Sem reservas


 
Uma rolha de carne e enchidos, a exibir tranquilidade. Passados alguns minutos, chouriço e cabedal, couro, em modo muito suave. É isto que este tinto enuncia, tinto que aparece pouco, de uma quinta que foi constituída porque um dos proprietários decidiu de um dia para o outro que seria produtor de vinho (isto em 1998).
 
A história revela sensatez. Duas castas em paralelo, Touriga Nacional e Tinta Roriz, numa escolha do Dão (Monte Aljão Reserva 2004) que, aos dez minutos, revela azeitona em força, com um toque acentuado e profundo, da madeira. Faz mesmo lembrar olivais em poda, azeitonas no chão, azeite vertido para uma malga, com um odor limpo e puro. De quem quer ficar embebido em pão cozido há pouco tempo. Isto tudo dentro da garrafa.

Depois de respirar um par de horas, o nariz é mais intenso, com a fruta a demarcar-se, amoras maduras, os enchidos a confirmarem, a madeira, e um vigor acentuado de pedra e terra. Uma cor carregada, corpo complexo, a cor com um brilho cristalino e a mineralidade da região a provar eficácia.
A seguir, primeira prova, com um ligeiro ‘pico’ inicial, vigor q. b., uma reduzida adstringência final. Ao segundo trago, início curto, final prolongado, a ficar na boca o resíduo, uma sensação de alguma coisa que se perpetua no tempo.

À meia-hora, surge inesperada a pimenta, numa variação que é contínua, regular, ao longo do período de prova. Depois o doce, o teor encorpado, a articulação sensível entre os diferentes parâmetros, o que revela versatilidade. Nada de álcool, nada, nem uma pinga que acentuasse essa característica. Alcoólico, sim, mas sem que se veja.
Num Reserva de 2004, fica-se curioso. Como será o dia seguinte? Mais azeitona, mais fruta, a crueza da mineralidade, embora menos intenso nesse nível, igualmente cristalino, uma suavidade que permanece. Tudo no nariz. Na boca, mais adstringente de início, a revelar grande ‘vida’, notas fortes de azeite e pimenta, esta num plano mais secundário, e a desaparecer num final mais curto. Continua agradável e viçoso.

A cor mantém propriedades, confirma a complexidade, mastigável, em essência, com um acrescento que perdura, o fumo. Cheiro a adega e fumo, outras propriedades que remanescem neste segundo dia de prova.
No geral, um vinho complexo, versátil, que mudará diversas vezes ao longo da degustação, apropriado a diferentes pratos, apesar de muito singelo com carne de vaca e peixe gordo (como garoupa). Não é um vinho fácil, precisa de espaço para crescer, para manifestar-se, precisa de tempo depois de aberto. A fruta nunca é o seu maior trunfo, mas o azeite, e uma certa complementaridade entre estas duas características, e o teor mineral, por ser um Dão.

Bastante enquadrado com doces de colher, e com queijos, se a refeição completa, a revelar o tal equilíbrio que permite realizar desta escolha um juízo apropriado. Nuances várias, extremamente agradável, para verdadeiros apreciadores, e para colocar os neurónios no local da verdadeira apreciação. É o vinho da semana.