para confirmar se a comida melhorou. Faz parte de mim tentar perceber se os outros, que têm o privilégio de ter uma porta aberta ao público, fazem o melhor que podem para servir esse mesmo plantel.
No Tirol, em Sintra, um lugar com pergaminhos, que evoca a memória de Eça de Queiroz e afins, o espaço é dividido por duas salas, uma delas, no primeiro piso, mais recatada, onde, no Verão, atendem grupos que viajam para a vila bucólica em busca da fotografia da praxe. Entendamos que o lugar tem condições excelentes, um serviço volátil, porque os empregados estão sempre a mudar, às vezes deixam arrefecer a comida em cima dos balcões, mas de um modo geral eficiente, porque conseguem despachar o serviço em tempo. E o que correm, digo eu, porque a clientela é fiel, e isso acrescenta responsabilidade.
Por outro lado, o piso do R/c, está afecto a um serviço mais direccionado para a pastelaria-café, embora também se sirvam almoços, quer aí, quer na esplanada contígua, muito agradável no Verão. Há pouco tempo, o proprietário decidiu renovar o espaço, que ficou mais acolhedor e contemporâneo, com outra funcionalidade, na expectativa de continuar a ser uma referência para a restauração da vila, sobretudo porque na zona persiste, mantendo-se, apesar de muitos lugares semelhantes, mesmo nas imediações, terem falido.
De tudo o que servem, destaco a pastelaria, as empadas, alguns salgados, os croissants e os pães de leite. O café e as meias de leite tiradas com vigor. Destaco também as sobremesas de restaurante, sobretudo um pudim de ovos, e o doce da casa, que é o único que conheço do género (natas, bolacha ralada, pudim) que, mesmo indo ao frio, não é servido com o líquido habitual que remanesce dessa mesma passagem por temperaturas mais reduzidas. É um bom exemplo de que servir um doce confeccionado diariamente, fresco, faz valer a pena o resultado final.
Parecendo que não, é difícil manter sempre a mesma qualidade, durante tantos anos, ao pequeno-almoço, ao almoço, durante a tarde, quando os lanches de adolescentes abundam, e ao final do dia. Ou seja, é difícil manter os padrões o dia inteiro. Da minha percepção, a gestão é realizada com muito empenho, com total dedicação, mas também com uma expectativa de retorno (do níquel) muito elevada. O que é que isto quer dizer? Que, embora o serviço de pastelaria e café sirva a preceito, algumas falhas na restauração limitam a experiência, tornando-a irregular, para dizer o mínimo.
Destaco, por exemplo, da ementa, algumas escolhas boas, como a alheira, que é servida à moda de Lisboa, alguns pratos mais comuns, como o arroz de pato. Há coisas básicas que ali ocorrem, como a produção do hambúrguer simples em pão branco, sem sementes, mas ligeiramente frito e quente, detalhe que muita gente esquece. Em oposição, a omoleta é um desastre, tal como o arroz de marisco, que se apresenta com frutos do mar alaranjados, insonso, sem sabor apesar dos pimentos e da presença de alguns bivalves e, por vezes, para além destes, de crânio vazio, oco, saliente do molho em que, suponho, terão sido afogados.
Em determinados momentos, nota-se inteiramente a 'poupança' nos produtos, e a decisão de limitar o menu ao essencial, disfuncional, apesar da longura da carta, porque assente no pressuposto da cozinha tradicional que se esboroa na dificuldade mais elementar: conceber o prato como elemento difusor de cultura. O cliente fiel vai e aceita que há dias melhores e outros piores, mas não deveria ser assim. A qualidade, quando existe, deve manter-se independentemente das circunstâncias. E essa existe, porque há períodos em que alguma experimentação é bem-sucedida. Contraposta com outros dias que são de inteiramente de fugir.
Compreende-se o contexto actual de crise, só que o resultado final deveria acusar uma melhor apropriação dos ingredientes e a substituição de alguns, como as sopas quase 'instantâneas'. Para além disso, e numa postura completamente distinta, a menos de três minutos de distância, se em passadas largas, temos o G-Spot, um restaurante de autor(es), com preços hiper-competitivos. Dito isto, a expectativa seria a de oferecer menos e melhor pelo mesmo preço. Vamos ver o que a passagem do tempo, e a concorrência alheia, ditarão.