de madrugada

As duas faces de um mundo que muda a todo o tempo, de todas as histórias que vão sucedendo, alegrando e entristecendo as pessoas, ficam visíveis. As pessoas mostram o que lhes vai na alma, fica tudo na fímbria de uma demonstração laminar, ao escaldar, ao frio de inverno. Observo essas coisas todas com um sono profundo, os meus olhos estão semi-cerrados, perto do fechamento. Acabam-se os prazos para cumprir e as noites perdidas que poderiam ter sido usadas a ler, a aprender outros ensinos e a confundir factos que depois têm de ser confirmados, a ousar desafiar uma incapacidade natural para fixar tudo, embora ninguém fixe tudo, mas é bom pensar que às vezes conseguimos aprender alguma coisa e aquilo ficar-nos na derme, fazer parte de nós, servir-nos para conversar com os outros concebendo ainda outros pensamentos reflectindo sobre uma profusão larga de temas, chegando ao limite de teorizar, inconscientes do modo inventivo. É bom fazê-lo. O pensamento vagueia, compele, emerge, fica emudecido, gosto desta palavra, emudecido, e gosto de a repetir muitas vezes, o pensamento apaga-se, esquecem-se os períodos de prestação perante os outros, a fazer trabalho duro, a tentar descobrir coisas, esquece-se tudo quando o sono vem de uma assentada, tranquilo, quieto, repito novamente, emudecido, fica-se em silêncio observando o dia raiar e a luz, muito intensa, cobrir-nos com a sua humanidade, afinal acordados, acabadinhos de levantar da cadeira, ainda de pé sem os ter posto na cama, o corpo todo dorido das mazelas da noite, as mãos cheias de cores de pinturas abstractas em cima de papéis vegetais e opacos, e aquela luz tergivesando sobre todo um espaço aberto, apanhando-nos mesmo no meio, onde os olhos até se fecham pois, habituados à escuridão anterior, ressentem-se com tanta claridade. É o corpo a dar de si, igualmente apagado apesar do todo aparentemente realizado. Ficam as conversas, as piadas e os risos, os comentários sarcásticos sobre uma condição decrépita, todos a rodos empolgados para cumprir aquela execução, sendo por vezes séria outras um pouco menos, a lamentação, os corpos deitados a pedir cama e as cores cumpridas como ressalva emergem dos desenhos, das telas, dos quadros expostos, do pavimento das paredes dos tectos abertos do frio que comprime. Por isso é que é tão bom ver-te, chegar a casa depois da luz ter ficado fechada atrás da porta, da claridade contida atrás de uma janela, sentido o prazer de enfiar o corpo em lençóis de flanela, obter da vida uma felicidade tão genuína correndo tão próxima de uma enormidade de sílabas que poderiam ser agora radriogafadas, o sorriso, as palavras ternas, o desejo de fazer o bem, o cuidado, os gestos simples e a mestria da sua delicadeza, a beleza desse conjunto, até os olhos fecharem-se de novo para recuperar. A meio da tarde, depois de muitos livros abertos em cima da cama e de cobertores, o silêncio instala-se novamente, como se a vida fosse um esquisso a completar a que acorremos diariamente, acrescentando um pormenor, uma linha um ponto que podem ser apenas uma palavra ou um estado de espírito, estando tudo aquilo exposto numa parede branca, limpa, pronta para que o milagre de cada manhã aconteça. O lugar dos meus olhos fica humedecido em cada um desses momentos gloriosos quando, apesar da efemeridade da vida, da fragilidade dos corpos, sucede o milagre de adormecer aconchegado e de acordar com os beijos genuínos dela.
© Ruben P. Ferreira

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