Os segredos de uma nação
























Como povo, os judeus concebem-se num retrocesso histórico. A reconquista da Terra da Promessa. Independentemente da questão da legitimidade, este romance assenta arraiais numa trama engendrada para recolher o património dessa luta pelo lugar. Resquícios perdidos num contexto contaminado pela busca de dinheiro fresco, poder e vários desideratos. A história, um aglomerado de cartas reunidas trocadas entre personagens, remonta aos anos setenta, e teve data de publicação posterior, um ano (1987) depois do início da primeira Intifada – um termo árabe que designa a ‘revolta’ palestiniana perante o êxodo e retorno daquele povo. Entre Jerusalém, os territórios ocupados, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, e Chicago, movem-se Alex Gideon, um doutorado (a trabalhar nos ‘estates’), escritor dedicado à temática da identidade judaica; seu filho Boaz; sua ex-exposa, Iliana e o seu novo marido, Michel; a filha bebé de ambos, Yifat; e um advogado sanguessuga, com uma aparência de cordeiro. As referências bíblicas à Tora (os primeiros cinco livros da Bíblia, aceites como o Pentateuco, escritos por Moisés), são para além de marginais. E todo o enredo, que é um ajuste de contas sobre o divórcio de Alex e Iliana, termina da pior maneira. O dinheiro corrompe os laços familiares, porque primando pela abundância, é o elo principal que os liga. Neste âmbito, é uma espécie de repositório de fé da frustração judaica, pelos desmandos a que foram sujeitos.

Título: A Caixa Negra
Autor: Amos Oz
Editora: Dom Quixote
Preço: €12,15
Classificação: 4,5 estrelas

Prós: Capacidade de recriar a ‘iconografia’ de um povo, nas vertentes cultural, social e religiosa
Contras: Não tem

Texto escrito para o número de Março de 2012, da revista Os Meus Livros, entretanto suspensa.