O lado bom da fruta (e outros preparos)



















O mercado de rua, plasmado nas suas evidentes vantagens, oferece às pessoas uma possibilidade rara. Conhecer o seu país e saber como se faz para ter na mão um molho de tomates doces – feios como tudo, mas um delírio se consumidos só com azeite e sal. Saber qual é a melhor alface frisada, que a Dona Berta vende a batata-doce mais amarela, e boa, quando assada apenas com sal. Os mercados de rua têm esta vantagem sobre as grandes superfícies: a identidade. A rua é a rua. Não é um ambiente higienicamente pasteurizado, que esconde armazéns que me escuso aqui de descrever. Aconselho, por exemplo, a ASAE, com o seu zelo, a visitar a zona dos azeites e óleos de um qualquer hipermercado. É melhor levarem botas com sola antiderrapante, não vão espatifar-se num dos empilhadores que passará a grande velocidade.


















Podermos ir à praça, ao mercado (da Ribeira, entre outros) origina um vício, o prazer de descobrir qual daquelas pessoas dedicadas à causa de nos tratar bem, com alfaces tão frescas a pedirem para ser levadas embora, será aquela a que iremos comprar, entristecendo todas as outras. Quando vamos à praça queremos comprar a toda a gente, queremos de todos o que cada um tem de melhor. Vegetais, frutas, batatas, tomates, cenouras, cebolas, alhos franceses, pêras e pêros, laranjas, limões, cerejas e outros frutos secos, o pão e bolos, as azeitonas, os doces regionais, os queijos e os enchidos, o odor intenso dos chouriços e do pão, como se ainda estivesse dentro de um saco de pano. O cheiro a mercado, aquela mistura cuja intensidade é inesquecível. Nada como um queijo amanteigado do centro, inteiro, a pouco mais de cinco euros, comprado num mercado de rua, com o cheiro a pão fresco dentro daquelas carrinhas brancas, com avançado e estrado para conseguirmos chegar à fala com quem vende.

 
















E é nestes momentos que é impossível não deplorar a modernidade supermercática, dos preços dos queijos, por exemplo, serem uma vergonha de tão caros. Preços aproximadamente idênticos em todos os queijos à venda em quase todas as superfícies, o que só faz toda a gente desconfiar do que afinal se anda a fazer para obrigar velhotes e pessoas com parcos recursos, a comer do queijo embalado, sem sabor, com marca branca. A isto chama-se, deixa-me ver se me lembro, é isso, dumping. Despejar, entornar, transfegar, sobre os clientes, um ónus, porque o preço pago ao produtor é sempre o mesmo, e baixo. As praças e os mercados cruzam todos os dias vontades. De quem vende, que nos quer servir como se fôssemos lá de casa, para comermos coisinhas boas que fazem bem à saúde. De quem compra, que se envergonha de ter de escolher, porque se pudesse levava tudo que está em banca atrás. Os produtos são frescos, a variedade da oferta é maior, por ser repetida em banca, o que conduz a coisa, que não é política, os preços são melhores, e mesmo se forem mais caros, há a certeza de ter na mão um legume, uma fruta, um pão, um queijo, artesanal, vendido de corpo e alma por quem produz.


















É uma verificação empírica da vida a retomar o seu estado natural, de alguma coisa que nunca se esquece, de um facto impossível de ocorrer num supermercado, onde conceitos como a revitalização de uma artéria de cidade são simplesmente sublimados, porque aqueles espaços brancos são irreais. Apropriarmo-nos de um espaço de praça, todos os dias, na cidade, vila, no lugar que tanto diz porque a luz adormece de uma maneira que nunca se esquece, causa uma agitação que tem grande importância. As bancas nos seus lugares nunca deixam esquecer que a dona Berta vai trazer lá de casa as couves portuguesas que andou ontem à tarde a apanhar. Para nós, que gostamos da couve tenra, ela só traz o melhor. E nós gostamos da dona Berta e da couve por isso.

Fotos: 'Praça da Fruta' - Caldas da Rainha