A pele de uma cidade
























Londres é um monumento a céu aberto. Ali confluem todo o tipo de espaços, grandes jardins, uma configuração em malha urbana com cantos e recantos que denunciam uma vida rica, e uma luminosidade e efervescência que as pessoas que lá habitam consolidam, com a sua criatividade e esforço.

Para além do nevoeiro, que é um lugar-comum pouco adequado, o que este livro em espécie de relato narrativo compreende, é um propósito: apresentar uma cidade ao público, pelo lado de quem lá viveu alguns anos, sem nunca esquecer aquela dimensão interior, que uma cidade daquele teor consegue reproduzir.

Isto partindo do princípio de que esse início de vida nem sequer foi concebido. Foi uma decisão tomada pelo repórter, Enric González, um espanhol que decidiu, com a mulher, rumar ali sem saber muito bem como sobreviver. O jornal para onde trabalhava, afinal, ajudou a compor o ramalhete.

Voltemos à cidade.

As ruas, os becos, sobretudo, o modo como a luz entra, ou deixa de entrar, e os pequenos detalhes. A possibilidade de ter vizinhos simpáticos (uma raridade), a maneira excêntrica de deslocação por todo o lado em autocarros que são um must, em vermelho vivo, os museus, a cidade dos museus, onde cabem todos os clichés, e onde é possível fazer um tour por uma quantidade assinalável de culturas num espaço de tempo bastante curto. Isto é Londres, uma ínfima parte, com que Enric delira. É o termo.

O British Museum, com os seus sete (sete) pisos, e obras de arte, o Museu de História Natural. O livro, pelo autor, um jornalista não assim tão profícuo, é elementar no estrito senso de nos apresentar o local enxuto, sem tremores de excessos relativos com linguajar e efeitos, é a cidade, os seus hábitos, o que ele gosta e detesta, e pouco mais que é bastante para se estender por um bom número de páginas, a combinar paralelismos entre assuntos e divagações, conciliando a sua euforia em poder viver num lugar tão aprazível – nas palavras do autor.

O relato, a linguagem, numa tradução de excelente qualidade, é bem equilibrado, com os seus diálogos internos, e por vezes, descrições literais, de cenas reais com que vai convivendo. Muito vivo, com extremo cuidado, e contenção, sem que se fique com a sensação de estar farto daquilo, com o gosto de estarmos a deslocar-nos pelas ruas, de maneira a chegar a algum local, a alguma conclusão.

E, na realidade, movemo-nos, conhecemos o sítio onde o jornalista trabalha, os seus encontros com profissionais do sector, a maneira como desenvolve o seu percurso por sítios que o apaixonam, de que já não consegue despegar-se, continua a correr um guia que cria para si mesmo, um guia que é interiorizado e concebido com um teor gráfico e interactivo.

O título enuncia essa vivência, tal como outras que Enric González vai realizando, a enveredar pelos meandros de uma proporcionalidade única, ao seu gosto, por um lado pelo que é antigo, pelo que é novo, pelo que é simplesmente redundante, mas a conhecer pessoas e a deslumbrar-se com as rotinas que se adquirem a cada novo começo, com cada nova cidade a que chega. No entanto, o que fica patente, é que ninguém lhe retira a ideia de Londres. Mesmo se foi embora para o outro extremo do mundo, para continuar a relatar e a escrever sobre novas ruas, novos meandros, Londres apega-se à pele e fica colada para memória futura.

Há um dia em que vai querer voltar para relembrar-se de tudo novamente. Há um dia em que essas histórias vão poder ser reescritas, embora a tonalidade leve de uma cidade que se sente na pele seja, na íntegra, o seu maior património.

Título: Histórias de Londres
Autor: Enric González
Editora: Tinta da China
Tradução: Carlos Vaz Marques
Preço: €17,90
Classificação: 5 estrelas

Prós: Uma boa história que mistura tantas outras no entremeio; estilo seco, reduzido ao que é essencial e relevante
Contras: Não tem.