Mel a escorrer dos favos

















É do senso comum a especificidade de que o mel faz bem à saúde. De ser um néctar que coloca o corpo em ponto de rebuçado. Doce, portanto. Ultra doce. Capaz, como é óbvio. Aqui, a relevância relaciona-se com a produção de mel, com a sua importância para quem ainda não decidiu que seja sede em cada casa, ter um frasco de mel, beber leite quase a ferver com mel, tomar uma colher de mel com limão quando a constipação espreita, aquilo que os médicos (des) recomendam certamente por desconhecimento. Vamos por partes. O mel existe em diversos géneros. O mais escuro, com propriedades antioxidantes muito elevadas, o que faz deste um poderoso anti-séptico. O mais claro, consumido habitualmente, nem que seja pela cor, bastante apelativa, sem o teor medicinal, óptimo substituto do açúcar refinado. Em que medida isto é fundamental? Voltemos ao princípio.
No início, o mel contém minerais essenciais como o ferro, o magnésio, o sódio, o fósforo, o potássio, proteínas e vitaminas, a saber, B1, B2, B3, B5, B6 e C. Dependendo da qualidade do néctar, do pólen de que é feito, as propriedades que o constituirão serão maiores ou menores, e isso irá determinar a sua qualidade. Será, por isso, mais ou menos activado pelo corpo, isto é, recebido e absorvido, na medida em que este agradece o preparo. Isto tudo está relacionado com a enzima da glucose, segregada no néctar quando as abelhinhas o convertem em líquido dourado. Por exemplo, esta enzima produz peróxido de hidrogénio quando o mel é diluído em água, digamos, no chá, e é o químico que reforça as tais propriedades anti-sétpicas e anti-bacterianas. Pode então dizer-se que o mel ‘cura’, e melhora substancialmente o estado de espírito de quem o toma. Nem que seja pela doçura. No entanto, a complexidade inserida na sua fórmula e constituição é muito mais relevante do que parece. Senão vejamos: a versão com maior número de anti-oxidantes (aquamel) pode ser aplicada directamente em feridas, até nas resultantes da dispersão material em doenças tão graves como o cancro. Aplicado nas metástases exteriores, absorve as bactérias, embora esteja longe de ser o único promotor de uma recuperação. Ao mesmo tempo, regenera a pele num processo denominado como ‘osmose’, criando uma película nova. Estimula o crescimento de pele nova, porque as células que criam os tecidos avançam depressa. A capacidade antifúngica é aqui testada ao limite.

Por outro lado, o facto de ter um alto valor energético, e de poder substituir o açúcar, torna-o num alimento ideal para crianças. Num estudo realizado com miúdos a partir dos dois anos, com problemas respiratórios persistentes e efeitos como a tosse, a toma de uma dose regular de mel foi mais eficaz que o tratamento com antibióticos, ou até que a ausência de tratamento –habitual em quem se constipa. A tosse dos tomadores de mel diminuiu progressivamente, e o efeito foi muito mais amplo para aqueles que substituíram o uso de medicamentos com substâncias cujas denominações variam, que afectam o‘sinal’ dado ao cérebro, bloqueando o reflexo da tosse, sem no entanto resolver o problema, e que nunca, em caso algum, deveriam ser dadas a crianças com menos de quatro anos. O mel também reduz a dor e inflamação, por exemplo, ao nível cutâneo e da garganta, é um bom combatente de infecções, acelerando o processo de cura, coisa que nenhum antibiótico faz, pode ser usado para atenuar o efeito de úlceras do estômago, cortes, raspões, feridas comuns, alergias e picadas de insectos. Por incrível que pareça, melhora a digestão, o que se verifica quando é usado para o tratamento de gastro-interites. Se despejado no belo frango no forno, é delicioso. Pode também actuar como laxante e sedativo. Voilá.
E por causa da glicose e da frutose, é de fácil absorção, melhorando a eficiência do nosso sistema imunitário. Os seus níveis de antioxidantes superam os níveis encontrados em maçãs, espinafres, laranjas e morangos. A frutose é essencial, por ser necessária para libertar enzimas das células nucleares do fígado, também elas necessárias para incorporar e transformar a glucose em glicogénio. Boas reservas de glicogénio no fígado são essenciais para suprir o ‘combustível’ ao cérebro, quando dormimos, ou quando realizamos exercício físico durante períodos mais prolongados. As propriedades experimentadas do mel só deveriam exigir do comum mortal um uso cada vez mais assíduo. Há quem desdenhe daquele líquido dourado, e até há quem nunca o utilize. Certamente porque nem sempre se perceberam bem os efeitos relativos do seu uso irregular numa dieta mediterrânica. Foi, na Idade Média, substituído pelo uso do açúcar de cana, que proliferou por causa do colonialismo, dos negreiros, das refinarias localizadas em grandes portos e centros urbanos de comércio. Assim que o preço do açúcar baixou, concorreu directamente com o preço do mel, já para não falar da adopção do primeiro na ementa gastronómica do tempo das Luzes, e no receituário campesino. Motivos bastantes para considerar seriamente o valor do mel como produto de excelência. Para além de todas as vantagens, há uma última que deve fazer ponderar o seu consumo: se bem acondicionado num local fresco, sem variações de temperatura elevadas, seja 100% puro, aquamel, ou outra espécie qualquer, pode durar para sempre. Só que estas boas características, está-se mesmo a ver, irão impedir uma reserva intemporal. A prateleira da dispensa terá de ser brevemente reposta – como, aliás, se percebe, pela fotografia.