Douro como pano de fundo. Encostas para trás e para a frente,
circulação pretendida por socalcos de minério esconso, e também escondido em
pés de vinha que invadem tranquilamente a paisagem. Uma Quinta Velha, adquirida
depois de 2002, adega construída, a que se seguiu a vinificação por mão própria
em 2006. Na abertura de garrafa deste Quinta das Apegadas - Reserva de 2008 (Quinta Velha), muitos espargos, uma
forte marcação do fruto de azeitonas, ou seja, muito teor vegetal, a que se
alia uma delicadeza floral ligeiramente apimentada. Surpreendentemente,
sobressaem também notas de citrinos, muito ténues, tangerina amarga que
delimita o odor frutado, e o complementa com o vigor necessário para anunciar o
que aí vem.
A cor densa (dada pela Tinta Roriz, conhecida em outras
partes como Aragonês), o líquido viscoso, vermelho muito forte, declaradamente
evoluído e rico, com muito equilíbrio e harmonia conferidos por um bouquet que
se anuncia generoso. O sentido floral, a rosas, é pronunciado, e os taninos
reflectem uma tendência para os frutos vermelhos, variando entre o odor doce da
fruta, que se vai descobrindo, desde o amargo cítrico até ao volume e
intensidade do líquido vermelho dos frutos silvestres esmagados. E é aqui que
tem início a confirmação do carácter deste vinho. Álcool q. b., pouca acidez,
com tendência para desaparecer, embora intenso para a maioria, numa harmonia
com a sua estrutura de base, com muitos aromas e equilíbrio.
O que o nariz anunciava, especiarias, ligeira pimenta,
confirma-se com grande amplitude (e alguma adstringência) no palato, o que
demonstra também uma capacidade de envelhecimento em garrafa claramente a destacar.
O início é longo e pronunciado, numa notação agri-doce, o final é médio e suave
(da Tinta Barroca), adequado, numa limpidez de nariz com uma película bastante
resinosa, o suficiente para lhe conferir uma grande complexidade, que aumenta à
medida d o tempo de garrafa aberta, porque, neste momento, já com ameixa,
rosas, cerejas e algum sabor a morangos quase a emergir, apesar de um pouco
abafado pelos anteriores.
De reforçar novamente a espessura, amanteigada, que se
espraia numa composição que torna latente a transição suave entre a aspereza do
fruto, e a maciez do composto geral, com muita elegância no travo, mineralidade
de solo rochoso (e vulcânico), daí os períodos em que o enxofre se destaca do
restante painel de sílabas tonais que a variedade de castas confere. Touriga nacional,
Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca, matemática efémera que pode, e
deve, ser reservada para eventos futuros, e que mesmo agora é suficientemente
dócil para se revelar apelativa. Portanto, temos aqui uma opção que combina
diferentes abordagens, e que é tipicamente da região do Douro, na sua
qualidade, enquadramento e abordagem. É o vinho da semana.

