Debates - Round One - Think Positive - There is hope


Primeiro debate cheio de interesse apesar de uma assistência a meio gás. Filipa Melo manteve postura séria, assertiva, afirmando e reflectindo sobre o mundo editorial e os seus pruridos. Sofia Monteiro (editora esfera dos livros) não percebeu na totalidade a referência de Filipa ao mundo editorial português, quando ela referiu as diferenças para o mundo editorial restante - de resto do mundo. Bem tentou fazer perceber a necessidade de certos e determinados editores tomarem para si mesmos uma atitude diferente, podendo perder um pouco daquela necessidade capilar, ou melhor, dérmica, de se armarem em "maquilhadores" dos textos, intervindo na obra literária, no "objecto", sem pudor, justificando-o com a necessidade de 'dar ao leitor o que ele quer'. A dado momento, Rui Herbon, certamente imbuído de uma necessidade exacerbada de se autonomizar e autoafirmar, ou de expor-se ao ridículo, insinuou que apenas terá começado a escrever porque não conseguia passar do primeiro cápítulo dos livros que decidia ler. Bem, daqui, eu gostaria de dizer ao Rui que talvez fosse uma boa ideia começar a pensar em comprar outros livros, pois a história da Literatura é tão vasta, tão vasta, que apenas se lhe pode perdoar tal comentário por simples e casual ingenuidade. Quanto a José Luís Peixoto, muito lúcido, reflectiu com grande rigor e vagar, por vezes até com um sentido de humor que lhe é reconhecido, dizia eu, sobre o processo de escrever, sem acometer-se em excessos de linguagem. Afinal, a escrita é "um processo solitário", que pode ser compensado com exercícios, no seu caso, com a adaptação para cinema, culinária, teatro e etc. de um conto por um grupo de alunos que a este acorreram em busca de criatividade, entre outros projectos semelhantes já concretizados, no mesmo âmbito. Depois, o resto, aquele comentário mais longo daquele senhor eloquente na assistência, falando de um tempo atrás, volvido (não, ainda não vi o filme mas apropriei-me da adaptação do título). Tinha razão quando esmiuçava a viragem dos jornais, que optando pelos suplementos de economia transformaram os parcos suplementos literários em oásis cada vez mais pertence da coutada de tribo por definir. Alguém representando uma editora cujo nome não recordo terá dito que se edita muito lixo, dificultando a publicação de bons livros. Em viagem para casa, discutindo o assunto, chegámos à conclusão que as editoras têm um papel comercial em vez de 'serem fonte de criatividade' dos autores e dos leitores. A isto não é alheio o facto de apreciarem sobremaneira mexer na obra literária. Enquanto o fazem tendo como meta ou objectivo apenas o lucro, desmerecem e confundem o que é essencial num livro; em vez de o considerarem como reflexo da criatividade e da sensibilidade (muito 'íntima') desse alguém que se expõe, aos seus gostos, 'à sua visão do mundo'. Fossem outros os critérios de selecção, acrescentando igualmente a pertinência da história, a arquitectura do romance, o próprio léxico e a sintaxe, e teríamos obras literárias com linguagem apelativa que poriam o leitor num limbo, o de aprender, questionar-se, sendo provocando pelos motivos maiores, e não pela menoridade. Com a proliferação de novas editorias reina o 'caos', expressão ouvida por lá também, livros que duram 'menos de quinze dias em livrarias'. Quando as pessoas estão a tentar perceber que livro é aquele já este foi esquecido e substituído por outro. Terá sido uma aposta numa estratégia um pouco menos facilitista, embora comercialista, em torno de O Último Papa, de Luís Miguel Rocha, editado pela Saída de Emergência? Um silêncio confrangedor emerge daquela publicação, pois aquilo mexe com muita gente. Por exemplo, aquele livro não é poesia, mas é literatura, conta uma história. Não é uma obra para corromper uma noção qualquer de Literatura. Num momento em que os modismos comprimem a escrita de livros em exercícios de letargia linguística, de descaso e expressão meramente plástica, como se estivéssemos acedendo a pedaços fragmentados da memória do autor, espartilhados por narrativas desconexas, a maior parte das vezes sem sentido, é apreciável o posicionamento literário do autor de O Último Papa, questionando, provocando, com a vantagem de este romance ser 'baseado em factos verídicos', coisa para apimentar a polémica e encher medidas, financeiras e outras. Ao fim e ao cabo, tudo não passa de histórias, de pessoas com vontade de dizer ao mundo o que lhes vai na alma, no coração, na derme. De deitar cá para fora o essencial quando despidos - mais uma vez. [Ruben P. Ferreira]

1 comentários:

Anónimo disse...

Meu caro, quem tem necessidade de se autoafirmar escreve blogues, coisa que não faço. Tudo o que se escreve por pressão, encomenda, ou em série, acaba por conter disparates irreflectidos. Por isso lhe perdoo considerar que eu me queria autoafirmar e expor ao ridículo. De facto não vejo nada de interesse na ficção contemporânea, pelo menos na editada em Portgugal, seja por autores de cá ou le dá, tirando raras excepções. Mas os nossos gostos nunca coincidirão, a ver pelo destaque que faz do livro medíocre do FJV. Pena foi que não tivesse feito o seu comentário em pessoa. É sempre mais corajoso. Recomendo-lhe a leitura de livros com mais substância, alguns clássicos de capa e espada, por exemplo. Sempre o podia desafiar para um duelo no Bosque de Bolonha.

RH

 

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