O pão da vila








Pão com manteiga é bom? É (e isto não é refrão de cantiga). Pão aromatizado com alho, e manteiga de coentros, é bom? É. Pão acabado de torrar, com aroma de alho, sabor de manteiga de coentros a acompanhar uma sopa de feijão, é bom? De um modo indesmentível, é claro que sim. O pão tem esta capacidade de reunir família e alimentos à mesa. Com os seus atributos qualitativos, tanto acompanha bem uma sopa mais densa, como uma refeição leve, em que seja protagonista, como a baguete (versão parisiense) com queijo fresco e salada, apenas com chouriço fatiado finamente, ou se a par de um bife com batatas fritas em que é conveniente mergulhar cada pedaço da dita massa sagrada na gema temperada do ovo estrelado em azeite e manteiga. Digamos que o pão na sua versão mais rústica, com aquele miolo fresco, é o parceiro ideal para esta incursão. E da qualidade do pão afere-se se este durar algum tempo no saco de pano, que fica com um odor muito particular depois do muito pão que lhe passa no pêlo, ou se depositado naquelas caixas de metal que abrem para dentro. O pão perde propriedades e oxida porque há factores determinantes para a sua preservação. A qualidade do fermento, da gordura utilizada, que tende a ficar rançosa depois de alguns (muitos) dias em exposição ao ar, fazendo com que perca os seus aromas, o seu sabor, e na pior das hipóteses, adquira uma película de bolor que o transforma num produto impraticável. É raro haver pão que dure tanto tempo que permita analisar esse processo de decomposição. Quando há, açorda com ele. Uma certeza, porém, como diria alguém, persiste: ‘o pão nosso de cada dia’ (da oração mencionada no livro bíblico de Mateus, capítulo 6, versículo 11), o pão propriamente dito, é essencial à vida, nem que seja numa das suas variações soberbas, a broa de milho, crocante. Quer esta, quer o pão, de média cozedura, sobretudo se realizados num forno alimentado a lenha, detêm tal poder de atracção pela manteiga, que chega a ser confrangedor para quem assiste sem conseguir arriscar o exagero. Nada como ingerir metade de um pão de Alcainça acabado de cozer com nacos de manteiga que se deixam derreter dentro do miolo fumegante, são duas partes de um mesmo ser que se unem, e de repente o lado mais apropriado da existência parece certo.
A fotografia é daqui, com direito a receita e tudo. Enjoy.