'As vidas dos outros'
























A propósito desta notícia, gostava de contar aqui uma história com contornos rocambolescos. Relativamente a espaços que acolhem idosos (vulgo ‘lares’), como se sabe, há de tudo. Lugares onde se pagam somas astronómicas e os serviços disponíveis, incluindo limpeza, são miseráveis. Casas de acolhimento que fazem as vezes de um lar no número de quinhentas vezes, e podíamos multiplicar por mais, por causa da dedicação, do zelo, e da qualidade das pessoas que recebem idosos em casa. E depois temos a Segurança Social que, no seu melhor, tenta fechar essas casas de acolhimento em que as pessoas que as dirigem prevaricam, ou que pensam ter prevaricado, e aqui os melhores saem claramente prejudicados. É o caso da casa onde a Celeste recebe os seus idosos. E ter escrito ‘seus’ não é casual.

A Celeste é uma mulher dedicada que tem aquela qualidade que distingue as pessoas boas. Para além da especialização técnica, gosta tanto do que faz e trata tão bem as pessoas de quem cuida, que impressiona. Higiene, limpeza, qualidade da alimentação, cuidados médicos adequados, presença constante de técnicos e enfermeiros na sua casa, deslocação sucessiva aos médicos de família dos doentes para tratar de receituário, medicamentos a administrar, e só quem nunca passou pela velhice de outros, tendo de cuidar deles, é que não sabe bem o que estas palavras implicam. A Celeste, por assim dizer, é um achado. Em quase dez anos de cuidados prestados aos meus avós, nunca encontrei ninguém como ela, e só a conheci um mês antes da minha avó morrer, e um ano antes do meu avô ir pelo mesmo caminho. Até lá, quer dizer, até ter a honra de a conhecer, foi uma travessia no deserto.
Desde empresas de prestação de cuidados em casa, até outras pessoas com casas de acolhimento, foi possível ver de tudo. Os preços elevados nunca verificaram um serviço impecável. O que sucede quando uma pessoa não está satisfeita, é que precisa de andar a percorrer meio mundo para encontrar uma empresa, ou casa de acolhimento melhor. Foram mais ou menos oito anos a fazer isso, juntando toda a gente possível ao barulho, desde presidentes de junta de freguesia, assistente social, presidentes de empresas de prestação de cuidados, donas de outras casas de acolhimento – com queixas-crime e tudo, até que a insistência resultou no feliz encontro com a Celeste.

Para meu espanto, e depois de um ultimato proferido por uma rameira que queria sacar mais uns cobres, surge-me a Celeste, que como uma verdadeira profissional, com uma casa simpática, recebe os netos, conversa com eles, dá a conhecer o local, diz quais os serviços disponíveis, o preço, e depois de imediatamente aceite – a qualidade é perceptível ao longe –, anota a medicação, pergunta onde estão os avós, diz, e cito: “não se preocupem com mais nada.” E, de facto, nunca mais foi preciso preocuparmo-nos com nada. A Celeste tratou de tudo. Com uma casa que até tem camas de hospital, recebeu os avós com carinho. Acompanhou-os em todo o processo de desintegração física, respeitando-os como seres humanos, como pessoas, cuidando deles com uma extrema dedicação. Até à morte de ambos.
Desde que conheci a Celeste que lamentei não a ter conhecido antes. Como vivemos num país mesquinho, a filha da Celeste, e assistente social na região, só correspondeu ao meu apelo em última instância, porque percebeu que deste lado havia desespero e incapacidade para agir. Queria proteger a mãe dos falatórios vãos, da escumalha que tangencialmente percorre estas e outras zonas do país, ou que apenas ali vive para complicar a vida do próximo, com o apoio silencioso e mesquinho da Administração, e da legislação mal proferida em que baseia a sua acção e fiscalização.

Digo isto porque a Celeste é alvo de denúncias, dia sim, dia não. A razão prende-se com o facto de, apesar de ter tentado licenciar a casa onde habita com um alvará de utilização específico para lar de idosos, deixou o processo arrastar-se no Município. O dinheiro não abunda, e com o número mínimo de três idosos, sem poder abalançar-se numa empresa maior, a coisa vai rolando com delicadeza e sem excessos. Mas o projecto para o pedido de autorização específica está pronto. Como a maior parte das pessoas, pensou que iria concretizá-lo mais depressa do que afinal se está a verificar, quando confrontada com a legislação para fazer isso, começou a fazer contas. Entretanto, vai cuidando dos idosos como pode, e acolhendo as visitas regulares das equipas de fiscalização, que ali vão referindo sempre que o lugar tem todas as condições para operar.
Recentemente, depois de mais uma denúncia realizada contra a Celeste, por ter quatro, e não três idosos, como deveria, o que configura uma casa de acolhimento, e dela ter tentado obter cópias dos autos das averiguações num processo de contra-ordenação que lhe foi aberto, junto dos serviços sociais em Leiria, pretensão nunca concedida, dirigiu-se aos serviços centrais da Segurança Social, em Coimbra, onde alguém competente acedeu ao direito fundamental de saber de que era acusada. E forneceu-lhe um documento com 16 páginas, algumas destas com elevado nível literário.

Eis algumas pérolas:
“Sobre as informações apuradas no âmbito da acção inspectiva recaiu a suspeita de que a proprietária do Lar não permanecesse durante a noite naquelas instalações, pelo que foi proposto junto do superior hierárquico desencadear outras diligências, nomeadamente, uma deslocação ao Centro de Saúde ________________ a fim de contactar com a Enfermeira que presta serviço no Lar e, eventualmente, um contacto com vizinhos da proprietária.”

Desconhecia que os vizinhos podiam ser consultados, isto à boa maneira da ‘Stasi’ (polícia da ex-República Democrática Alemã), que mantinha 100,000 polícias em funcionamento, apoiados pelo trabalho de 200,000 informadores. Há procedimentos que, definitivamente, nunca mudam.
“Relativamente ao período da noite, não se pode afirmar que aquela fique ou não com os idosos, contudo, confirmou que __________ reside junto com os mesmos.”

Este foi o comentário do vizinho que vive em frente. Esclarecedor, ou talvez não.
“Os espaços encontravam-se limpos e sem odores desagradáveis.”

Confirma.
“Os idosos apresentavam um aspecto limpo e cuidado.”

Confirma.
“Em face dos esclarecimentos prestados resultantes das diligências efectuadas, presume-se que ___________________ resida de facto na __________________________. Neste  contexto, e sem deixar de se colocar alguma estranheza no assunto, admite-se que a proprietária ocupe a cama articulada que a própria referiu ser a sua, ou, eventualmente, possa utilizar a zona privada (da casa). Assim sendo, a vigilância nocturna será assegurada pela própria, contudo, é um dado não definitivamente confirmado.”

‘Alguma estranheza no assunto’?! Desde quando alguém estranha um facto que lhe é apresentado como tal? Se havia dúvidas, porque não cumprir o preceito fiscalizador à boa maneira da ‘Stasi’, e fazer uma vigilância? Ou instalar um conjunto de microfones de altíssima tecnologia? Ou realizar um interrogatório longo?

Há também excertos que me escuso de citar, sobre a circunstância, da Celeste apresentar-se sempre com ‘adornos femininos, com uma imagem cuidada, com maquilhagem’, como é referido, insinuando-se que os objectos que lhe permitem manter essa imagem, deveriam estar à vista, no quarto que disse ocupar. Não estando, embora a conclusão não possa ser aferida, isso é indicação suficiente para que seja escrita uma frase, a suspeitar da afirmação da proprietária. A insinuação vai mais longe, e pressupõe que, por usar adornos, então é improvável que cuide de idosos, porque para alguém cuidar bem de idosos tem de ser uma badocha com o pior aspecto possível, aí sim, temos credibilidade.
O que me surpreende no relatório produzido pelas técnicas da Segurança Social que fiscalizaram o local, de que decorre o levantamento de um auto de contra-ordenação , e posterior aplicação de coima, que vai orçar uns módicos €5,000, aproximadamente, é ter sido originado por uma carta anónima. Um pedaço de papel é suficiente para fazer deslocar duas pessoas. Para além disso, o mau português, a capacidade para retirar conclusões, que depois são sabotadas pelo próprio relatório, por não poderem ser confirmadas, usarem-se ‘os vizinhos’, ou seja, depoimentos de pessoas, que até podem estar de má-fé, para produzir um texto, para produzir uma opinião, e tirar uma conclusão. Espantam-me também as considerações sobre a aparência da pessoa, e o que decorre daí.

Argumentação jurídica, que é o que justifica a aplicação da Lei, não é isto.
Obviamente, a fiscalização deve exercer-se, porque abunda o descaso e a malvadez. No entanto, num caso que decorre em tantos momentos diferentes, em que as suspeições são frequentes e retomadas sempre que o ambiente parece acalmar, que é conhecido pela Administração, parece do domínio do puro mau gosto, primeiro, produzir um texto com 16 páginas; segundo, elaborar considerações baseadas em factos não completamente apurados, e com considerações morais; terceiro, aplicar uma coima dum valor que pode, pura e simplesmente, representar o fecho do negócio. A Celeste agradece o tratamento adequado deste assunto. Eu, por acaso, também.