Diga-se em boa verdade, que há vinhos a remeter para uma
tranquilidade a toda a prova. Para aquela pausa de silêncio adquirido, de
suavidade em que fica comprometido todo e qualquer ruído que configure uma
desatenção, a ausência num período de tempo (exagerado), para o apreciar,
comungando com a estrutura de um assentamento à mesa, ou de sofá. É disto que a
seguir se trata.
Dia de Inverno, portanto, com uma escolha do Sado (que não se parece muito com, porque citrinos, vê-los longe), notas
vegetais de azeitona bem carregada a cair das árvores, o solo a despojar-se,
num blend formado por cinco castas distintas: Alicante Bouschet
(33%), Trincadeira (31%), Aragonês (16%), Anfrocheiro (13%) e Tinta Caiada (7%).
Um comprometimento de elevada monta, com teor essencialmente luso na formosura,
o que só denuncia sabedoria no arranque de boca. Uma rolha carregada, impregnada de notas de oliveira, com uma acidez que se confirmará bem proporcionada. Alguma madeira, só que a convergência para a acentuação vegetal quase apaga o adocicado da canela, o que denuncia também taninos poderosos e persistentes, bem enquadrados com a cor granada, vermelho acetinado com espessura, acastanhado na sua base.
Com uma consistência untuosa, ligeiramente amanteigado,
algumas notas florais a rosas, o blend é consistente com o pretendido, a cor
forte, bem trabalhada, com um teor alcoólico natural ténue, embora presente
e marcado, capacidade de envelhecimento (da Aragonês e Trincadeira), intenso o
suficiente para demonstrar aromas fortes e maduros, e ao mesmo tempo, uma
capacidade de entrosamento conduzida pela percentagem equilibrada da fórmula
encontrada.
Por vezes, parece equação, e os bagos cruzados na sua
essência revelam sensações díspares. Depois de um nariz variado, na boca
persiste o equilíbrio, com início bem apimentado e amargo, que rapidamente se
esfuma num final curto, com bom balanço, notoriamente suave e delicado, e que podia demorar mais tempo. Quase seda,
algum gesso, pelo teor aparentemente químico, característica que permanece a
par de alguma lã molhada. Reminiscências pastoris, por assim dizer.
Campo, terra lavrada, composta num vinho com boas notas de
fruto, às vezes verde, sem o fruto vermelho tradicional da Alicante,
unilateralmente substituído por uma predominância vegetal e mineral que as reminiscências alentejanas também comportam. É fácil assimilar,
depois de percebidos os trâmites, a habitual generosidade de um rio
que se cruza com o mar, numa elegância viva do líquido. A meio da refeição, a madeira
sobressai (o que a mim me agrada), com alguma palha, em simplicidade que lhe confere um potencial já
marcado do estágio em garrafa. É o vinho da semana.


