Do Sado, Soberanas XS - 2006











Diga-se em boa verdade, que há vinhos a remeter para uma tranquilidade a toda a prova. Para aquela pausa de silêncio adquirido, de suavidade em que fica comprometido todo e qualquer ruído que configure uma desatenção, a ausência num período de tempo (exagerado), para o apreciar, comungando com a estrutura de um assentamento à mesa, ou de sofá. É disto que a seguir se trata.
Dia de Inverno, portanto, com uma escolha do Sado (que não se parece muito com, porque citrinos, vê-los longe), notas vegetais de azeitona bem carregada a cair das árvores, o solo a despojar-se, num blend formado por cinco castas distintas: Alicante Bouschet (33%), Trincadeira (31%), Aragonês (16%), Anfrocheiro (13%) e Tinta Caiada (7%). Um comprometimento de elevada monta, com teor essencialmente luso na formosura, o que só denuncia sabedoria no arranque de boca.

Uma rolha carregada, impregnada de notas de oliveira, com uma acidez que se confirmará bem proporcionada. Alguma madeira, só que a convergência para a acentuação vegetal quase apaga o adocicado da canela, o que denuncia também taninos poderosos e persistentes, bem enquadrados com a cor granada, vermelho acetinado com espessura, acastanhado na sua base.

Com uma consistência untuosa, ligeiramente amanteigado, algumas notas florais a rosas, o blend é consistente com o pretendido, a cor forte, bem trabalhada, com um teor alcoólico natural ténue, embora presente e marcado, capacidade de envelhecimento (da Aragonês e Trincadeira), intenso o suficiente para demonstrar aromas fortes e maduros, e ao mesmo tempo, uma capacidade de entrosamento conduzida pela percentagem equilibrada da fórmula encontrada.
Por vezes, parece equação, e os bagos cruzados na sua essência revelam sensações díspares. Depois de um nariz variado, na boca persiste o equilíbrio, com início bem apimentado e amargo, que rapidamente se esfuma num final curto, com bom balanço, notoriamente suave e delicado, e que podia demorar mais tempo. Quase seda, algum gesso, pelo teor aparentemente químico, característica que permanece a par de alguma lã molhada. Reminiscências pastoris, por assim dizer.

Campo, terra lavrada, composta num vinho com boas notas de fruto, às vezes verde, sem o fruto vermelho tradicional da Alicante, unilateralmente substituído por uma predominância vegetal e mineral que as reminiscências alentejanas também comportam. É fácil assimilar, depois de percebidos os trâmites, a habitual generosidade de um rio que se cruza com o mar, numa elegância viva do líquido. A meio da refeição, a madeira sobressai (o que a mim me agrada), com alguma palha, em simplicidade que lhe confere um potencial já marcado do estágio em garrafa. É o vinho da semana.