A viragem



















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O vinho tem sido tratado nos últimos anos em Portugal, como se tratou a arquitectura, e se trata também a comida. É uma questão de moda, e a moda tem ditado muita coisa. Os vinhos melhoraram de qualidade na última década, porque se não tivessem evoluído, teria havido uma retracção do mercado, e não um crescimento. E agora, que o vinho entrou casa adentro de uma parte da população, em parte porque há uma nova geração de pessoas a beber vinho, tem-se dito que o mercado nacional não é assim tão bom, como o externo, e que para manter a qualidade é forçoso aumentar o preço de venda ao público.

Isto, em parte, poderá ser verdade. Só que antes de aumentarem o preço de venda ao público, os produtores terão de criar a massa crítica, aquelas pessoas que se interessam pelo tema, que estão dispostas a aprender, a investir nisso, e a continuar a fazê-lo apesar de mudanças. Sem esquecer que, ao contrário do resto da Europa, em Portugal, o dinheiro que essa massa crítica poderia utilizar para acompanhar esse investimento dos produtores, foi-lhes simplesmente alienado. Sendo assim, o discurso que poderia fazer sentido, por um lado, é inconsequente por esbarrar na primordial necessidade que as pessoas terão de comer. Só depois poderão beber alguma coisa.

Os produtores de vinho têm uma mais-valia: eles sabem o que precisam fazer para servir um vinho decente. Têm os meios, a técnica, o conhecimento e as infra-estruturas. Na última década, acompanharam as exigências do mercado, e fizeram crescer o seu espaço de intervenção. Estão mais profissionalizados do que nunca, sem esquecer a tradição e o que é secular – que vem de trás. Os preços estão excelentes. Se formos a uma prateleira de um supermercado escolher, neste momento há muito boas chances de trazermos um bom vinho para casa, mesmo que o façamos às cegas, por causa dessa sabedoria exemplar. É por isso natural que os produtores queiram ganhar mais dinheiro, ter mais margem de manobra. Investiram, querem o retorno. 

Infelizmente, instalou-se uma maneira de fazer as coisas que tem como palavra-chave, a “crise”. Que serve para tudo, desde torpedear as pessoas em geral com uma retórica da miséria, à mais básica terraplanagem da vontade própria. Beber vinho é o oposto disto. 

Os produtores têm outro problema nas mãos: Portugal é um país pequeno com pessoas muito simpáticas e um clima agradável, mas não tem pessoas suficientes a beber vinho para manter aquela massa crítica que depois verte os números em ganhos astronómicos. Portugal é um imenso interior esquecido, com duas grandes cidades, melhor, quatro, se incluirmos Coimbra e Viseu. Lisboa é um sorvedouro de recursos, o Porto tenta fazer pela vida, e as outras duas andam a reboque no mesmo patamar das cidades médias que se querem mais ligadas ao centro, desligadas pelos yuppies engravatados que acham chique ir ao Chiado ver gente bonita, ou dizer que o Porto de Santa Maria, no Guincho, é um restaurante óptimo. 

O que é verdade, e exemplar, é que para além das inconsequentes reflexões tidas no Gambrinus, entre pares, a qualidade do vinho melhorou muito, e a ligação desse universo com a realidade dos factos é boa. Conhecemos os produtores, eles aparecem e dizem o que andam a fazer. A internacionalização é apenas uma evidência disso mesmo. Os produtores perceberam a necessidade de melhorar, houve uma viragem ao nível da comunicação, e isso veio trazer a quem produz um desafio novo que inclui sair da sua zona de conforto. Mostrar o que fazem melhor. Só que isso custa dinheiro.

Como Portugal é um país pequeno, pululam nas redes sociais abordagens idênticas ao mesmo assunto. Há sete anos, quando me comecei a dedicar com empenho aos vinhos, o Dão era uma região desgraçada. Hoje, quem quiser ouvir que o Dão é a melhor coisa do mundo lê o jornal Público. E é-o há muitos anos. Ter sido descoberto agora é um pormenor sem importância. O vinho, como a comida e a arquitectura, produz fenómenos internos que depois conduzem a massa crítica para um determinado lugar, depois para outro. Agora a internacionalização, qualquer diz outra coisa. 

Isso é muito positivo para o mercado, para os produtores, e em última análise, para os consumidores. Contudo, é mais verdade que a exportação é um desafio cujo risco, os produtores decidiram aceitar, e que têm de suportar, do que o mercado interno ter deixado de consumir. Este mercado interno passou a consumir melhor, porque a oferta está melhor direccionada, é mais adequada, e é muito mais vasta. E é verdade que o poder de compra diminuiu, e essa razão tão cruel demoveu também os mais prudentes de arriscarem tanto, e instalou-se nos mais incautos, que poderão um dia ter de desistir do negócio da produção. No entanto, partindo do pressuposto que todos têm direito a querer produzir vinho, e que isso faz parte da vida, se os consumidores decidiram beber melhor, isso é muito bom, e é lá com eles. Não devem ser penalizados se as margens de lucro diminuíram. 

Os produtores que investiram vão receber esse retorno, e isso poderá ser excelente para a viragem. Mais cedo do que imaginam.