À velocidade da luz


Acabou o tempo de cavar, e das mãos cheias de força a pegar numa enxada. Há duas décadas, terminou essa tendência. Agora, a fome aperta. Há umas semanas, vi uma rapariga comprar duas latas de salsichas num supermercado. Deixou de poder comprar o salmão fumado, manga e ervas frescas, para passar a comprar duas latas de salsichas, porque, como é óbvio, ninguém compra duas latas de salsichas por vontade própria, assim, sem mais nada. Nunca, em toda a História, houve tanto poder para que tudo seja diferente. Tecnologia de última geração, rapidez e eficácia dos meios de transporte. Diferentes meios de transporte. E espaço físico preparado, ou capaz de ser preparado, para o efeito de receber toda a espécie de cultivo. No entanto, apesar da evolução tecnológica, que permite aumentar os meios de produção alimentar, apesar de se conseguir agora, mais do que nos dezoito séculos anteriores a este em que vivemos, transportar alimentos com rapidez, segurança e condições de higiene únicas, apesar de muita terra ser cultivada, o que pressupõe uma massificação dessa mesma produção, e de alguma terra (demasiada) ainda estar disponível, e permanecer em pousio, um terço da população mundial passa fome. Milhares de pessoas morrem todos os dias desnutridas, e o problema que parecia persistir apenas em países considerados de terceiro mundo, porque sem infraestruturas, com escassos meios para combater o flagelo, afecta também o confortável Ocidente, no continente a que alguns chamam ‘o berço da civilização’. Paradoxo? Contrasenso? Ignorância e inabilidade de quem? Sugere-se meditação. Há quem diga à boca pequena que o retorno à terra é uma coisa saloia. Pois, entende-se, isso vai acabar com uma boa parte do negócio. Aos poucos, além de alterar alguns hábitos, poderá melhorar a paisagem. As hortas urbanas são uma realidade, as rurais um dado adquirido. Nos Moleanos, uma terra austera, no sopé da Serra de Aire e Candeeiros, uma terra de tempos imemoriais no interior do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC), paisagens repletas de árvores, com uma proximidade boa de Alcobaça, e das cornucópias que se conseguem degustar numa pastelaria mesmo em frente à praça intervencionada pelo arquitecto Gonçalo Byrne, esse tempo está a chegar. Quando nos abeiramos dali, o frio é temível. É como a frescura da pedra (moleanos) extraída do interior do mundo. Uma pedra que sempre foi muito usada na construção em Portugal, polida, serrada, em obreiras de portas e parapeitos de janelas. A agricultura continuará a servir de elo entre os costumes locais e as pedreiras exploradas, ou revitalizadas depois do negócio. A arquitectura da paisagem poderá sobrepor-se até na reconversão das ‘vias’ edificadas para chegar a um sítio depressa. A velocidade a acalmar. Lugares que, em certos casos, irão ser reconvertidos em zonas de permanência, em vez de se manterem como espaços vazios para transições impossíveis. Acabou o tempo de cavar, e das mãos cheias de força a pegar numa enxada? Nada disso. Ainda agora começou.     

Foto: ARH