A expressão máxima



















A ‘intervenção mínima’ é coisa da arquitectura, de como se pode chegar a um local entendendo a sua génese sem fazer coisas estapafúrdias. É essa a expressão máxima do edificar, e quanto ao vinho em análise, FITAPRETA BRANCO 2010 (David Booth & António Maçanita), a ‘construção’ pega nesse pressuposto de deixar as castas (Antão Vaz – 50%; Roupeiro – 50%) respirar, de se expressarem. E, de facto, isso sucede.

Boa cor, limpa, sem desvios turvos, uma rolha com fruta e flores, e dois segundos depois, desaparece tudo. Fica o líquido para originar a prova, que as rosas também se fizeram notar de fugida, cabendo à cor esverdeada do néctar aprovisionar os olhos com uma delicadeza de trato, de aveludado que se enuncia para uma variação agradável. 

E confirma-se. Fortíssimos aromas minerais, num grande vinho com sabor a Verão, porque as temperaturas estão a subir e assim se concentra o amargor inicial com um pico de gás e um doce subjacente já no limiar, que é de ponderar nos brancos e em alguns rosés, opinião pessoal. Isto em amplo contraste com as notas fortes do carvão, da cinza e do enxofre, que debruam uma concorrência saudável entre tons. 

Descobrir complexidade num vinho branco, depois do aparecimento inusitado do calor, faz bem à alma, que é do que se trata aqui, de alma reconhecível, quando ao segundo e terceiro travos, com inspiração profunda, se começam a manifestar os compostos fenólicos assentes numa estrutura que evolui tranquilamente, como a flor de laranjeira, ligada ao doce, um travo suave de palha, muito ténue, e os aromas de fruta, em todo o seu esplendor. 

Faz-se, portanto, um contínuo entre a película, a grainha e a polpa, representadas fielmente numa edição limitada a 10,000 garrafas que, em geral, se apresentam com notas típicas de fruta, em fundo duas castas do Alentejo, culminando numa proposta cheia de amargor e doce tidos em simultâneo, sendo prolongado o primeiro, com a elegância exigível de quem quis fazer um branco de impacto, marcante, pouco alcoólico. Adequado, com uma vitela selada e guisada nos seus sucos, um molho de tomatada, ervas a rodos, batata frita e arroz branco (my choice), mais rústico é impossível. Só mesmo um bolo inundado de sumo de limão poderia completar tal repasto.  É o vinho da semana.