Entre as sete e as nove












O ditado é conhecido. 'De manhã a laranja é ouro, de tarde prata, à noite mata'. É um excesso, claro que é, afirmar isto de maneira tão peremptória. Há, contudo, um fundo de verdade, sobretudo na disposição de quem se apropria daquele sumo doce. Os americanos, os maiores consumidores mundiais de laranja, consideram-no essencial para acompanhar as suas manhãs. Os europeus também já embarcaram na moda. Houve tempos em que ter sumo de laranja à mesa do pequeno-almoço era sinal de status. Digamos que hoje é cada vez mais assim. Quanto mais laranjas bebidas, maior a capacidade financeira demonstrada, mesmo se é possível encontrar cerca de dois quilos à venda, calibre médio, pela módica quantia de €0,59/quilo. Para alguns, a quantia não é tão módica quanto isso. Pelo contrário, parece-me que os vulgares espremedores cuja distribuição, em tempos idos, foi patrocinada pelos industriais do sector para que as famílias em geral pudessem comprovar as potencialidades vitamínicas do produto, devem andar a ganhar pó nos armários, se é que estão lá arrumados. Poderão ter sido empenhados no prego. Suposição, apenas. Na verdade, o sumo de laranja fresco, acabado de ser feito, é muito aconselhável para acompanhar pequenos-almoços faustosos, em que croissants, pão acabado de cozer, manteiga a derreter no seu interior, diferentes queijos, e café fumegante, compõe um quadro que admite o adepto mais duvidoso. Ou então para acompanhar pequenos-almoços mais frugais. O sumo bebido durante a tarde, a acompanhar os papo-secos, o café com leite, o leite achocolatado, também sugere aferição, e é uma maneira de fazer com que um fruto rico em açúcares naturais, e cujo consumo previne doenças cardiovasculares, seja tratado com a merecida atenção. O sumo de laranja natural à noite, por seu lado, é um desgosto. Mesmo o embalado, não escorrega tão tranquilamente quanto isso. Seja por crendice no ditado popular, a verdade é que o sumo de laranja é, sobretudo, consumido entre as sete e as nove da manhã. Não cabe na cabeça de ninguém acompanhar um jantar com jarros de sumo natural, e mesmo as crianças estranham a ‘ousadia’. Se bem que os médicos e as estatísticas creditem o seu consumo ideal à razão de um copo por dia, por causa dos antioxidantes, das vitaminas (C), e da renovação da energia celular que promove, o sumo de laranja já se tornou num hábito, mesmo na restauração. São inúmeras as pastelarias que o servem a preços proibitivos, embora a cada vez menos pessoas. Pois bem, no laranjal onde costumava andar de bicicleta em criança, as laranjas eram mais azedas do que doces. Só que há uma imagem inesquecível da mancha alaranjada que fica, na época certa, e que colmata qualquer azedume que um bocado de açúcar esconde. Há quem lhe chame suco. Nós continuamos a querer o sumo, porque enquanto o fruto se pode retirar das árvores ao custo da apanha, ou seja, a zero, e de uns quantos vergões que se assumem quando se quer ir buscar uns exemplares mais rechonchudos, que por acaso estão sempre lá no topo, isto para quem pode, esquece-se que o preço cada vez mais elevado de bens essenciais é uma realidade cruel. O fígado que se dane.