A retórica da crise para plebeus

 
Marc Roche, correspondente financeiro do jornal Le Monde, é o autor. Para quem pretender ver explicado com escrupuloso rigor, a relação do Goldman Sachs, um banco de investimento sedeado em Nova Iorque, com a gravidade da crise financeira, basta parar nestas páginas. O Banco foi, com outros bancos de investimento, bancos de depósitos, fundos, e demais entidades, um dos principais, senão o principal, interlocutor para compra, aposta contra, e recolha de chorudas margens de lucro de produtos financeiros baseados no conceito da dívida. Pode dizer-se que os produtos financeiros já existiam. É verdade, no entanto, nenhuma outra instituição foi tão beneficiada, e recebeu tantas quantidades de dinheiro provenientes das indemnizações compensatórias pagas pelos estados, quando injectaram dinheiro no sistema (vide “Inside Job”, filmografia). É também o que diz o livro.
 
Resumindo. No início dos anos noventa, os “derivados” eram o novo Olimpo, um produto financeiro baseado na especulação, que podia incluir toda a espécie de aposta – que é o que os mercados financeiros são: ‘casas de jogo’ para o efeito de ganhar e perder dinheiro (muito). O local, já se percebeu, era Wall Street, o sítio, the spot, em bom inglês, onde começou a maior de todas as ‘crises financeiras’. A base. Voltemos atrás. À existência de algoritmos, e da capacidade de vertê-los para programas que outros podem usar. Foi assim que se construíram mecanismos mais concretos para realizar operações financeiras espúrias, que dão dinheiro a ganhar aos intermediários: traders de bancos de investimentos, de depósitos, seguradoras, traders tout court. Foi o que aconteceu. Os derivados são um produto financeiro que assenta a sua base de significância na possibilidade, e o que é uma possibilidade senão apenas uma dúvida? A partir do momento em que um dos ‘iluminati’ entendeu que a dívida podia ser um produto financeiro, então, o caminho da desgraça ficou definido. Não é a dívida dos países, não, a dívida como conceito (a dívida dos países é outra coisa, sobretudo, porque os países podem emitir dívida, isto é, aceitar empréstimos a longos prazo por parte de particulares e empresas). A cadeia que alimentou a crise, apropriadamente denominada: “ Securitization Food Chain”, teve no Goldman Sachs um dos seus principais intervenientes. Nem sempre pelas melhores razões.
 
A narrativa é, por vezes, complexa, sim, e de teor muito especializado, porque o mundo financeiro é igualmente complexo, específico, e transversal, pois toca a todos. O nível do texto e o detalhe combinam análise dos pressupostos da dívida, dos interlocutores, responsabilidades, competências para se adquirir uma posição no seio do Banco, para subir na hierarquia, e capacidade de integração dos pares no seio da Presidência, ou das direcções, forma de recrutamento, vantagens do modus operandi, depois confirmadas com situações reais, dos movimentos de alguns ‘actores’ que transitaram de posição remuneratória e hierárquica entre o Banco, instituições financeiras privadas (bancos, fundos de investimento, etc.) e os serviços dos estados. Conclui-se: total opacidade nessa espécie de variação de emblema entre uns e outros. Veja-se parte da sequência, quando o tema-base são os empréstimos contraídos por sicrano, e o mercado financeiro associado que os negociou, ali enunciada.
 
Fulano (banco) empresta a sicrano (o comum mortal), sicrano fica com a dívida e paga-a como acordado. Fulano pega na hipótese de pagamento dessa mesma dívida (que é um empréstimo), e vende-a a beltrano, bancos de investimento, sedentos por contrair mais empréstimos (com outros bancos) para aumentar o capital, e os lucros, muito acima do nível recomendado (leverage: a diferença entre o dinheiro pedido por empréstimo por um banco, a outras entidades, e o dinheiro propriamente dito que o banco possui: os depósitos). Esses bancos de investimento, por sua vez, juntam esses empréstimos realizados a pessoas, as dívidas de empréstimos automóveis, as dívidas de cartões de crédito, e transformam-nos em produtos financeiros derivados, muito complexos, chamados Colateralized Debt Obligations, Obrigações colaterais de Dívida (CDO). Por serem produtos financeiros, os CDO’s podem ser vendidos a terceiros, investidores, uma entidade incógnita, em todo o mundo. As agências de rating têm aqui um papel fundamental: regulam o valor dos CDO’s, a sua credibilidade, relacionada com a garantia do pagamento. Foi por essa razão que investidores, proprietários e participantes em fundos de investimento, com especial incidência para fundos de reformas, passaram a considerar os CDO’s bons produtos em que investir – um fundo é uma quantia de dinheiro proveniente de descontos realizados por pessoas, fundos próprios (fortunas, heranças, etc.), que no seu montante cumulativo podem ser usados, e transaccionados, por bancos, geridos por equipas designadas para o efeito. A retórica é apontada em diversos momentos, embora sem mencionar a sequência toda, o que pode confundir. A retórica continua.
 
Os CDO’s, ou seja, a dívida (todos os créditos), tem de ser segurada (literalmente). Esses seguros da dívida também são um produto financeiro transaccionável. Chamam-se Credit Default Swaps (CDS). A AIG, seguradora de renome antes de ser nacionalizada pelo estado norte-americano, vendeu esse tipo de produto (prémios de seguro) a investidores. O investidor pagou à AIG um valor pelo prémio de seguro dos CDO’s, da dívida, adquirindo esses CDS’s. Se correr bem, isto é, se sicrano pagar, o lucro para o intermediário é garantido. Se sicrano não pagar, idem. Porque a AIG, e esta é uma das razões porque faliu, deixando de ter fundos próprios como empresa, garantiu que devolveria sempre o dinheiro gasto pelo investidor no CDS’s, mesmo que sicrano não pagasse. E sicrano não pagou. Por outro lado, a AIG aceitou que os traders de bancos de investimento, os intermediários e especuladores, também puderam apostar contra o não-cumprimento dos empréstimos seguros pela própria AIG (CDO’s), comprando CDS’s por sua conta e risco.
 
Complexo, certo, e o livro vai referindo estas denominações, umas vezes explicando o papel do Banco nestas transacções de milhares de milhões de euros e dólares, outras nem por isso. Percebe-se que se trata de muita coisa. Em todo o caso, o livro é menos técnico do que poderia ser, e isso ajuda a perceber a dimensão da tragédia quando o crédito hipotecado é usado como moeda de troca para realizar operações financeiras com futuros (derivados). A este nível, e forçando a explicação, pouco importa se sicrano paga o empréstimo realizado inicialmente. Quem vende CDO’s e CDS’s aumenta a sua margem de lucro nessa transacção (de 30,000,000,000 para 600,000,000,000 de dólares, entre 2001 e 2007). Identificam-se as práticas do Banco nesse pormenor importante. Sobre a questão das razões da crise, as conclusões são explícitas. Há descrições de momentos fulcrais, que originaram a queda de parceiros – como a falência do Lehman Brothers –, e interesses ocultos, quando os interlocutores (quem decide) se reúnem, combinam e demarcam estratégias que influenciam o quotidiano. O interesse do autor é tornar bem claro quem ganhou, quem perdeu, o que se mantém, e como o Banco continua a realizar a sua intervenção na sociedade, talvez com menos poder, embora com igual impacto, descrevendo a relevância da qualidade desse impacto, consequências e patamares ultrapassados (morais, judiciais, técnicos), a ultrapassar, numa espécie de revisão da matéria dada. Identificação, concepção, concretização, quando o que o importante é aumentar as margens, mantê-las, ou simplesmente estendê-las para que fiquem reféns de estratégias comerciais e outras.
 
Ou seja, ao mesmo tempo que o sistema criava bónus astronómicos (dinheiro artificial, para os intermediários, e se falou no atravessamento de um momento de prosperidade histórica da humanidade, a relação entre os CDO’s, a dívida, os seus seguros, os CDS’s, e sicrano, tornou-se insustentável. O Sachs livrou-se a tempo do problema, libertando os activos tóxicos na sua mão – mesmo se para os clientes a regra foi, ligeiramente, diferente. Num determinado momento, a liquidez esfumou-se, isto é, o sistema deixou de criar dinheiro suficiente (porque este desaparecia à medida da sua criação), a oferta imobiliária excedeu as expectativas, facto que coincidiu com o incumprimento dos devedores, sicrano, e de repente passou a haver casas a mais, as empresas deixaram de ter crédito, porque o dinheiro físico começou a diminuir nos seus balancetes – seja por falta de pagamento de contratos de outras empresas a estas, por dívidas acumuladas, pela falta de crédito para fundos de maneio –, as responsabilidades desse crédito começaram a ser pedidas, o dinheiro ainda no sistema passou a existir para pagá-las, as empresas começaram a falir por insolvência (falta de liquidez), o desemprego aumentou, a possibilidade de sicrano pagar diminuiu até estancar na impossibilidade, desaparecendo. A cadeia partiu. O Banco fez o seu papel, e a mais não foi obrigado.
 
O livro ensina como se constrói uma narrativa sólida que assente em bases frágeis. Porque há coisas que não se podem dizer. Formal e informalmente. Que se priorizou resgatar instituições, inventando uma retórica de austeridade baseada no receio da falência do sistema, que é o medo de intermediários e interlocutores específicos falirem. Que os bancos nacionais e centrais perderam milhões, com aplicações financeiras de risco, prejuízo que depois acumulou com os montantes usados para capitalizar e resgatar instituições financeiras. Que uma boa parte dos ‘actores’ em posições privilegiadas, foram beneficiados, quer por saber com antecedência (mesmos se de horas) da crise, quer por serem os primeiros a receber indemnizações compensatórias de prejuízos por si produzidos, quer por indicarem quem o deveria ser. Que a riqueza – conhecimento e bens monetários, no valor da moeda –, foi vendida a quem construiu a crise, beneficiou dela, e fechou a porta (saindo, portanto), antes da corda partir, com margens de lucro intactas. Que se contraíram empréstimos obrigacionistas para tapar os buracos abertos nos bancos centrais, baseados nos mesmos pressupostos de dívida especulativa, que levaram à crise financeira, porque havia apostas na impossibilidade de se cumprirem o pagamento dessas dívidas correntes, contraídas para salvar instituições e (alguns) investidores – da bancarrota. Que esse dinheiro de garantia, do crédito autorizado e cedido, passou a ser usado no dia-a-dia, para além da dívida emitida por quem de direito. Que esse dinheiro já não existe, e que por esse motivo os serviços são vendidos e privatizados, vendidos novamente com margens de lucro assombrosas, cobrando-se depois pela sua utilização individual os valores que irão acrescer a essas margens. Isto é alta finança.

Isto não se explica às pessoas. É disto que este livro trata. É por isso que vale a pena lê-lo.
 
Título: O Banco – como Goldman Sachs dirige o mundo
Autor: Marc Roche
Editora: A Esfera dos Livros
Tradução: Maria do Rosário Quintela
Preço: €18
Classificação: 5 estrelas

Prós: Detalhe e rigor da análise; conteúdos e demonstração; tonalidade, reflexão sem cinismos

Contras: Algumas gralhas (poucas)

(Bibliografia: "Inside Job - A verdade da crise", 2010, por Charles Fergunson)