Do alto (e baixo) da Serra da Estrela












Quantos vinhos podem dizer-se apetecíveis, quer pelo preço, quer pela qualidade? Cada vez mais. O nível, a bem dizer, pode ser influenciado por muitas características. E no caso desta semana, um preço agradável, mais baixo do que é costume (ide ao Continente o quanto antes), permite aceder a uma escolha bastante diferenciada, com a Serra da Estrela em pano de fundo, muito solo granítico, rocha e um skyline de depressões e elevações com uma continuidade que uniformiza o lugar, no centro do distrito de Castelo Branco. Isso também faz a vinha.
Do Dão, Quinta de Pinhanços Colheita de 2009, com uma aglomeração de Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen, todas castas que a região promete e permite desenvolver em condições quase ideais, e por isso em uníssono, com espaço suficiente para que se promova uma prova que é um convite ao conhecimento, e que parelha incrivelmente com sabores salgados e doces.

Uma rolha impregnada, cheia, à abertura, muita tosta e espargo, com forte concentração de madeira, e canela como seu sub-produto (bom) complementar, numa base vegetal, com os aromas da fruta bem marcados. Claro que isso apenas denuncia o bouquet frutado (como se fosse pouco), que a seguir se confirma como de sabor limpo e fresco, tal como a cor, um vermelho mineral com intensidade regular, sem que se possa dizer que o seu vinco se destaque extremamente, e isso está relacionado com a luz.

O que logo a seguir sucede, é um início curto e adstringente, com taninos como uma fortificação, o teor da base vegetal, os aromas de fruta igualmente confirmados, e o final longo, a madeira a reproduzir-se no seu equilíbrio, isto à primeira prova, o que compõe um significado que faz este vinho desempenhar um papel decisivo em que o tempo da prova é essencial para o conhecer melhor. Uma intensidade adequada e uma robustez que lhe dará um envelhecimento tranquilo.

À segunda, terceira e quarta provas, esse mesmo vigor, que ainda pouco tem de complexo, muda de tom, e a fruta madura, os aromas a amoras, a morangos silvestres, em doce, que complementam a robustez do líquido, de grande agilidade, que se contrapõe com uma amplitude que convoca a camada vulcânica do granito, da serra, dos sabores intensos que a terra deixa transparecer, sem acidez, com o complemento da especiaria. O que surpreende neste tinto é a transparência, e a capacidade de se adequar a uma gastronomia que, não sendo especialmente tradicional, adapta um carácter confortável, de comida que se requer em dias de partilha, como a realizada.

Com uma entrada de dias mais quentes, a combinar com o Sol lá fora – apesar das temperaturas mais baixas, numa vichyssoise repleta de cebolinho e um fio de azeite virgem-extra, os pedaços de maçã desfeitos em textura firme, uma feijoada de chocos com feijão vermelho comprado ao quilo numa mercearia de bairro, e um ‘segredo de Eva’ a fechar o repasto, que é tão só e apenas um bolo tipo caixa, de massa fina a que se contrapõe um conteúdo de maçã que passa pela panela com cinco colheres de vinho branco e açúcar, mais as passas (ou figos secos), até cozer desligado, em vapor, e transformar-se em preparado que deve ser servido morno. É o vinho da semana.