Uma proporção adequada


















De volta ao Alentejo. A metereologia  ajuda, porque  passada a ponte Vasco da Gama, e quanto mais próximo do Algarve, menos aguaceiros, o que a terra pré-determina como secura, embora nem sempre seja dessa maneira, há dias que chove copiosamente. Enfim, o tempo apropriado para uma experimentação de importância maior, com um vinho da FITAPRETA (David Booth- Viticultor + António Maçanita - Enólogo), numa gama com nome pomposo, de tendência residual para a risada e o humor bem trabalhado. E cumpre.

Muita palha na rolha, intensidade em esbanjamento puro, com o álcool a fazer-se notar com suavidade, até desaparecer, e notas vegetais de boa conta. No copo, a cor bem escura, de um granado pastoso com notações de arrasto no nariz, muito aromático com framboesa e amora, numa dinâmica impactante da fruta.

Que começa de maneira curta, com um final longo, muito específico, e uma variedade tonal  quase previsível (vide castas: Touriga Nacional, Syrah, Aragonês e Cabernet Sauvignon), nem por isso desinteressante. Bouquet redondo, líquido mastigável, portanto, conotação razoável a teores bastante frutados, muita fruta mesmo, de que deriva um perfume macio. À segunda prova, aparenta dificuldade no arranque, apesar de amanteigado e frio. E aqui começam a notar-se diferenças, relacionadas com a qualidade da vindima, a metodologia escolhida (que inclui selecção em caixas de 20 kg), e o rigor da concepção, transversal à sobriedade da escolha das uvas.
O amargo, implantando agora  com vigor, o que contraria a tendência doce dos vinhos alentejanos, desta feita com uma pimenta razoável, embora nada marcante (e que bom, assim), com o seu carácter e complexidade a evidenciar uma expressão jovem, fresca. Com queijos, por exemplo, destaca-se a untuosidade do dito, que avigora à segunda e terceira provas, tal como o ‘pico’ da pimenta, bem mais marcante para o final da terceira.

Temos vinho de elegância primorosa, numa escolha equilibrada relativamente ao preço, à sua plenitude e vigor, com boa conta e risco para quem o quiser ‘reservar’ por bom período de tempo, pois estagiará delicadamente em garrafa. O final reserva também um balanço ainda mais mineral, o que configura uma abordagem arrojada, bem delineada pelo equilíbrio e pelo corpo. Acompanha na perfeição o medalhão de vaca com o molho reduzido do próprio vinho, e uma sobremesa numa tábua de queijos, com segunda dose a aproximar-se do exotismo de natas, suspiros desfeitos, manjericão e amêndoa ralada para finalizar, isto em duas camadas, a imitar o néctar. É o vinho da semana.