Tábua 'rasa'

















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O queijo de cabra é o produto derivado mais parecido com o leite materno. Isso é bom. Os queijos são, em termos gerais, óptimos para a saúde, desde que consumidos com moderação. Se considerado o mesmo peso, o queijo da Ilha contém seis vezes mais gorduras saturadas que um bife do lombo, embora forneça proteínas essenciais como o cálcio, que reduz o risco de osteoporose, e vitamina B12. Se se considerar que também é facilmente absorvido pelo organismo, que ajuda a combater cáries dentárias, pois impede e formação de ácidos que atacam o esmalte dos dentes, temos um alimento que existe em variedades incríveis, e que pode ser perfeitamente conjugados com inúmeras partes de uma refeição.

Há quem os coma ao princípio, como entrada. ‘Especialistas’ apreciam-nos ‘solo’, com vinhos e licores. Indefectíveis da pasta branca (Brie), das manchas de bolor (Ilha, Danish Blue, Roquefort) da fatia de um centímetro de espessura (Serra), empreendem degustação no final do repasto, quando a tábua de queijos vem como uma espécie de aglomerado de ‘sobremesas’, dificultar a escolha das sobremesas doces seguintes.
Confesso-me apreciador de queijos, em qualquer momento e circunstância. Recordo idas a casa de amigos em que no final de cada refeição o Serra da Estrela vinha, qual elemento imprescindível, por abrir, para a mesa, com pedaços generosos de marmelada.

Nos dias de hoje, o queijo mantém as mesmas propriedades, embora seja cada vez mais difícil de adquirir. Ou se opta pela ida directa ao produtor, evitando os malefícios do preço elevado, combinado por intermediários gananciosos e retalhistas sem escrúpulos, ou se vai à praça, onde os preços ainda são em conta. Passar pela prateleira dos super e hipermercados, na direcção da padaria, ajuda à síncope.

Grandes e médias superfícies vendem um produto português típico, regional, a preços que os produtores devem estranhar, porque as suas margens de lucro são minúsculas. A par disso, os queijos são vendidos, muito bonitos e embalados, quando na verdade a qualidade do produto esfumou-se.

Explique-se, sem incluir os queijos frescos e os requeijões na berlinda. Um queijo inteiro detém todas as propriedades. Foi curado, ou não, e detém-nas porque a sua ‘construção’ advém desse processo único, que inclui bactérias, decomposição controlada, por vezes, um cheio nauseabundo, e um sabor que varia entre o apimentado, o amanteigado, a leite de ovelha, entre outras possibilidades. Todas as grandes e médias superfícies, vendem queijos inteiros, sim senhor, que vêm e vão do frio muito baixo, com uma regularidade que interfere na sua qualidade, pois o queijo vem e vai do frio, não é consumido, e a maior parte destes pedaços são vendidos cortados, com película aderente à volta, depois desse todo esse processo. 

Não é por acaso.  

Poucas pessoas chegam ao limite de comprar um queijo inteiro de 1,5kg, sendo que o preço pode ascender aos vinte euro. Há quem tenha essa quantia para comer por mês. Seria absurdo. Portanto, adaptando-se ao mercado, isto é, ao consumidor, os grandes campões do retalho vendem o produto aos pedaços, para que alguém lhe pegue. Mesmo que isso implique a perda de qualidade. E implica.

Um queijo cortado perde propriedades imediatamente, mesmo se mantido no frio. Feita a análise, quiçá ingénua, é curioso perceber que o preço do quilo do queijo varie tão pouco entre os 15 e 20 euro, o facto que justifica a venda aos bocados.

Ou seja, aquele gosto de ver o queijo inteiro, chegar à mesa, é coisa para poucos, ou para praticamente ninguém. E, no entanto, há pelo menos uma década e meia que nos andam a vender queijo assim. Conclusão:

Nada como ir a uma praça, procurar uma bancada de pão que também tenha queijos. São, muito naturalmente, produtos com qualidade, vendidos a preços bastante mais baixos que nas grandes e médias superfícies, e isso é possível porque o exagero da margem de lucro do intermediário e do próprio retalhista são inexistentes. Estão fora da equação. Para além de tudo o mais que é uma vantagem, o sabor é bastante melhor.

Nada como ir directamente ao produtor, a melhor das opções, que implica custos de deslocação, atenuados se quem produz enviar por correio, ou se a viagem for combinada com um período de férias. Portugal tem muito que se lhe diga neste âmbito, não só no número de praças abertas todos os dias ao público, como no número de produtores.

Um conselho, então, para quem gosta de comer queijo. Pode conservar-se no frio, depois de aberto. Convém retirá-lo dali uma hora antes de consumir, se se vai realizar degustação. Se possível, devem comprar-se queijos inteiros, para poder usufruir do inteiro 'package', isto é, de um produto que mantém todas as suas propriedades, que não sofreu nenhuma alteração motivada pelas sucessivas mudanças de temperatura, e que está protegido pela sua 'pele', casca, 'capa'. Se possível também, é 'ecológico' comprar directamente aos produtores.

Bom proveito.

P.S.: De uma viagem ao distrito de Castelo Branco, e depois de uma investigação rápida por alguns meandros das redondezas, descobrimos a Quinta do Capilé, no Ladoeiro. Queijaria artesanal, de Marco Martins Pereira e esposa, produzem em modo DOP, enviam por correio para casa a pedido e, detalhe, em vácuo (um plástico fechado sobre o produto, sem 'ar'), para manter as propriedades do produto, e evitar qualquer espécie de deterioração.

Quinta do Capilé
Queijaria artesanal de Ovelha – “Queijo de Castelo Branco”
6060-263 Ladoeiro
Tel.: +351 277 927 257
Telemóvel: +351 966 733 594
Email: marco.m.p@sapo.pt