Um marquês da Bairrada



Vamos começar por estabelecer aqui um parâmetro: o Dão não é para meninos. Dito isto, convém particularizar que a Bairrada também não. Dão e Bairrada têm, à sua maneira, uma combinação extrema elementarmente disposta no gelo e degelo. Na estrutura mineral, nos solos graníticos e calcários, na paisagem de que se destrinça uma variação topográfica que coloca qualquer ser em sentido. Que o digam as linhas de água, e os resíduos (bons) que por ali circulam e desaguam em vinhas de escolha.

Esta vai por aí, e embora seja um vinho relativamente corrente (Marquês de Marialva - Colheita Seleccionada 2008), porque a um preço bastante acessível e muito competitivo, convém denunciar a fórmula muito apropriada que resulta num produto bem capaz, cheio de potencialidades, com um carácter definido que consegue colocar opções bem mais dispendiosas pelo caminho. Uma rolha adocicada, quase ‘granítica’, que esvanece depressa, onde se entende um corpo bem proporcionado, uma harmonia elementar, e isso, já se sabe, decorre do blend: castas Touriga Nacional, Tinta Roriz (também conhecida como Aragonez) e Baga.

O nariz confirma-o, no copo aquoso, com uma cor vermelha baça, alguma acidez e um teor fumado que apenas ressalta no final e que eleva os taninos. Isto com uma pimenta muito ligeira, que se atreve no início e no final com maior proporção, e que a modos se evapora se a prova se prolonga durante mais tempo. E a cor, volta-se a referir, com laterais a escurecer e um cerne definido de ressalva.

Um vinho fácil, claro que sim, nada de mal por isso, a razão de um vinho ser assim, é que pode ser útil, em dias em que a complexidade extrema é suplementar, e quer-se saborear o fruto com os seus elementos fundamentais, com uma acentuação mineral, fiel aos princípios que definem a criação de bons vinhos. Isto é verdade agora, embora a maquia indique que algum envelhecimento venha conferir particularidades reforçadas, outra concentração, e um amadurecimento complementar.

O início e o final são assim curtos, por essa razão também, e à temperatura ideal, sobressaem todas as características relevantes do líquido, de bom equilíbrio, com muita fruta, bons aromas, uma mineralidade concreta que se separa dos restantes parâmetros, com um corpo duro, seco, que àquela temperatura deixa transparecer uma frescura suave, e um córtice vegetal do estágio de quatro meses em madeira de carvalho francês e amaricano. Coisa boa, obviamente, e sem o excesso muitas vezes pressentido se o tempo de pousio for aumentado, embora por preferência pessoal aprecie muitíssimo a madeira a explodir.

Ora bem, sem defeitos, um vinho que mitiga aquela ideia de que não existem vinhos para dias específicos. Avançando na subjectividade, é um vinho de domingo, que se mastiga delicadamente, sem exigir demais nem de menos, ideal para pastas realizadas com produtos acabados de colher, ou acabados de comprar na praça (mesmo ao domingo, claro), agriões e rabanetes, boas ervas aromáticas numa salada das antigas, que reforçam o carácter da pinga no seu vinagrete, e um bom queijo amanteigado de final, que os compostos fenólicos estreitam a relação. É o vinho da semana.