Um 'Fata' de boa cepa
























A dificuldade de escrever sobre vinhos que são feitos por alguém que prezamos, é mesmo essa, de ser independente e sério, sem cair na esparrela da bajulação. Só que no que diz respeito aos vinhos da Quinta da Fata, nem sequer é necessário preocupação excessiva a esse respeito. Os prémios adequados em Inglaterra e mesmo no Dão, que os néctares daquela quinta têm ganho, escamoteiam qualquer espécie de dúvida a quem, mais preocupado com o seu umbigo do que com a estreiteza no trato, viesse aqui perorar sobre satisfações devidas.

Como se vê, continuamos no Dão, e é um caminho que vale a pena percorrer. Vamos aqui ficar por um bom tempo. No caso, importa relevar que o vinho em causa é o Quinta da Fata Touriga Nacional 2009, um monocasta, com tanto tem de versatilidade como de qualidade e corpo, de um ano especialmente consistente, que viu produzir escolhas de especial enfoque. De um 'clone' de uva escolhido a preceito, com o cultivo dotado de grande engenho, é o mínimo que se pode dizer.

Num primeiro momento, à abertura de garrafa, a madeira, o espargo, um pouco de couve roxa, com um odor de maturidade que impressiona por ser tão precoce, tinha sido acabado de abrir. Nuances vegetais de um fruto bem (de)marcado, com delicadeza e persistência suaves, muito concebíveis, se é que me entendem, com as amoras, a azeitona e alguns enchidos bem complementados nos instantes iniciais, porque aquele Sol faz maravilhas.

Num segundo momento, ainda na garrafa, maior intensidade vegetal, ainda mais completo, intenso e a marcação da azeitona, sempre a mudar de comportamento e a evoluir.

Vertido no copo, depois de uma hora de espera (paciente), um nariz com pimenta e amêndoa amarga, álcool nem vê-lo, equilíbrio quando comparado com a cor forte do líquido, granado escuro, preto mesmo, de consistência original. Uma boca com início suave na confirmação da pimenta, fruto bem torneado, presente, a destacar-se nos taninos bem vincados, e um final mais longo do que o ‘início’, repartido entre as suas diferentes constituições.

Depois, um pico de gás que desaparece depressa na efervescência que delineia o limite 'aquífero', a permanência do fruto maduro, com grande impacto do seu perfume e frescura, redondo, o que para um monocasta denota rigor e eficácia na procuração dada pelo estágio, e pela feitura. À segunda prova, esboçado o carácter inicial, o teor granítico faz o contraste ponderável, na sua génese macia, límpido e harmonioso naquilo que é uma relevante conotação gastronómica.

À quarta prova, um fosso que reproduz a maturidade, parece outro vinho, mantendo o vigor, sobressai a canela, o que faz bradar da qualidade tão unilateral de uma casta de grande envergadura, parece seda. Acompanhou uma carne de porco, selada e assada em forno leve, com arroz branco, e molho resultante da fritura de couve roxa (previamente escaldada em água), com frutos secos (figos, passas) e mel (uma colher).

Revela uma especial apetência na conjugação com queijos, e é aqui que se concebe uma parte da sua grande 'mastigação'. Diga-se que no segundo dia, apesar de deixado num copo aberto, mantinha todas as características, todo o esplendor, o que diz tudo de uma escolha especialmente robusta, com um carácter que comprova a ligação ao terroir, à terra, ao Dão. É o vinho da semana.