Uma surpresa em tons de pérola


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Poucos vinhos podem ser degustados com a sensação específica que este desperta. Equilíbrio, variação de sabores regular, começo simpático, com notas bem marcadas de enxofre, e final curto, de ordem cítrica, quando a pedra dá lugar ao amargor de uma uva com a amplitude dum Sol recebido no momento certo.
O caso deste Douro de €2,70, uma “Pérola” de 2009, tem muito que se lhe diga. A cor é quase neutra, no seu esbranquiçado que denota rigor no trato, boa película, cristalino e límpido, tal como nos aromas iniciais, com alguma tendência para a laranja amarga, com um toque de limão que centrifuga toda a amálgama.

Aos poucos, o teor do líquido entranha-se facilmente, o álcool imperceptível (12%) faz sobressair as notas vegetais, o nariz contido, o sabor elementar que se destaca, item a item, numa mistura rica, em alguns momentos exuberante, e tão regular e agradável, que faz uma pessoa habituar-se no palato aos limões acabados de colher, à terra, à pedra, sem que seja rústico, mas elegante.

Como é óbvio, a complexidade dum reserva tem, estranhamento, lugar aqui, embora nem seja isso que se pretende. No entanto, e tendo em mente as muitas hipóteses disponíveis nas prateleiras dos supermercados, esta escolha da adega regional duriense é tão boa, ou melhor, do que muitos vinhos dados como certezas absolutas, que em muitas situações, desiludem. Ou seja, preço e qualidade, sem sombra de dúvidas, numa relação muito adequada, ao nível de reservas brancos mais dispendiosos.
A amplitude de sabores e odores deste branco a cheirar a Verão seco, é vasta o suficiente para que possa ser considerado um vinho tranquilo que, depois de aberto, suporta lindamente um dia de frigorífico, e que acompanha na perfeição qualquer bacalhau com batatas assados no forno, ou peixes como um pregado no forno (com pimentos, tomate, cebolas e azeite), guarnecido com arroz de alho (receita Miguel Sousa Tavares – vide livro do autor). É o vinho da semana.