Do interior das beiras
























Este veio de propósito do Dão, acabadinho de rotular, com novo design e enologia. É do centro daquela região sedimentada nos recursos graníticos, e numa paisagem que se concebe no terroir e na coloração verde e acastanhada que percorre o solo. Só mesmo dali, das vinhas do ‘embaixador’, e da Cristina, sua filha, e do marido, de seu nome Quinta do Sobral, que são quem cuida de tudo. Uma vinha familiar, uma atitude construtiva, de quem quer fixar-se no mercado com dedicação e carinho a uma causa de que não abdicam: procurar fazer os melhores vinhos.

A vinha foi, há muitos anos, comprada à Casa de Santar. É uma das melhores e mais emblemáticas da região, confinando directamente com a grande extensão de fruto vitícola, ficando muito próxima do Paço dos Cunhas. Mais especificamente, passa-se ao lado do Paço, vira-se à direita, esquerda, e depara-se com a adega.

De três novas criações, havendo um quarto (tinto) que terá saída no final do ano, esta prova vai dedicar-se ao Quinta do Sobral – Santar Tinto DOC de 2010, concebido com Touriga Nacional e Tinta Roriz. E que vinho. Uma rolha com bom prenúncio, aromático, completamente vegetal, algumas notas do bago, laivos tranquilos de amêndoa torrada e alguma pimenta, em modo suave, com a madeira como complemento. Revela, desde logo, grande carácter.

Uma cor brilhante, vermelho negro e um recorte rosa choque (no limite do líquido), um nariz que confirma a predominância vegetal, pouco álcool e couro. Numa primeira impressão, a qualidade é conferida num bouquet equilibrado, um início curto e suave, que alterna com um pico e intensidade da pimenta, desaguando num final mais longo, completamente frutado e aromático. Digamos da película que persiste, com aquela cor tão vigorosa, sendo quase mastigável.

É à segunda prova que o pleno sentido do líquido começa a notar-se sobremaneira, com o apimentado mais presente, tal como a fruta, a madeira, agora numa expressão que constitui uma harmonização e abertura, redondo, a cor translúcida, à terceira prova está no seu auge, à quarta prova idem, e no dia seguinte, todas as características relevantes no preparo, mantém a sua pujança.

Um vinho muito agradável, polivalente, com uma forte ligação ao Dão, na sua consistência e diferenciação. Cor e raiz de grande envergadura, sempre a melhorar, com uma aparente simplicidade de concepção, tudo menos simples. Amargor no momento certo, denso na medida apropriada, floral na proporção exacta do fruto, expressivo na frescura e no vigor, límpido e macio, revelando uma maturidade com nuances várias, uma nota de resina, com especiarias, minério (solo vulcânico), azeitona e ginginha, uma madeira que se destaca, como a sua delicadeza. Acompanhou um frango do campo assado no forno, com batatas e cenouras, pode acompanhar carnes vermelhas e peixes gordos.