Quando se é velho tudo muda


Ao entrar num autocarro, uma senhora idosa fá-lo com especial vagar. Tem medo de cair, as pernas estão protegidas por meias de elástico até aos joelhos, para deslocar-se sem dor, a voz não se ouve, nunca se ouve a voz de um velho. A pedir licença para sentar-se enquanto o autocarro avança intrépido pela velocidade, o corpo já não é o que foi e as mãos trémulas impedem que este fique seguro, bem sentado e acomodado contra o assento almofadado. Alguém ajuda aquela mulher velha a picar o bilhete, levanta-se, pica o bilhete, devolve-lho, oferece o lugar porque ela, simplesmente, prefere ir à direita do condutor, do que atrás dele. Sente a protecção, como se esta existisse.
Aos dias largos acrescentam-se complacentemente anos, idade, horas de peso que ao longo dos anos vão pesando mais. Combinam-se encontros, ama-se, esquecem-se compromissos, viaja-se, têm-se filhos, escrevem-se coisas que podiam ser livros e outras vezes escreve-se poesia, porque há quem diga que em cada português há um poeta, um homem ou mulher da prosa. Pessoas que gostam da solidão, uma coisa muito portuguesa também. Depois fica-se velho à mercê da bondade dos outros. Muitos destes encaram a velhice com reparo pois ninguém gosta de perder capacidades, qualidades, o velho isto, o velho aquilo, quer-se afastar a velhice do horizonte mais próximo e observar como corpos novos e estranhos podem ser tão interessantes.
Continua o amor, como segunda parte de um filme depois de um intervalo, a vida acometida de pequenos traços de singularidade estranha-se também, os corpos mudam, alteram-se, as canetas deixam de escrever com tanta frequência, a solidão já não é uma vantagem, é uma tortura. Quando se fica velho diz-se aos outros não ser preciso ajuda, e em momentos inesperados a ajuda é precisa e preciosa. Aparece por vezes do nada, porque se é velho e as pessoas têm pena. Acontece muito ficar-se isolado para se evitar a pena dos outros, os velhos sabem, porque o fazem muitas vezes.
A descer um degrau da escada de um autocarro, aquela mulher velha deseja a compreensão dos outros embora sinta no seu íntimo o gozo imenso de ter vivido, de gostar de tudo o que terá realizado, apenas um pouco triste por não conseguir lutar contra a degradação física do corpo.
Daí a tristeza, daí a solidão que já não serve para escrever nem serve para mais nada. A solidão movida pela pena dos outros e de uma vida abandonada por muitos que a esta poderiam reportar. É a solidão dos velhos que espraia-se visivelmente aos olhos dos outros, numa tristeza pesada, birrenta, o corpo a ceder perante tal procissão de fé nos grandes feitos, nas grandes coisas, nos dias vindouros rodeados de esperança, um pouco toldados por se ficar retido na velhice, cansado, sem vontade de fazer nada. Com muita vontade, aliás, com poucas forças e recursos para empreender vontades. Fica-se velho para isto.

© [Ruben P. Ferreira]

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