Entre Cuba e a Vidigueira











Tomemos por princípio a rolha, que a cortiça é um bem a preservar, está bem para os sobreiros, e que se mantenha a vedar o elevado valor líquido por longos anos. À abertura, uma forte conotação vegetal, um odor encorpado e sereno, uma cor que parece escura, a madeira que se destaca do espargo, do espinafre, com um perfume de couro, de manteiga e azeitona e de erva. Parece um vinho com carácter, com balanço agradável, suficientemente frutado e com boa harmonia. Isto tudo aparentemente, numa fórmula de cinco castas distintas, o que prenuncia dedicação. Antes do copo, convém dizer de onde vem. Entre Cuba (alentejana) e a Vidigueira, ouve-se o silêncio marejar entre as uvas maduras.
Soa a terra, porque a intensidade do solo é imediatamente observada no acto de verter o líquido com um vermelho que se revela intenso fora da garrafa, um encarnado puro, límpido, deixando ver para além dele, com transparência e películas equilibradas num degradé que a diferenciação das castas faz perdurar: Alicante Bouschet, para o fruto mais amadurecido e corpo elevado; a Aragonês, que se perfila como o alvéolo de álcool que se desvanece depressa, e que aquela camada de calor (no Verão), e frio (no Inverno), deixam que se construa com grande impacto; a Touriga Nacional, porque vale a pena reforçar a resistência e a tonalidade madura do fruto, que se intensifica (e é uma casta tipicamente portuguesa, com um potencial enorme); a Trincadeira, e a Syrah, e os aromas que são aprisionados para o envelhecimento consequente, com as frutas vermelhas a querem-se protagonistas.

O que isto revela, assim de chapa, é que a ‘construção’ foi pensada. Carece de confirmação, que segue com a notação da fruta a acentuar-se, talvez groselha, uma acidez controlada porque sentida logo de início, desaparecendo mais tarde. Ressaltam as notas vegetais, que confirmam a rolha, os aromas da densidade material do solo a emergir por ali adentro, num volume aquoso. E assim se chega ao ponto fulcral, o amargo suf++ com excelente pimenta, corpo presente da madeira, na medida exacta da curva da barrica, nem mais nem menos, com início longo e final curto sem qualquer dispersão – e se tinha matéria para dispersar.

Palato limpo, de fruta cujo amadurecimento foi apreciado, em termos suaves, que depois adorna (em bom) numa composição onde a resina, o mel, tudo o que escorre do tronco de madeira parece separar-se na boca para reunir-se numa estrutura que também admite tergiversação mineral, intensa à segunda, à terceira e à quarta provas. Bom bouquet, comme il faut, bom equilíbrio e ampla gama de aromas, do amargo ao doce, voltando à pimenta na medida certa, sem exageros e acentuações excessivas que lhe confiram algum desequilíbrio. Num vinho com cinco castas, todas elas diferentes e únicas nas suas propriedades e características, é de notar a importância da contenção, do gesto que quer fixar o melhor de cada uma delas, para que possa envelhecer (se se quiser) tranquilo. É o vinho da semana.