O bom de regressar a casa



 

© Ruben P. Ferreira // Vista da piscina, entrada principal e hotel

Depois de atravessar o IP3, passar ao lado do Luso. Depois de ver o Mondego a serpentear ao nosso lado, por vezes escondido, outras em plano aberto, completamente exposto à frente dos olhos, só água. Até que o desvio para Carregal do Sal chega, e viro à direita para rumar directo às Caldas da Felgueira Termas & Spa, muito perto de Nelas. Um passo, dez minutos, meia hora, e chego a casa.

 
 © Ruben P. Ferreira // Bar de apoio à pisicina por baixo da entrada principal

Para trás ficou a possibilidade de virar para a Covilhã. A Serra da Estrela no seu lado mais despido. Para trás ficou também Lisboa, a uma distância segura – não há paciência para tanto turista e tuk-tuk. O napalm no Chiado. Deste lado, parece que o tempo está parado. Aqui o tempo é medido de outra maneira, e depois de um ano fora, essa medida assenta na perfeição. O bom de estar aqui, nas Caldas da Felgueira Termas & Spa  em especial, é que em primeiro lugar temos tempo.
Em segundo, temos mais do que fazer. Gerir o vazio é muito importante porque dá-nos tempo, esse outro, para podermos passar por entre os intervalos do cansaço. Ou seja, é muito importante termos isso na cabeça. Uma agenda para o não tempo, ou o tempo em que não vamos fazer nada. Nicles. Em que vamos apenas ver a nossa agenda gerida pelos outros, e assim os minutos e as horas vão passar com grande qualidade, embora como é óbvio, fosse bom ter mais tempo nosso para poder gastar neste tempo que assim fica. Perceberam?

 
© Ruben P. Ferreira // Prancha de saltos com três metros de altura

O vazio é uma coisa boa

Chego por volta das cinco da tarde, tendo falhado o almoço, o que é um acto de supremo desprezo por uma coisa que é muito boa. Fica sempre o amargo de boca, e mais à frente perceber-se-á porquê. Pois então, num dia de Sol, sem chuva, infelizmente o Verão intenso já foi, e teria sido bom tê-lo apanhado mas não houve tempo. A temperatura amena é satisfatória. Missão por agora: mergulhar na piscina olímpica de água mineral antes do dia acabar, pois vinte e cinco graus é um luxo que apenas o Sul da Europa se pode congratular de ter.
Entretanto, missão número dois: conhecer o quarto, depositar as malas, voltar para confirmar a ementa do jantar, ah, e mergulhar na piscina com coragem suficiente para utilizar a prancha de três metros sem realizar um chapão. A água é sem dúvida um motivo fortíssimo para saltar, com a tonalidade azulada do fundo da piscina. A tarde passou-se assim. À espera da hora do jantar. Depois, subir ao quarto, preparar para o jantar, vestir, e descer. No Hotel das Caldas da Felgueira Termas & Spa é muito comum vestir para jantar. Digamos que ignorei o código, lamento, estive parte do ano a gerir menos dez graus negativos no lombo, no entanto é engraçado ver esse cuidado nas famílias mais ou menos numerosas que se perfilam para apreciar a refeição.

 
© Ruben P. Ferreira // Jantar: solha panada com puré de batata e grelos

Comer na medida certa

Depois de quatro anos de ausência, a comida está melhor. Confeccionada, apresentada, gerida na cozinha. Há um novo chefe de sala. A equipa foi afinada. O resultado final é uma ementa menos homogénea, sem se perder a qualidade dos produtos cada vez mais locais (há uma horta local), com a vantagem da concepção revelar maior criatividade. No campo das sobremesas, de relevo, tenho a tendência para ser como aquela personagem que todos somos nos casamentos. E mais não digo, apenas que a oferta foi igualmente ampliada. Que há certas escolhas que dependem apenas do gosto se escolhidas. E que a selecção de queijos e marmeladas se manteve. Em cinco dias, foram entre nove a dez refeições porque se passou com a certeza absoluta de que comemos bem.
Nada disto faria sentido sem os tratamentos de bem-estar. Embora pudesse ter enveredado pela vertente medicinal, com os aerossóis, as respirações colectivas em ambiente nebuloso (provocado) e toda uma panóplia de tratamentos que são muito adequadas a quem tem asma, e outro tipo de problemas respiratórios. A metodologia seguida: manhã livre, tratamentos durante a tarde.

 
 © Ruben P. Ferreira //Vinho tinto da Vinícola de Nelas, Status 2013

Tratar do espírito pelo lado de fora

O primeiro tratamento de bem- estar que fiz chama-se Ritual Felgy, e é constituído pelo Duche Massagem Felgy e pelo Banho Cleópatra. A associação singular do nome dos tratamentos está relacionada com a qualidade dos óleos, com o tempo que as raparigas no tempo do Rei Davi demoravam a fazer tratamentos semelhantes para estar impecáveis quando apresentadas ao rei, que por sua vez as escolheria. É apropriada, é certo. Escolha difícil, quando à época cada período de tratamento se prolongava durante sete meses. Aqui importa o ponteiro dos minutos. 
No primeiro caso, requer que nos deitemos de cabeça para baixo numa marquesa, por debaixo de um chuveiro de três pontos. A água termal começa a correr e um (a) profissional coloca um creme sobre as costas para iniciar a massagem da ponta dos pés à cabeça. Enquanto a água termal escorre sobre o corpo. A qualidade da massagem depende sempre de quem a faz. Da força impressa, da técnica. A vantagem destas Termas em específico é terem uma equipa médica, terapêutica e de bem-estar, de massagistas, bem treinados.
Depois da massagem, o banho termal Cleópatra numa das três vertentes dinâmicas possíveis. Como era o primeiro dia, fui encaminhado para uma Hidromassagem de bolhas e jactos. Cerca de vinte minutos de absoluta tranquilidade.

 














© Ruben P. Ferreira // Vista da sala de refeições


Hidroginástica e Duche de Jacto

Isto pode parecer padronizado, para quem pensar isso mesmo, há que frisar que a essência de ficar nas termas é a de usufruir das múltiplas maneiras da água poder interferir no corpo. E na mente. Quem aqui vem para passar uns dias dorme melhor durante a estadia, e depois disso – os efeitos perduram na directa proporção do tempo que se fica.
A Hidroginástica. Segundo dia. É apenas para apreciadores. É melhor do que fazer ginásio, preferência pessoal, e tem a vantagem de podermos estar dentro de água termal, o que alivia quando o peso é excessivo, e permite a muito boa gente fazer exercício físico que de outra maneira seria tecnicamente impossível. Além de, como referido, aumentar o tempo que se passa em contacto com a água termal, o que é sempre uma vantagem.
É uma passagem essencial de qualquer plano de tratamentos, que também contêm uma componente física de maior esforço, que complementa o tipo de terapêutica. Aula para até doze pessoas, com exercícios para todos os gostos. De referir que é muito competente, gerida por professores empenhados em fazer-nos suar dentro de água, o que pode parecer um contra-senso, mas estando lá percebe-se que faz sentido e sucede.
Por outro lado, o Duche a jacto, é direccionado para destruir os nós do corpo. De pé, levamos com água nas articulações, pernas, costas, braços e ombros. Vamos rodando até ficarmos derreados com tanta pressão. É muito bem executado e confirma a qualidade dos aquíferos quando, ao segundo dia, o sono ameniza para níveis de 2007, quando havia mais bem-estar e o mundo parecia mais normal.

 
© Ruben P. Ferreira //  Sobremesa. uvas, marmelada, doce de abóbora (confecção local) e queijos

Hidropressoterapia, Hidromassagem, Duche Cachão e Aerobanho

Pense numa banheira de hidromassagem, junte-lhe um dispositivo para fechar a dita, coloque um óleo de ervas na água e espere quinze minutos dentro dela enquanto a água agitada envolve o corpo. Hidropressoterapia. O resultado de um banho que pode escolher-se para “pernas cansadas”, ou “anti-celulite”, e é de relevo. Uma espécie de centrifugação para quem anda muito, ou para quem quer diminuir a textura má da pele.
Um pouco diferente do banho de Hidromassagem, com jactos de água e bolhas, no mesmo âmbito do que é a hidromassagem tout court, que tem no Aerobanho uma vertente exclusivamente “bubble”. O Duche Cachão é parente do Duche a Jacto, mas é mais focado nas costas, e por isso estamos sentados enquanto a água jorra para amaciar as mazelas. São cerca de dez minutos para destruir os ácidos dos músculos, que por esta altura já estão no local adequado.



 
© Ruben P. Ferreira // Uma selecção de sobremesas (torta de laranja, leite creme e pudim de ovos), queijos e fruta

Depois de fazer cada um dos tratamentos descritos, vamos adquirindo poder sobre o cansaço. Há, como já escrevi no passado, um antes e um depois. Ninguém que aqui venha escapa disso. Quem opta por programas de mais de dez dias tem mais tempo para perder a noção desse mesmo tempo, coisa que em quatro/cinco dias é mais difícil de fazer. Nesta estadia os programas foram realizados de manhã, sendo as tardes ocupadas com sestas, deglutição de gelados, sestas, lanches, leituras, sestas, mergulhos de piscina, viagens entre o quarto, a sala de estar, a sala de internet (onde há wi-fi) e o salão de comer. Sestas. Pouco mais.

 
© Ruben P. Ferreira // Outra selecção de queijos, fruta (melão), doce de abóbora e marmelada

Isto tudo complementado com as caminhadas à noite, a sentir o fresco, pouco por agora, as idas a Nelas e arredores, para atestar a adega, as provas de vinhos e queijos organizadas no hotel, e as noites por vezes escolhidas para os hóspedes poderem vestir-se melhor e usufruir do momento, a convite do Director do Hotel. Tudo isso ajuda a descomprimir porque cria um ambiente fora do tempo. Sobretudo se alguém gosta de danças de salão. Para quem gosta do género, para as famílias que aqui rumam que gostam de sentir-se seguras, há muita coisa para não fazer de maneira para que o muito que se faz signifique imenso para o resto do ano. Descanso adequado. Nada mais do que isso, que é tão importante. 

 
© Ruben P. Ferreira // Vista do quarto

Em suma, para mim significou muito voltar cá. Porque aqui fica o centro do Dão, onde me sinto em casa. Aqui o vinho é muito bem feito. Aqui a paisagem é interior e está intocada, ao contrário do litoral, onde foi destruída pela parvoíce indígena. Aqui pode-se pensar. O fulgor das Caldas da Felgueira Termas & Spa continua intacto, e o bom que é deixar aqui o tempo passar horas a fio, sem pensar muito nisso. Aqui, basta e é preciso olhar a paisagem à volta sem pensar no tempo que demora. 

Nota: a nova temporada de tratamentos termais das Caldas da Felgueira Termas & Spa para 2016 já começou. 

© Todas as fotografias apresentadas são da autoria de Ruben P. Ferreira e têm os seus direitos de reprodução reservados. Esta só poderá ser realizada mediante autorização prévia do autor.