Dois bolos de domingo














Há dias em que a cozinha é uma espécie de escape do repouso. De divertimento puro e simples que, por exigir uma concentração extrema para que resulte, descomprime – embora, em certos momentos, o stress produzido durante a feitura, apenas desapareça mesmo no final, quando se percebe que a empreitada vai correr bem, e que se superou a linha divisória, e muito ténue, entre um resultado aceitável, ou a desgraça absoluta.




















Andava há semanas com a receita do Bolo Margarida marcada para a reproduzir aqui. O próprio livro onde a receita vem escrita, “Tesouro das Cozinheiras”, de Miréne, editado em outros tempos pela Porto Editora, livro que teve uma reimpressão em 2009, já tinha sido retirado, e devolvido à prateleira da biblioteca, várias vezes.


















Um domingo destes, porém, nada de rogos, e além do “Tesouro das Cozinheiras”, retirei também da secção gastronomia, o “Doçaria Conventual Portuguesa, do Chefe Silva, Texto Editores, e abri na página correspondente ao Pão-de-Ló de Alfeizerão, que é de um nível de dificuldade elevado, consome quase tantos ovos como um pudim, com o detalhe de se ter de controlar o forno, senão fica demasiado e seco no centro. Estava com saudades daquela zona. Duas delícias então, duas abordagens distintas à doçaria, uma conventual, a outra nem por isso, mas com pergaminhos, no entanto, qualquer uma com poder de impacto, quer pelo tamanho, quer pela dificuldade de execução.

















Essa vontade, conjugada com o facto simples de termos alguns ovos caseiros vindos directamente do Alentejo, alguns deles de gema dupla (observe-se a diferença de tamanho na foto) , criaram o ambiente apropriado para ir à cozinha fabricar dois bolos ao mesmo tempo, esperando que tudo decorresse com evidente bom gosto, ou seja, que terminasse com a qualidade exigível que um domingo de remanso e repasto exige, isto para quem quer usufruir das vantagens do silêncio com várias fatias de bolo no prato, enquanto bebe um chá gelado home made - pois estava calor. 



















Bem dito, bem feito. Nove ovos completos, dez gemas depois (entre outros ingredientes supimpas) e duas horas e pouco mais tarde, estava tudo pronto. Definitivamente capaz de ser deglutido por uma legião de adeptos de sobremesas, bolos e afins. Felizmente, as doses foram divididas por apenas três almas. Glup!


















BOLO MARGARIDA
5 Ovos
O mesmo peso em açúcar
½ do peso dos ovos em farinha
½ colher (das de sopa) de manteiga
2 gemas
2 colheres (das de sopa) de açúcar
Amêndoas torradas e picadinhas (cerca de 200 g)

Batem-se as gemas com o açúcar, incorporam-se-lhes as claras em neve e no fim a farinha. Leva-se a cozer ao forno em forma untada com manteiga.
Depois de frio, barra-se com um creme feito com as duas gemas, a manteiga e as segunda porção de açúcar e que se leva ao lume a ferver.
No fim, polvilha-se com as amêndoas torradas e picadinhas.


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PÃO-DE-LÓ DE ALFEIZERÃO

4 ovos
8 gemas
250 g de açúcar
125 g de farinha
1 colher (de chá) de aguardente
Raspa de ¼ de limão
Manteiga para untar

Bater as gemas, os ovos e o açúcar, com a raspa de limão e a colher de chá de aguardente, até obter um creme fofo e volumoso. Juntar suavemente a farinha sem bater muito. Untar uma forma com manteiga. Levar ao forno a 160 C, durante cerca de 15 a 20 minutos.
Deve ser desenformado cuidadosamente para não abrir.

Nota: para o Pão-de-ló de Alfeizerão há uma formas feitas propositadamente. Também o pode fazer em forma redonda lisa (foi o caso), forrada com papel (vegetal).