Prova de Brancos 2012. Parte I. Quatro à mistura





















Este texto ainda não faz parte dum guia de vinhos. Mas já estivemos mais longe do “Viagens no meu Sofá – Guia e Sugestões de Vinhos – 2012”. Por ora, vale a pena referir que a atenção dada aos vinhos brancos de 2010, desde que entraram no mercado a meio deste ano, alguns mais cedo, é merecedora de referência. No caso da prova de hoje, quatro à disputa de um lugar relevante. Esta é a primeira parte. Daqui a dias, mais quatro vinhos brancos, com carácter distinto, e de anos diferentes, entre 2010 e 2011, alguns reserva.

Para já, um Douro. Quinta das Apegadas Premium 2010. Dois alentejanos. Quatro Caminhos 2010. Herdade dos Grous 2010. Um Dão. Quinta da Fata 2010 (Encruzado). A prova foi realizada em ambiente seco, sala grande aberta ao exterior, com temperatura ambiente nos 23 C, os vinhos abertos pouco antes de colocados em cima da mesa, anteriormente refrescados à temperatura de menos de 10 C. Período de tempo decorrido entre a saída do frigorífico e a prova: cerca de 10 minutos, até a temperatura atingir os 12 C ideais.

Quinta das Apegadas Premium 2010
É um vinho especial, porque diferente, e percebe-se que é Douro. Doce, uma linha fina definida, baseada na cor amarela, e bem esverdeado, fluido o suficiente para poder ser entendido como um branco ‘encorpado’, sem excessos de álcool, vulcânico, com alguma mineralidade e aromas cumulativos. Quatro castas a determinar o sabor e rigor: Gouveio, Viozinho, Rabigato e Malvasia Fina. Uma grande combinação.

Um início adocicado, muito agradável, com grande fulgor e intensidade, algumas flores no néctar que detém aquele corpo da madeira e de estágio atempado. O que o não contamina com conotações excessivas, quer de um, quer de outro carácter. Fresco e quente, redondo e intenso. A profundidade do seu teor está relacionada com a exclusividade da região. Os vinhos do Douro, pelo menos os brancos, costumam ser mais amargos, este tem amargor em quantidade inferior, nada de mal. O final de boca é muito longo, o que revela adequação e maturidade, num vinho com bastante harmonia e que pode esperar mais um ano para ser bebido, embora tenha tudo para poder ser consumido agora.

Nota na prova: “Vulcânico, mais ‘quente’ que o Quatro Caminhos (ver prova a seguir), amargo, curto/curto no início, mais palha. Um vinho fácil, doce e amargo, a reflectir o Douro, com alguma mineralidade.” (200 pontos).
 











Quatro Caminhos 2010 – Herdade do Monte da Ribeira

No copo, logo depois da abertura, denota ser viscoso, uma película densa num branco bem amarelado, palha, quase torrado, com uma consistência e fluidez bem marcadas. No âmbito do vinho anterior, é também agradável no nariz, intenso nos valores dos aromas de madeira que emanam da fruta madura, madura, que o palato confirmará.

Pastoso no escorrimento, meloso, com a untuosidade conferida pelas Arinto e Antão Vaz, coragem na escolha das castas, e frutos dessa opção que desconfigura a maior parte das abordagens para lá do Tejo. Obviamente, isto cria uma ruptura com a maior parte dos brancos da região onde a planície se espraia. O doce, no nível em que é deglutido, é diferente do doce presente no vinho anterior. É mais seco e fresco. Acidulado a ponto de influenciar a estrutura, redonda, e a intensidade, plena no sentido da profundidade e da persistência, com um final de boca muito, muito longo, que revela harmonia e equilíbrio. É maduro, com a presença, é verdade que efémera, mas bastante crua, do álcool.

Nota na prova: “Floral, começo intenso e açúcar alto – muita palha, muito álcool, final muito prolongado. Bastante intensidade vegetal. Um vinho ‘pesado’, como um tinto, com madeira.” (170 pontos)












Herdade dos Grous 2010

De todos, é um dos que tem a cor mais bonita. Um amarelo dourado cristalino, límpido, com grande consistência e carácter, que o trio de castas, Arinto, Roupeiro e Antão Vaz, lapidam. Viscoso no resíduo, agradável nos aromas (também florais), com uma boa intensidade de maturação e apropriação, com notas vegetais a espargos bem delineadas. É mais ligeiro que o anterior, com idêntico factor de açúcar, mel a transbordar, mas mais fresco, com intensidade plenamente desenvolvida.

Daí que o final de boca curto, o revele pronto para ser tomado, a estrutura completamente equilibrada entre álcool e doce, o mantenha esperto numa harmonia que convém provar agora, embora julgue que o ‘estágio’ em garrafa, acelere estas propriedades, tornando-o ainda mais meloso, isto porque na prova a nota de álcool varia entre a presença ligeira e a marcação quente, forte. Digamos que é menos harmonioso que o anterior, embora mais parecido com outras sugestões de outras casas da região. Um vinho com Alentejo no coração (a frase é vendável e aceito royaltis), e isto no que diz respeito aos factores de consideração da sua estrutura. Boa variação tonal.

Nota na prova: “Bastante doce, menos intenso do que os anteriores. Vegetal, mais espargos. Um vinho ‘normal’, q. b., titpicamente do Alentejo, com aromas bem marcados, consistência vegetal e mineral, sem o impacto do Dão.” (182 pontos)












Quinta da Fata 2010 - Encruzado

É muito fácil escrever sobre o vinho que apresentou a cor mais branca, quase indelével. A fluidez límpida denota aromas muito agradáveis no primeiro trago ao nível do nariz, com boa intensidade a ervas e especiarias – o manjericão, os coentros, com um nível ligeiro de açúcar que se difunde nas restantes notas, sem se notar.

Boa acidez, intensidade mediana e muita harmonia, num final de boca que persiste, prontidão para a prova, e é tão bom compreender como um monocasta faz jus a outros vinhos com mais do que uma casta, e com uma variação, frescura e harmonias que fazem desta escolha uma razão válida para aprender o que é realizar um vinho de considerável valor. Claro que há gostos, discutíveis, só que esta proposta combina várias considerações sobre uma região específica, o Dão, na sua representação completa, e que faz bem quando fresco num dia pleno de Verão.

Nota na prova: “Bastante vegetal, frutado, com início longo e final longo. Um vinho equilibrado, muito mineral, monocasta, ao nível de qualquer dos outros, até melhor, por vezes, pela frescura. Suave. Pedra. Xisto.” (184 pontos)













Conclusão: é difícil escolher o melhor vinho branco. Se formos pelas notas (pouco habituais por aqui), que evito mas necessárias a partir de três escolhas numa análise em simultâneo, ganha o Apegadas, com o Quinta da Fata a ficar logo a seguir, pela qualidade dos aromas (menos diversos do que no Apegadas), intensidade da cor e do sabor (menor no vinho do Dão) e, no geral, a harmonia, que configura notação ligeiramente mais baixa. No caso da disputa entre Douro e Dão, são vinhos praticamente equivalentes, e neste sentido entramos no domínio da preferência pessoal.
No caso dos alentejanos, o Quatro Caminhos é bastante mais volátil, o que deriva do elevado nível de álcool. Ao final de três dias aberto, o Grous está intragável, coisa que não sucede com o Quatro Caminhos, que mantém algumas características. O comportamento de ambos na prova liga-os, pela sua natureza instrínseca, à região de onde são provenientes. Em termos gerais, e para vinhos com tão grande relevância, sem características de 'reserva', é importante compreender o que cada um vale, sugestão que favorece uma prova ampla.

Nota final: publico as fichas de prova apenas como referência, e porque ‘o momento de degustação' é importante para aferir certos detalhes, com o respectivo frenesim, o que em número de quatro, 'pesa' na averiguação, e obriga a concentração extra.