Correr atrás da verdade


Pessoas escondidas atrás de panos dominam como vultos bonecos de marionetas, toda a sociedade. Elucidando o contexto em que se movem, quais os seus objectivos, o romance sugere qual o seu paradeiro relacionando factos aparentemente distanciados e sem relação. Verídicos, diz-se, cabendo ao leitor fazer a sua pesquisa privada, interpretar cada prova, confinando este percurso ao descobrimento das metas e dos objectivos de tais poderes ocultos.
A cadência desta revelação é realizada abarcando com intensidade o género thriller, suspensa ao som de pistolas Beretta com silenciador que vão sendo disparadas quando menos se espera. A respiração do leitor faz-se, portanto, através de grandes convulsões, enquanto o autor oferta pormenores explicitados depois de um esquecimento forçado, em avanços e recuos constantes. Reconduzindo na acção as personagens que compõem a teia de interesses e o seu desembaraço.
O mote é a denúncia da autenticidade moral do homicídio d’O Último Papa, João Paulo I, Albino Luciani, Bispo de Veneza, em 1978. A teia vai ficando cada vez mais complexa. Explica-se em que circunstância Sá Carneiro poderá ter sido morto, a relação desse homicídio com a Loja Maçónica Propaganda Due (P2); contra que poderes Fidel Castro tem lutado, embora nunca neutralizado; a quem era destinado o míssil que atingiu o voo TWA-800, matando todos os passageiros.
Sarah Monteiro é uma jovem jornalista portuguesa radicada em Londres. Depois de uma viagem a Lisboa, no regresso a casa, é estranhamente perseguida sendo, de seguida, alvo de uma tentativa de homicídio. Contudo, alguém morre no seu lugar. Sarah é então acusada do homicídio de inúmeras pessoas, incluindo o do seu potencial assassino. Será forçada a procurar a razão desse interesse mórbido pela sua pessoa onde menos esperava, fugindo, escondendo-se da morte, outras vezes perigosamente exposta.
O Último Papa conta como uma Igreja fragmentada pela corrupção, ligada por portas e travessas a agências de informação internacionais, como a CIA, o FBI, o SIS, o M16, e à política de diversos governos, sobreviveu nas últimas décadas, aumentando grandemente um capital financeiro mantido incógnito e influências na manutenção de democracias e/ou ditaduras. Explicando a proveniência de somas de dinheiro lavado do Vaticano, sujo por negócios relacionados com a droga, a venda de armas, a compra e venda de pornografia, a prostituição, diz-se. Outrora, pois agora as coisas mudaram, afiança o autor e a sua fonte. Agora tais homens de deus foram afastados dos seus cargos. Migraram da realidade para a ficção – para exílios luxuosos ou foram, simplesmente, apagados pela velhice.
Por vezes, sente-se que a fonte (principal) do autor pretende fazer um mea culpa, atenuando a consciência pesada. O livro condensa algumas passagens de interrogação e introspecção do narrador sobre os eventos a ocorrer, sobretudo sobre a culpa ou não culpa da Igreja, como instituição, nos pecados cometidos pelos seus correligionários – quer em termos de autoridade moral quer na culpa factual.
Como homens da confiança de uma organização maçónica (religiosa) que deriva directamente e subversivamente da Grande Oriente d’Italia, a P2, Propaganda Due, estabeleceram um plano de ascensão ao poder denominado Piano di Renascita Democrática della Loggia P2? Como a CIA financia essa organização? Quais os autores morais do rapto e assassinato de Aldo Moro, líder do partido Democracia Cristiana, raptado a 16 de Março de 1978, como Paul Marcinkus, Arcebispo norte-americano, do Banco do Vaticano, Roberto Calvi, banqueiro milanês do Banco Ambrosiano, Licio Gelli, Mestre Venerável da Loja Maçónica P2 e Jean-Marie Villot, Cardeal Francês da Igreja Católica Romana terão operado a conquista e manutenção do poder no seio da Igreja Católica, bem como a autenticidade moral do homicídio do Papa João Paulo I?
Deu-se voz (corpo) ao empenho de um dos seus altos dignitários (fonte), que colocou a mão na consciência e na mão do autor – a ser verdadeiro o documento no final do livro –, um conjunto de informações TOP SECRET, cosidas num enredo que mistura ficção e realidade – o objectivo da fonte, por fim, o objectivo do autor, desvendando o mistério e deitando cá para fora a verdade, a ser tratada em tempo útil pela opinião pública.
Podem ser considerados alguns efeitos colaterais nesta última semana: o desaparecimento misterioso do site de divulgação da Loja Maçónica Propaganda Due (P2).
Nesta narrativa de acção contínua, com uma forte vertente cinematográfica, há pouco tempo para meditar, urge resolver o mistério. Em alguns capítulos (a maior parte destes curtos), Luís Miguel Rocha utiliza a técnica do flashback para fazer recuar a acção no tempo, até aos últimos dias de vida de João Paulo I (1978), contextualizando o percurso de algumas personagens, acrescentando informações sobre eventos que sucederam ou sucederão no futuro.
Fez da história verídica um romance, um objecto literário empolgante, abrindo o jogo da conspiração, recuperando o desenho da relação estreita entre o poder político e religioso, identificando as implicações dessa contaminação.
Inicialmente, sente-se uma certa repetição estilística e narrativa – da negação da afirmação, da resolução que oferece uma lógica de retórica. A partir da página 150, a história autonomiza-se, sem qualquer refreio. Basta-se como romance, pela densidade, diálogos e emoção página a página. A sua escrita tem caligrafia suficiente para se autonomizar para além dos factos descritos.
O livro também revela uma tentativa muito séria de reabilitação da imagem da Igreja Católica perante os fiéis, os descrentes e a massa de gente desacreditada por toda a corrupção, visível, insinuada ou conhecida, pelos problemas de pedofilia, pela culpa no genocídio de descrentes durante as Cruzadas, apesar das desculpas públicas de João Paulo II. O Vaticano, ‘um Estado hermeticamente fechado dentro de outro Estado’, é o palco principal, giratório, onde tudo decorre, sobretudo, em países fortemente ligados ao catolicismo.
Perpassa a ideia de um Deus que castiga os ímpios e os bons. É uma convicção mordaz, cínica, que confunde os leitores. Luís Miguel Rocha não é explícito quanto à crença do narrador (autor), pese embora o facto da presença de Deus ser constante durante a construção arquitectónica da narrativa.
O terceiro segredo (mito) de Fátima é revelado como tendo sido uma mentira inventada para encher o bandulho e a consciência moral e espiritual dos crentes. É uma informação que acicatará a consciência dos católicos mais devotos. A cena do transe de Lúcia perante Albino Luciani suscita interrogações sobre a “santidade” dessa pessoa. A confusão entre a identidade de Jesus e de Deus, apesar de relatada independentemente no início do romance, por exemplo, contraria a ideia de um Deus, na sua essência, bondoso, que perdoa e aprecia a Sua Criação.
Este não é o mote principal do enredo. Porventura, esse posicionamento pode ser interpretado como consequência de uma clausura moral e religiosa promovida pela Igreja nos últimos séculos, proibindo, por exemplo, a leitura da Bíblia. Tudo o restante está contextualizado com segurança, revelando solidez na investigação e maturação literária, o que é assinalável ao terceiro livro (romance).
A edição portuguesa conta com 35,000 livros impressos. Os números da primeira edição espanhola rondaram os 30,000, faltando ainda contabilizar os países anglófonos e Itália. Daqui a três meses perceber-se-á definitivamente se o autor é o Dan Brown português. [Ruben P. Ferreira]


Título: O Último Papa
Autor: Luís Miguel Rocha
Editora: Saída de Emergência
Preço: €16,91 (preço referência Bertrand)
Classificação: Sete

2 comentários:

Anónimo disse...

Uma desilusão!
Uma história mal contada, pouco convincente, mesmo para um romance.

Anónimo disse...

Cara Maria Papoila, já sabe... qualquer livro recomendado por este apedeuta é de fugir!

RP

 

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