Duelos imprevistos #1




Rui Herbon, autor premiado que nunca li, mas lerei (e cujos livros serão, a seu tempo, criticados), veio aqui explicar-me a razão da minha existência, das minhas opiniões, das minhas palavras, desafiando-me pelo caminho para um duelo, desde que eu leia Literatura, não lixo. Quero agradecer ao Rui a sua atitude tão generosa. Julgava que os escritores eram malta extraordinária, muito pró-activa mas pouco generosa com os outros seres que os rodeiam. Bem, no caso do Rui, revelou estar atento e ser corajoso, duas qualidades que prezo num adversário, sobretudo se este é um dito escritor premiado.

Ora, comecemos com os blogues.

O Rui comete um erro de análise ao afirmar que os blogues são espaços de “autoafirmação” – sobretudo, para quem diz ser escritor. Afinal, de que tipo de afirmação carece Nuno Júdice, Pacheco Pereira, ou o próprio Francisco José Viegas, cuja crítica ao livro tanto o incomodou? Todos têm blogues, todos publicam com regularidade. Considerar o último livro de FJV como medíocre é um exagero típico de quem necessita de argumentar justificando a falta de tolerância e arrogância exacerbada do seu comentário no debate, superiormente (se assim se considera) fora do contexto, da realidade – muito me surpreende que tenha decidido passar a escrever com tal atitude tão desinteressante, fraquinha, vá lá.

Quem tem necessidade de escrever fá-lo em blogues. Quem publica e não publica regularmente livros, escreve em blogues. Quem vê a escrita como um exercício de aprendizagem diária, escreve em blogues. Quanto a este assunto, parece que estivemos em discussões diferentes. As nossas opiniões nunca serão convergentes, pois embora leia blogues, o Rui indigna-se com aqueles que os criam. Eu, pelo contrário, sou uma pessoa atenta e apreciativa do fenómeno – muito me surpreende que tenha decidido passar a escrever com tal atitude tão desinteressante, fraquinha, vá lá.

Quanto ao destaque do livro de FJV e à sua opinião crítica, lamento apenas que considere que toda a Literatura deva ser divina e genial, como a sua. Ou que considere os outros ignorantes porque, refere, não lêem livros “com mais substância”, como alguns “clássicos de capa e espada”. O primeiro erro seu, subestimar uma opinião desconhecendo o autor e, porventura, as leituras que realiza. Agora, é estranho que tenha uma opinião tão radical e fundamentada de um livro como o do FJV, de que apenas terá lido, se as suas palavras forem verdade, o primeiro capítulo.

Sobre substância: não foi Deleuze quem escreveu que a matéria-prima, o principal de um livro é o seu miolo? Princípios e fins são pedaços menores, na opinião do filósofo. Concordo. Sabe porquê? É fácil terminar um livro e muito mais fácil é iniciá-lo. A partir da página 80 é que se vê quem tem na derme a vontade, quem tem coragem de continuar a avançar pelo interior da sua escrita, muitas vezes de si mesmo, em vez de se contentar com meros exercícios estilísticos, visuais, redundantes, que acabam por não ser pertinentes – muito me surpreende que tenha decidido passar a escrever com tal atitude tão desinteressante, fraquinha, vá lá.

Tenho pena que leia tão pouca ficção contemporânea, ou que esta o repugne com tamanha veemência. Leio Clássicos como leio Contemporâneos. Não os recuso. Seria ignorante se o fizesse. Andar com um Henry Miller na mão, reler com especial prazer um Jorge Luís Borges, um Philip Roth, um Enrique de Hériz, como um Cervantes, um Eça, um Deleuze, de tantos exemplos que podia dar, permite-me estar em sintonia com as minhas ideias e, por sua vez, com o mundo, com a contemporaneidade – muito me surpreende que tenha decidido passar a escrever com tal atitude tão desinteressante, fraquinha, vá lá.

A sua impertinência revela uma profunda falta de cultura e humildade, embora isso não faça de ninguém boa ou má pessoa. Expõe-se ao ridículo quando afirma como chegou à escrita e o que lê. Talvez fosse interessante, então, perceber a razão do seu alheamento quanto às verdadeiras razões porque chegou à escrita. Foi essa atitude irreflectida que permitiu-lhe dizer a uma plateia de leitores não passar do primeiro capítulo da maior parte dos autores contemporâneos que decide ler. Como justificação, acho ridículo e ingénuo, como afirmei anteriormente. Ninguém escreve lendo apenas os Clássicos, e se o faz cometerá, mais cedo ou mais tarde, erros graves – muito me surpreende que tenha decidido passar a escrever com tal atitude tão desinteressante, fraquinha, vá lá.

Resumindo, quem não lê e se inteira da realidade, da actualidade, não pode escrever. Apesar de todas as idiossincrasias que o diferem dos outros. Quem não lê contemporâneos é selectivo? Não. Gostei que tivesse escrito no seu comentário, “tirando raras excepções”, pois isso dar-lhe-á espaço de manobra para futuros comentários. Afinal, lê, mas apenas aquilo que interessa, le crème de la crème, confio. Corre o risco de isolar-se, quieto, numa morbidez povoada de convulsões, compulsões e critérios ocos. Os seus, única e exclusivamente – muito me surpreende que tenha decidido passar a escrever com tal atitude tão desinteressante, fraquinha, vá lá.

Falou de coragem, de "encomendas" e precipitações. Não fui corajoso porque não abri a boca e fi-lo a mando de alguém, de alguma vontade oculta. Saí fora dos 'eixos'. Tenho tempo (como vê, aprecio a meditação prolongada, ao bom nível dos habitantes do Tibete, os tibetanos) de falar com regularidade, mas perante tanta exultação sua, contive-me. A seu tempo falarei, pode estar descansado, por agora basta-me escrever sobre o que me apetece. Sobre os poderes ocultos, e isso, recomendo a leitura do novo livro de Luís Miguel Rocha, O Último Papa (pela Saída de Emergência). É reflexão q.b.. Fico surpreendido que aqui tenha vindo digladiar-se comigo, sobretudo se é pessoa para encarar os blogues de um modo tão preconceituoso, quiçá até com algum desdém. Fico, entretanto, a aguardar marcação de dia e hora para o tal duelo de "capa e espada" - julgo que pode considerar este post uma bofetada de luva branca. Prefere espada ou pistola? Não queria terminar sem deixar de lhe dizer: muito me surpreende que tenha decidido passar a escrever com tal atitude tão desinteressante, fraquinha, vá lá. [Ruben P. Ferreira]

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