Na galhofa












Vamos para o Douro (Mêda), local onde as vinhas estão entre os 400 e os 650 m de altitude. É todo um mundo que se revela neste Fraga da Galhofa Tinto 2008 (da Vinilourenço), uma opção preço/qualidade praticamente imbatível. Os ares mais rarefeitos, a oxigenação de rio que serpenteia de modo marcante, dão evidência do blend de quatro castas (Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca), logo na abertura.
Notas de fruto vermelho, teores vegetais de musgo, alguma madeira que se esfuma depressa, algum balsâmico (acre) e uma tendência vegetal acentuada com o amargor, por exemplo, da rúcula. Depois a cor. Rosáceo, granada na sua intensidade maior, ou seja, mais espesso do que é comum, densidade extrema, que releva de uma película que deixa um rasto generoso onde a luz não penetra. Nada de mal vem ao mundo por isso, porque é no nariz que se começam a delinear os pressupostos.

Conteúdo floral do fruto vermelho, que confirma o início marcado, algum nível de álcool (13%), mais pronunciado no final e a frescura dos morangos bem delineada na base: o fruto intenso retirado com vigor do embate com o peso da compressão, e da maceração, com um vegetal um pouco ‘apagado’ a cada nova inspiração, o álcool a notar-se com maior evidência agora, que a madeira desapareceu de vez embora com partes a querer despontar.

Digamos que à primeira prova uma adstringência que remarca em troço de amargor, porque o doce é aqui relegado para outro lugar, apesar da fruta, mantendo-se febril, em suspenso, com notas novas de pimenta ao segundo gole, denotando um início sempre longo, um final ainda mais prolongado, e desta feita alerta para os tenores vegetais (do xisto e do granito da terra). Outros.

O gesso, a cal, a fruta que falta no nariz, a segunda prova com tudo em reticências que suavizam o fulgor inicial, o líquido como que a equilibrar-se, porque o final ainda mais longo, com um terroir absolutamente definidor, e a fruta que se coloca em paralelo a todos os outros fulgores, em deriva da pisa mecânica realizada nos lagares de granito.
No geral, um vinho que vai prevalecer alguns anos em garrafa, que no dia seguinte estava em condições ideais de continuar a ser deglutido, e que o foi. Primeiramente, com uma dourada escalada frita com azeite aromatizado de alho e pimenta, e também com um belo pudim de leite condensado, armado de uma profusão generosa de natas, tendo, para finalizar em beleza, um cappuccino caseiro de boa conta a dar conta do resto. É o vinho da semana.