Arghhh, que é verde














Os miúdos odeiam vegetais. Tudo o que seja de feijão-verde para cima é um atentado ao seu palato. Dizem as pessoas. Da minha experiência na confecção para a criançada, contudo, o feedback tem sido diferente. A razão? Nada de especial, nenhuma receita milagrosa. Os mais pequenos são como os adultos, desde que tenham à frente comida saborosa preparada com empenho e vigor, comem e pronto. Agora se lhes dão cenouras cruas, e couves com peixe cozido, já é possível imaginar a reacção. Gosto sobretudo da honestidade com que os comentários reduzem aquilo que é complexo ao essencial. Nada de brincadeiras no que diz respeito ao que ingerem. Ou é bom, ou é mau e terrível. Enquanto um adulto é capaz de torcer o nariz e fingir que o que tem à frente é perfeitamente respeitável, quando na realidade se comprova ser uma autêntica desgraça, as crianças são brutalmente francas, frontais, ao ponto de conseguirem intimidar quem estiver para lá da zona de perigo – isto é, fora da zona de conforto e de segurança de um 'estilhaço' atirado como papa à parede. E reside aqui a diferença, a honestidade. Enumero uma das situações. A menina esteve lá em casa há dias. Chegou cedo. Ainda vinha de pijama. Àquela hora, durante a semana, o mais propício seria acelerar o dia com uma papa, cereais e leite, para que continuasse a dormir descansada. Isso nunca se constituiu como uma hipótese. Quando chegou, as panquecas estavam quase prontas. Faltavam duas ou três fritarem na manteiga para nos sentarmos à mesa ao pequeno-almoço. De início, ficou desconfiada, enquanto rondava o fogão sem dizer palavra. Depois de provar a iguaria, ficou rendida ao iogurte fresco, ao doce, à canela (de que dizia não gostar), ao mel a escorrer para cima daqueles pedaços de massa redonda muito fininhos, ao açúcar espalhado. Talheres para quê, lambeu os dedos. Dirão que o que é doce nunca amargou, portanto, havia poucas hipóteses para que não se rendesse. Concedo. No entanto, passadas umas horas chegou o período do almoço, e ela delirou, e a palavra é tudo menos exagerada, com a elaboração de uma pasta típica ao modo italiano, com tomate doce, esparguete envolvido no molho, manjericão e coentros cortados no momento, azeite fresco para aveludar. Coisas verdes. Mexeu nos tachos, provou à medida que o prato foi sendo realizado, deu de si, e ficou radiante quando, embalada pela circunstância de poder colaborar, fez a prova final, antes de ajudar a servir o prato na mesa. Outras crianças ligarão menos, ou ficarão mais ou menos empolgadas, outras ligarão mais. Interessa pouco a comparação, e convém reforçar que a ideia de que as crianças não sabem apreciar, ou não gostam de ajudar na cozinha é errada. Sabem fazê-lo, e sabem fazê-lo bem. Que venham os espinafres salteados em azeite e alho, com uma noz de manteiga no final da cozedura/fritura, e perceba-se que até os olhos dela(s)se lhe(s) arregalam pela iguaria.
Fotografia: revista Veja.br