Cada cabeça, sua sentença


















Os prémios atribuídos a vinhos querem normalmente dizer alguma coisa. São, de resto, dos poucos prémios com significado, e de que resulta quase sempre uma compra relevante. Digo quase, porque neste Cabeça de Toiro DOC do Tejo  Reserva 2008 (Caves Velhas, grupo Enoport), que é claramente um vinho de tendência, isso não é bem assim.
Uma rolha vegetal, com alguma madeira e fruta amadurecida, um teor a caril (doce) que os mais cétpicos poderão pensar estar relacionado com os odores no ar na cozinha, uma cor escura, é o que parece, e ao ser vertido no copo, uma ligeira espuma, a cor a disparar para um vermelho carmim brilhante. Parece tenro. Se a madeira comprovar o escrito no rótulo, nove meses de estágio em pipas novas de carvalho francês, temos vinho.

Abanado o copo, o líquido começa a libertar os aromas. Alguma framboesa, e uma variação tonal que recupera o vegetal da rolha, no campo das ervas aromáticas, uma doçura firmada na fruta, com a madeira aparentemente presente no primeiro travo, e no segundo, e depois perde-se, dando lugar a uma mineralidade que, de facto, surpreende, com notas fortes de enxofre, retornando depois à fruta.

Complexidade não lhe falta, as notas baixas são de coentros, e na boca é cheio de bagas de amora (depois da framboesa, nada mau), com o álcool a fazer-se sentir com grande intensidade. Um início longo, um final ainda mais prolongado, com uma acidez que se esbate. É redondo, é suave, com um amargor que se infiltra, demarcando um equilíbrio simpático e alguma (pouca) pimenta.

Pode dizer-se que é uma exploração profunda da Touriga Nacional e do seu potencial aromático no palato, que produzirá certamente um envelhecimento razoável (é um Reserva), pretensão que a Castelão promove, com uma frescura aquífera. Porque agora, apesar dos prémios atribuídos, Best in Class no International Wine & Spirit Competition, distinção no Berlin Wine Trophy e no Concurso organizado em Bruxelas pela Monde Selection, com o alto patrocínio da Organização Internacional da Vinha e do Vinho, agora é muito cedo para abrir esta garrafa.

A não ser que se aprecie a moda, e a estética do açúcar. Agora, é doce, doce, doce, tão doce que a madeira desaparece, o álcool pulula, e todas as outras notas de prova ficam tolhidas. Treze graus e meio num vinho do Tejo, numa região que costuma produzir tintos que se destacam quase sempre pelo carácter mineral, por muita solidez de prova. É verdade que no dia seguinte, estava menos doce. Até amargo, só que com aquele travo de quem envelheceu precocemente. É o vinho da semana.