Um templo para o culto da água


















Vista da entrada principal do Hotel - Nelas

Os segredos bem guardados nunca se dizem a ninguém. Certo? Errado. Há segredos que têm de se partilhar. É obrigatório. Imprescindível. Inevitável. Este segredo remete para um lugar frio que nem granito, mesmo se as temperaturas estão agora a subir um pouco por todo o lado. Lá fora, a temperatura exterior ainda varia entre uns míseros dois graus positivos e os cinco graus negativos. O que configura uma fórmula de relevo. Pode-se, no entanto, contrariar a tendência que gela os ossos com o calor produzido por uma lareira acesa. As temperaturas gélidas podem contrastar com a temperatura tépida da água tratada, disposta e direcionada para locais específicos do corpo. É isto que sucede no Grande Hotel das Caldas da Felgueira, em Canas de Senhorim. Um refúgio localizado em plena sub-região do Dão, no sopé da Serra da Estrela (a 20 km de Seia), na Beira Alta, no coração do distrito de Viseu.

 















Vista da entrada principal do Hotel - Nelas 

O momento da chegada 

Os mais cétpicos nunca conseguirão passar por Nelas e Canas de Senhorim sem ficar rendidos ao esplendor de um lugar ‘cosy’, onde as memórias de palácios de uso exclusivo são destacadas, a par de uma decoração que aconchega. É assim o edifício do Grande Hotel das Caldas da Felgueira, com a sua composição principal em “H”, com um pátio interior para onde desaguam uma boa parte dos envidraçados, vista complementada com árvores seculares e zonas verdes, que ligam o perímetro em torno do hotel, com caminhos para percorrer, e quem quiser chegar-se ao Rio Mondego, já sabe que tem muito para andar. Depois, os dois lados exteriores do “H” são como duas entradas, do lado de Seia, a mais antiga, usada sobretudo pelos fornecedores e funcionários, ladeada por um conjunto de apartamentos em duplex, também disponíveis no mesmo regime de marcação do hotel, com uma vista soberba para a paisagem, o rio abaixo, e todo o enquadramento – e que completam a oferta principal dos quartos do hotel. 


















Vista do plateau (plataforma), onde está inserido o bar de apoio à piscina ao ar livre

















Paisagem 'granítica', num dos percursos em volta do Hotel

E temos depois a entrada principal, que quem vem de Nelas encontra à sua direita, mesmo em frente ao edifício das Termas, apercebendo-se da sua localização elementar, adossado à topografia, com outro generoso parque de estacionamento pontuado por mais árvores centenárias que embelezam todo o conjunto – apesar de despidas, mesmo assim, revelam-se como uma instalação natural –, zona esta que serve de plateau (patamar) para a paisagem, que inclui a olímpica piscina – com um espaço exterior privilegiado para eventos. Se se parar um pouco, pode-se ouvir o ruído de água a resvalar. Isso deve-se, ao facto da piscina ser ela própria um plateau, por cima de uma linha de água que corre livremente por baixo, compondo a natureza de uma paisagem onde impera o silêncio.




















O Rio Mondego, junto a um dos muitos percursos pedonais

















Vista da piscina 'olímpica' 

De Fevereiro a Dezembro de cada ano, a temporada termal faz com que pessoas de todas as idades rumem aqui para repousar e tratar maleitas. Mais do que qualquer outra estância termal, nas Caldas da Felgueira essa ‘cura’ tem um fundamento específico relacionado com a qualidade dos tratamentos, que advém das propriedades da água do aquífero. A esta reserva de natural de bem-estar’, como enuncia o folheto de promoção, vêm pessoas com doenças do foro bronquítico, respiratório, articular, muscular e esquelético, dermatológico, cardíaco, circulatório e reumático. A romaria tem, nos últimos anos, sido complementada com a oferta de tratamentos de beleza no Spa. Sessões de relaxamento, massagens, máscaras faciais e corporais que ampliam o fluxo de clientes, que tem aumentado também a medida da oferta. Pessoas mais novas e mais velhas encontram-se para usufruir das chamadas propriedades especiais das águas daquela região, com o complemento dos pressupostos relativos à utilização do spa. Por isso, mesmo com as termas encerradas, vale a pena a viagem, para perceber afinal de que é feita a matéria-prima de uma das regiões mais graníticas de Portugal, e de um dos seus hotéis de eleição.


















Sala de estar com vista para o 'lounge-bar' 
















  
Lounge-bar - interior

Apesar dos cinco graus negativos na rua, da hora tardia, a recepção é calorosa. Isso é um bom prenúncio. Numa rápida incursão pelo piso térreo, duas grandes salas localizam-se junto ao lobby. De um lado, para estar e receber os hóspedes que querem relaxar, ouvir um pouco de música, tomar uma bebida, um café, um chá, no lounge-bar imediatamente a seguir. Do lado oposto, posicionada simetricamente, uma sala de refeições, que se enunciou como um local privilegiado para o efeito (ver crítica gastronómica). Se fosse mais cedo, poderiam ter sido provadas algumas iguarias no restaurante "Le Grand", com uma carta que muda todos os dias, só que o avançado da hora prestou-se ao recolhimento puro e simples. Cá em baixo, a lareira bombava ondas de calor que inundavam o lobby de acesso a uma escadaria à antiga, dois metros de largura, pé direito duplo, lambrim de madeira pintada de branco até ao tecto, fruto de uma intervenção contemporânea, realizada por fases, que visou manter o esplendor de outros tempos assente numa proposta adaptada às necessidades. Com contenção, qualidade, e uma vontade de dedicar uma atenção exclusiva a cada cliente. Na subida ao primeiro piso, o regozijo por entrar numa Suite Júnior – só existem quatro iguais –, com hall de entrada, a surpresa de poder deglutir a fruta e a água mineral na bandeja prateada polida, depositada no móvel ali localizado, com o ambiente do quarto a rondar os vinte e oito graus, tecto com pé direito a acompanhar a medida do foyer, portanto, duplo, janelões para o exterior, e cortinados grossos que, com as janelas, rebatem o frio gélido constante na rua.  


















Vista do quarto para o estacionamento da entrada principal do Hotel

















Lareira com recuperador de calor em funcionamento no lobby de entrada

À mesa do pequeno-almoço

Espreita-se pela mesma cortina pesada de ontem, e anunciam-se dias de descanso com temperaturas baixas e céu limpo. Está um glorioso dia de Sol. No alto da Serra, a neve teima em consolidar-se. Por aqui, a vontade de ir confirmar a natureza do pequeno-almoço provoca algum frenesim. A casa de banho de dimensões muito generosas é a antecâmara da felicidade, branca, com a sua simplicidade e esmero. Ora, é tempo de ver os emails, de telefonar para o escritório e perceber se há alguma coisa urgente a tratar? Não, nada disso. É tempo de descer e beber uma variedade de sumos de fruta naturais, de comer iogurtes, diversos tipos de pão fresco, de que se podem destacar as bolinhas, manteiga, doces de colher, queijos, leite, café, fruta natural. A ementa é tão vasta que sossega a fome. A sala (do restaurante) com grande agitação, hóspedes que vão e vêm, que deambulam entre as mesas, que se dirigem à máquina onde o leite e o café estão quentes. A mesa de queijos, com queijo da Serra, Camembert, da Ilha, entre outros, o fiambre, mesmo ao lado dos chás, das manteigas, do croissants e brioches, do pão fresco, é todo um programa. Persiste sempre a dúvida sobre o que selecionar, equação que se resolve com as iguarias prontas para serem provadas nas diferentes hipóteses e combinações, depositadas em cima da mesa para reafirmar o propósito. Decalque de hotel com mais estrelas, valor acrescentado que coloca esta unidade hoteleira num patamar elevado. 


 
















A mesa de um pequeno-almoço no restaurante "Le Grand"

O hotel e o Spa

Quase extinto por um incêndio nos anos sessenta, o hotel foi relançado com uma filosofia da intervenção adoptada em toda a estrutura. Da recuperação monumental, com 130 quartos, resultou um espaço que tem sido adaptado às novas realidades contemporâneas, com uma redução da oferta para 70 quartos, com todas as condições ideais para que a estadia seja memorável. Havendo quartos maiores, as condições para acolher famílias são perfeitas. Quando o hóspede vem acompanhado de um grupo de amigos, com filhos de entremeio, então é fundamental compreender as necessidades prementes num processo de entendimento que confere a quem é cuidado uma satisfação importante. Podem passar-se ali semanas de tranquilidade sem se precisar de mais nada. Percurso do quarto para a sala do pequeno-almoço. Retorno para o quarto ou para a sala de estar, para ler os jornais do dia. Recuo para uma passagem pela rua, numa caminhada que desce aos resquícios do Rio Mondego, caso esteja frio e se queira sentir a pele a ficar fria. 



















O frio e o gelo


















As pedras soltas de 'desperdício' de granito


Caso se tenha em mente correr um pouco ao longo dos pedaços de granito que aparecem soltos por entre os campos, jogar mini-golfe, compreender a verdadeira natureza do local, é imprescindível reservar tempo para passear, cientes de que dentro em breve o almoço será posto em cima da mesa, e é preciso ter apetite. O mesmo se passa com o lanche, que pode ser tomado no bar lounge, ou se assim se quiser, numa incursão demorada pelas quintas e vinhas da região, com os seus espaços privilegiados, as suas provas, a simpatia de quem aprecia a concepção vitícola pelo prazer que recupera da uva. Se mesmo assim, considerar que tem muito tempo livre, então é chegada altura de considerar uma ou mais sessões no spa intimista. 

Para além da enorme banheira de hidromassagem, em sala separada, e para onde pode dirigir-se do quarto, em roupão, por um percurso discreto, poderá ainda usufruir de uma das massagens com óleos essenciais, com colocação de máscara de chocolate no rosto. É uma esfrega que recupera, digamos assim, seis meses de vida. Se fizer mais do que uma, faça as contas e determine quanto tempo quer recuperar. Se é verdade que a trucidação dos nós das costas é uma realidade por muitos difundida, a realidade concretiza que nem todas as pessoas são capazes de o realizar com capacidade, forçando os ácidos que se acumulam no final da espinal medula a libertar-se. E os ‘nós’, de facto, são sobrepujados pela força, técnica e consistência da abordagem, em duas marquesas enormes preparadas para o efeito, que podem servir também para os tratamentos de beleza básicos, como manicure, pedicure e depilação.



















A sala de estar com vista para o lobby de entrada

Os programas de spa disponíveis têm preços que variam, dependendo da sua duração, do número e do tipo de tratamentos. Os especiais, Anti-Ageing (5 a 7 dias), Acne Zero (7 a 14 dias) e Pós-parto (7 a 14 dias), variam de preço, entre os €400/€450, €275/€550 e €750/€1,200, respectivamente. Claro que cada um prima por permitir o acesso a um conjunto de tratamentos de beleza diferente, que pode incluir limpeza e tonificação, e pulverização facial, peeling (facial e corporal), aplicação de máscara de Aloe Vera, chocolate, leite, aplicação de cremes aminoácidos, algas, duches a jacto, exfoliação corporal com essências, massagens com creme reafirmante, entre outras possibilidades. Os programas de Bem-estar são ainda mais diversos. ‘Hidratante renovador, Anti-stress, Duo-Hidratante, Celulite zero, e Reafirmante’, com preços entre os €125 (dois dias) e os €500 (sete dias). A opção avulso pode ser escolhida, se se quiser realizar um tratamento dedicado, em exclusivo, com Aromaterapia, aplicação de Máscara de chá verde, Máscaras para o contorno dos olhos, efeito Botox e Desintoxicante e purificante. O preço avulso varia entre os €20 e os €65, dependendo da escolha. No final, os odores dos óleos gordos, sobrepõem-se, criando aquele efeito relaxante que perdura, recompõe, um efeito ideal para quem desvia a atenção de idas ao ski no estrangeiro, decidindo apostar na estância lusa na Estrela. 


















Sala de leitura 

 















Lounge-bar - entrada

Então, depois de um dia de ski, uma sessão de spa intimista – os casais podem optar por um programa específico que também inclui estadia, com um preço bastante competitivo –, preparação para outro dia de mazelas, e nada como finalizar o dito dia com um jantar familiar, sessão de fados (e outras melodias) ao fim-de-semana, menus que podem ser pedidos com antecedência, caso se queira variar, e com uma oferta que faz as delícias de quem ali se hospeda, e de quem, não se hospedando, escolhe o local para refugiar-se de encontro a um prato e a um vinho que valorizam a incursão. O cuidado do trato, a capacidade de fazer o bem pelos outros, faz deste local um ‘refúgio’, sem redundâncias. O tempo aqui fica suspenso, e cada hóspede pode apropriar-se com medida, esmero e afinco dos subterfúgios e recantos que a paisagem enumera e reproduz com vigor. Seja um passeio pelo campo para comprar vinho e azeite, doces e vegetais acabados de colher. Seja para visitar locais próximos, como Viseu e Nelas, que ficam a dois passos, ou a Serra da Estrela, que acompanha o delicado contorno de um vale que se funde com o Rio Mondego. 



















O Rio Mondego

Paisagem com vista para o Rio Mondego


















O edifício das Termas - vista da entrada principal do Hotel

As termas e o Balneário 

Ressalva para dizer que, neste momento, estamos a dias da abertura das termas. Fazem-se os últimos preparativos no edifício, pequenas reparações, ultimam-se todos os detalhes, como a instalação de resguardos nas casas-de-banho das senhoras, entre outras operações de manutenção que permitirão aos utilizadores uma passagem mais confortável. Estando tudo vazio, o reconhecimento é realizado ao um nível do pormenor. O arquitecto Rodrigo Maria Berquó concretizou o edifício em 1887, para a Companhia de Águas da Felgueira. Uma torre ao centro, com três pisos, dois corpos laterais, a que foi acrescentado um piso e um corpo anexo, acoplado a esta construção principal, em 1930, criando a entrada visível na fotografia, com parque de estacionamento recente, e entrada nas termas ao fundo. O balneário usa as duas construções, tendo sido renovado entre 1996-98, com a modernização do equipamento disponível, relocalização das salas de inalação, duches, instalação de uma piscina com uma área generosa, de zonas de repouso, de rampas para facilitar o acesso, salas de tratamentos e banhos isoladas, com banheiras a motor (para hidromassagem e outros tratamentos semelhantes), e individuais, ginásio, bar, deixando visível as águas captadas, que correm livremente por dois furos a 57 m e 252 m de profundidade. O aquífero terá uma idade a rondar os 13 mil anos, o que só prenuncia coisas boas. 



















As Termas

No final da avenida da entrada nas termas, há um corpo de ‘lojas’ que a administração das Termas, e do Hotel – agora a mesma –, gostaria de ver alugadas durante a época termal (e não só), disponíveis a um preço muito competitivo. Se tem um pequeno negócio que pode arcar com uma deslocalização temporária, ou com um acréscimo de oferta, tem ali uma oportunidade para dinamizar a sua marca (s). Há ainda muito espaço para evolução e renovação. A oferta aumenta todos os anos, há clientes fiéis e é necessário adaptar o balneário aos novos tempos, exigência e hábitos que requerem uma dedicação que se apreende do cuidado com que esta adaptação está a ser realizada pela nova gerência do hotel. Contenção, determinação na formação de uma equipa que responda em tempo útil a todas as solicitações, simpatia, qualidade de atendimento. Outras termas haverão, com edifícios novos, criados de raiz para o efeito. Ali, o património edificado é o lastro que determina que a tarefa de adaptar tudo, de criar novas circunstâncias, de entender como se pode usar o construído, sem no entanto fazer tábua rasa da história. Obviamente, a tarefa é mais complexa por esse motivo.


















'Avenida' das Termas, lojas (à dta.) e entrada em baixo (ao fundo)

O serviço prestado é de luxo, porque com uma equivalência entre a técnica – há um batalhão de médicos que dão consultas diárias aos clientes –, e o suporte humano, como permuta entre o culto da água, as suas propriedades, e uma atenção especial dada a cada pessoa. Aquilo que se poderia considerar como passível de ser substituído, mesmo a nível espacial, é aqui encarado como tangível, capaz de ser preservado como elemento que configura aquilo que é importante apontar – nem que seja por uma questão de racionalidade. É o caso da rampa na entrada de um dos edifícios, com uma inclinação razoável, dos revestimentos interiores nas paredes dessa zona de pé direito triplo, azulejos muito bem preservados, um elevador capaz de levar 20 pessoas de uma vez para o primeiro piso, entre outros apontamentos. A seu tempo, haverá uma reformulação deste acesso, daquele espaço, por exemplo, que passará por fazer dele uma zona de estar privilegiada, onde a luz entra de uma maneira quase tão especial como nas salas de inalação, que albergam uma dezena de pessoas de uma vez. Lá está, entender o local, relançar o seu uso mantendo a identidade que o caracterizou no passado. 



















Um dos equipamentos para tratamentos nas Termas 

Os tratamentos disponíveis (que aqui serão futuramente analisados em pormenor) têm indicações terapêuticas relacionadas com patologias de ordem pneumológica, do foro da otorrinolaringologia e reumatologia. As águas termais têm uma natureza sulfúrea primitiva, com 8,4 de Ph, bicarbonatadas, sódicas, fluoretadas e meotermais (35,8º C), captadas em furos com 57 e 252 metros, com grande estabilidade e pureza. Afecções das vias respiratórias, como a asma brônquica, e a bonquite crónica, os enfisemas, as doenças inflamatórias crónicas do aparelho respiratório; afecções reumáticas, com reabilitação articular e muscular e tratamento de doenças músculo esqueléticas, são complementadas com técnicas variadas, que incluem tratamentos de bem-estar terapêutico, como as massagens Vichy ou Aix, o duche subaquático, duche multijactos, técnicas de vapor para mãos e pés, coluna e de corpo inteiro, de maneira a acabar com as bronquites, as rinites, as sinusites, e artroses desta vida. A piscina de mobilização é igualmente utilizada num dos muitos programas termais, que também promovem a hidratação profunda da pele. Se não apreciar as propriedades das águas termais, e preferir mergulhos de piscina ao ar livre (olímpica), espraie-se numa das espreguiçadeiras, vá ao bar recentemente renovado jogar bilhar, sente-se ali próximo para apreciar o desenho de um bar de outrora, adaptado ao uso contemporâneo, com um longo balcão, e uma vista privilegiada para o vale e o rio Mondego. Porque é disto que aqui se trata, da natureza no seu estado mais elementar, do usufruto das propriedades naturais da água ancestral, nas suas inúmeras vertentes.


 
















Um dos percursos junto ao rio

Do vinho aos pratos de comida tradicional portuguesa (crítica gastronómica e de vinhos)

Quando se consegue estar vários dias num mesmo local, a comer no mesmo sítio, conhece-se tudo, sabe-se tudo, compreende-se a filosofia toda e a abordagem requerida. No caso do restaurante "Le Grand", referência em primeiro lugar para o espaço, bem arejado, muita luz, mesas decoradas com contenção, toalhas impecáveis, talheres idem, de peixe e carne, loiça cuidada, mesa de doces e de queijos apetrechada a todas as refeições com novos produtos, e uma atenção do chefe de sala, que coloca a miudagem (ou nem por isso) que serve em sentido, exigindo o natural rigor. O espaço é frequentado por hóspedes e visitantes ocasionais, estando as noites de sábado dedicadas a jantares mais efusivos, com ementas mais elaboradas e música ao vivo, cantares em que a plateia também participa.



















A mesa posta com uma 'morangoska'

O regime de meia pensão é o mais usado por quem frequenta o hotel, hábito de quem vai para as termas e precisa de estar quieto a tratar-se. Podem-se escolher outras opções que não seja comer todos os dias no hotel, mas para isso é necessário pegar na viatura, e nem sempre se está com a disposição ou se tem tempo. O restaurante é, contudo, uma opção excelente, com a sua diversidade. Isto diz bastante da cozinha. Cuidada, atenta, bons produtos, bom tratamento dos mesmos, sem invenções ou opções fora do terreno adequado e confortável da comida tradicional portuguesa. É uma ementa que segue a orientação “cosy” do hotel. Comida confortável, de quem toda a gente gosta, e a que toda a gente adere. A carta de vinhos, embora exista, é pequena, e a disponibilidade maior será uma exigência quando o conjunto hoteleiro for presenteado com mais estrelas. E mesmo quando o chef se ausenta, tudo corre sem sobressaltos, com o natural empenho de quem sabe que falhar é uma palavra que não cabe no vocabulário da equipa.



















A sopa de legumes frescos com pão torrado

E, assim, depois de uma manhã de passagem pelas termas (ainda fechadas), pelos apartamentos (não ocupados), que têm a tal localização incrível, e uma tipologia que faz com que a luz os inunde totalmente, o que contribui para o revigoramento, chegamos ao restaurante, a ementa enunciada à porta, com entrada, dois pratos principais e sobremesas. É assim todos os dias da semana. Sentados, foi sugerido beber vinho, escolhido o tinto, servido em jarro. Quem está em regime de meia pensão tem esta possibilidade, pois o preço está incluído no valor total da estadia. Quem não está hospedado, pode aventurar-se por outros voos, ou seguir a maioria. O tinto tem bons aromas, equilíbrio nos taninos, algum doce no final, que é ultrapassado pela mineralidade do Dão, que marca a sua intensidade. O vinho branco é servido do mesmo modo, sendo mais ‘espesso’, com um pico bom de gás, boa cor, precisava apenas de uma maior delicadeza de feitura.



















Espetada de lulas

Provados, uma sopa de legumes soberba, o caldo com a espessura exacta, claramente validada pelo uso de produtos frescos. Um fio de azeite complementa a densidade, a que acrescem pedaços de pão previamente torrado. Riqueza e textura que pedem repetição. Prato principal, desta feita, espetada de lulas com batatinhas, camarões, e aquele feijão-verde amanteigado, delicado, sabores ténues, que se adequam à combinação com o vinho, os sucos no sítio certo, uma mistura entre a gordura, a manteiga, a fritura dos camarões, o derrame sobre as batatas. As lulinhas bem trabalhadas, mastigam-se no sabor que aconchega, proveniente do braseado. Nada a apontar. Sobremesas várias, como sempre: mousse de chocolate feita com chocolate negro, arroz doce, tarte de natas e os queijos para acompanhar com doce de abóbora abastecido pela cozinha – ali confeccionado.



















Bacalhau assado no forno com batatas a murro e grelos 


















Picanha com puré de batata gratinado e fruta

Provado também o bacalhau assado com batatas a murro, as batatas no ponto certo de assadura, tal como o bacalhau, que se lascou com facilidade, e que podia estar mais apurado de sal, a cebola fatiada finamente, os grelos bem cozidos e o azeite. Quando se combinam legumes cozidos com algum elemento assado, há um cuidado que é preciso ter: secar o legume, isto é, retirar-lhe toda a água, antes de empratar. Se isso não for feito, o bacalhau pode ficar inundado numa película de azeite e água. A melhorar. Num dos jantares, com outra sopa de legumes, desta feita passados, caldo no ponto, e depois uma picanha de muito bom trato acompanhada de puré de batata gratinado, com fruta: ananás, pêssegos braseados, banana, kiwi e cereja, prato muito pouco português, numa adaptação da ementa ao gosto dos clientes, o que se percebe, apesar de alguma perda de identidade. A convergência é conseguida, os rolos tinham aquela camada inicial mais dura, o pêssego era de lata, as restantes frutas frescas. A carne era de boa qualidade, tratada da maneira correcta, suculenta, com o alho a conferir uma boa nota que compensa ser uma adaptação à cozinha tradicional lusa.


















Creme de legumes 

















Creme de camarão


















Medalhões de vitela com batata frita e couve


















Bavaroise com maracujá em crepe salgado

Chega o momento de usufruir de um jantar especial, com fados cantados ao vivo e menu do programa, com uma surpresa no prato principal, que obriga a repensar afinal o que é a ‘alta cozinha’. Para começar, uma ‘morangoska’ apresentada com muito bom gosto. Doce e amarga, definida para ressaltar o que aí vinha. Um creme de camarão bem aveludado, com sal q.b., o sabor do caldo de camarão bem nutrido, ainda melhor se com o pão torrado às lascas. Depois, o protagonista da noite, um bife, medalhão do lombo grelhado, perfeito, com a manteiga que o finalizou embebida. A carne bem proporcionada, bem batida, sem um pingo de água, fatiou-se como manteiga. Sem exageros, um dos melhores medalhões já provados, com uma guarnição ideal. A couve cozida, ligeiramente doce, com o toque do alho, as batatas fritas cortadas na medida certa, compuseram a miese-en-plàce de um prato imperdível. Por fim, uma bavaroise com maracujá, num crepe salgado, com pequenas linhas de doce de morango, como a bavaroise, criando um contraponto bastante equilibrado na sobremesa. No geral, estilo rústico, com esmero, familiar, ao som desconhecido de Isabel Maria que, mesmo para quem não gosta de fado, faz presidir a melodia como acompanhamento telúrico. Se isto não é 'alta cozinha' da melhor, isto é, se o interesse pelo cliente, a qualidade dos produtos, a apresentação e o sabor, não podem constar do epíteto, desconheço o que possa constar.

ROTEIRO - Nelas

Como chegar

Em primeiro lugar, deixe-se de salamaleques e poupe, porque vai precisar de gastar com os múltiplos tratamentos de excelência. Assim, faça-se à estrada e enverede pela ‘subida’ a Norte, realizada fora do perímetro das vias mais rápidas, as conhecidas, e dispendiosas, Auto-estradas e Scuts. Dedique-se à causa de ali chegar através do reconhecimento das estradas secundárias, sejam IP’s, IC’s, ou aquelas vias que aparecem a amarelo (porque esburacadas) nos mapas de Portugal. É todo um país que se revela. Gente real de que as ‘a-uns’ e ‘a-vinte e três’ desviam, na sua ânsia de colocar o tempo no seu percurso mais veloz. A diferença de preço também compensa: cerca de €15 em cada percurso, o que implica uma poupança de pelo menos €30. Tomada esta decisão, aprecie a paisagem em todo o seu esplendor. Se está a sair de Lisboa, apanhe o IP8 até à Tornada e saia para a N8. A partir daí, siga passando por Alcobaça, Batalha, Leiria, Pombal – e se veio pela A1, saiu aqui para a N8/IC2 –, Coimbra, apanha aqui o IP3,passando por Souselas, Vimeiro, depois começa a percorrer o IC12 até Carregal do Sal, e chega a Canas de Senhorim, um pouco antes da pequena vila de Nelas. Especial enfoque para o momento da aproximação à vila beirã. Viaje de dia, e aprecie os diferentes momentos do percurso do Rio Mondego, nas suas inúmeras tergiversações. Uma lentidão sublime que devolve todo o empenho realizado numa viagem mais demorada e que, aos poucos, faz esquecer qualquer espécie de cansaço que passa a ser claramente residual. Ficou para trás.

Onde comer

Restaurante do Hotel/Termas das Caldas da Felgueira
"Le Grand"
Av. António Marques
Caldas da Felgueira
3525-201 Canas de Senhorim

Tel.: 232 945 000
Fax: 232 945 002

Preço médio – €15/pessoa (se as refeições não estiverem incluídas no progama de meia-pensão, ou pensão completa - a escolha mais habitual dos hóspedes). Nas noites de sábado, costuma haver música ambiente, tocada ao vivo.

Restaurante Bem-Haja
Rua da Restauração 5, 3520-069 Nelas

É um dos lugares porque pode optar, caso queira variar da comida apresentada na carta do hotel. Logo à entrada de Nelas, duas salas com uma zona de bar, uma das salas com uma lareira que aquece, sem fingir e sem fumos adicionais. Fica localizado numa antiga adega. É mais caro, e vale a pena. Fica-se cativo das pataniscas, da farinheira e do chouriço de entrada; dos filetes de polvo com migas, do bacalhau com broa, o cabrito como pratos principais; da tábua de queijos e da mesa de sobremesas, com encharcada, do bolo de noz e da tarte de amêndoa, para destacar apenas alguns pratos da ementa, arremetem para o patamar essencial da comida realizada com um empenho especial. Aquela que não se esquece.

Preço médio - €20,00/pessoa (+ vinho) – as escolhas do Dão têm prioridade, agora com o complemento e opções de outras regiões.

Tel.: 232 944 903
Fax: 232 944 903

Restaurante Quinta de Cabriz
Quinta de Cabriz, EN 234, 3490-909 Carregal do Sal

É um restaurante marcante, pela imponência, cuidado de apresentação da sala, e dedicação da Ana Paula Figueiredo, que representa a GlobalWines durante o fim de semana, e alguns dias durante a semana. Os pratos são os típicos da região. O cabrito, o bacalhau, o entrecosto, as sobremesas de grande impacto, e a selecção de vinhos estende a oferta para além das marcas Dão Sul.

Preço médio - €20/pessoa (+ vinho)

Tel.: 232 960 222
Fax: 232 960 140

O que comprar

No Hotel, a gama de produtos com a marca das Caldas da Felgueira, fabricados pelo laboratório Dermo-Cosmético Alan Coar, localizados em Valência (Espanha). Cremes de rosto hidratantes, leite de limpeza, Body milk, Tónico, para tratamento em ‘modo’ spa, tudo a depender do local, dos seus atributos, com aquelas características merecidas das águas termais. Fora do hotel, pode visitar uma das quintas localizadas na região e as suas lojas. São muitas: Santar, Cabriz, Quinta do Sobral, Quinta da Fata, Vinícola de Nelas, Cooperativa de azeite de Nelas, podendo fazer-se proprietário de vinho, na suas edições limitadas e outras mais correntes, e de produtos associados, como compotas e doces, acessórios de vinho, e o belo do azeite. Se quiser ser cosmopolita, algumas das quintas aceitam a marcação prévia para refeições familiares.

Poderá também realizar caminhadas na quinta onde está inserido o complexo hotel/termal das Caldas da Felgueira, junto ao Rio Mondego, entre montes e vales, com vistas que são um privilégio de tão marcantes, pela diversidade da vegetação, criando uma espécie de ensaio paisagístico em permanente mutação. No Inverno, as temperaturas baixas convidam ao recato e à permanência numa das salas com lareira, ou à prática do ski, comme il faut. Sair cedo, chegar cedo. Terapia para o corpo no spa, com massagens, para recuperar forças, dia seguinte idêntico. No Verão, poderá optar por jogar partidas de mini-golfe, e ténis, por deslocar-se à Serra da Estrela para apreciar a flora e fauna sem neve, comprar queijos amanteigados ou tentar os mergulhos de rio nas zonas preparadas para o efeito.